Dinheiro é o melhor remédio. Artigo de André Islabão

Foto: Jefferson Rudy | Agência Senado

Mais Lidos

  • A salvação do presbítero está no humano. Artigo de Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos

    LER MAIS
  • Entre inteligência artificial, cosmopolítica e novas ecologias do valor, pensador propõe reinventar as infraestruturas que organizam nossos desejos e reabrir a imaginação para outros futuros possíveis

    “Nervos pra fora!” Comunismo ácido recarregado. Entrevista especial com Erik Bordeleau

    LER MAIS
  • Ucrânia: primeiros humanos mortos por drone controlado por IA. Artigo de Gianluca Di Feo

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

26 Agosto 2026

Segundo estudo, nos últimos 20 anos o Bolsa Família teria evitado mais de 700 mil mortes e mais de 8 milhões de internações hospitalares.

O artigo é de André Islabão, publicado por ExtraClasse, 25-08-2026.

André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine: sem pressa para cuidar bem, O risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma: ensaios não controlados do Dr. Pirro.

Eis o artigo.

O título dessa reflexão é voluntariamente inexato, mas convenhamos que é provocativo a ponto de animar um debate sobre a questão. Alguns dirão que dinheiro e remédio são coisas bem diferentes. Porém, se imaginarmos como remédio qualquer tipo de intervenção humana que possa evitar e tratar doenças ou, até mesmo, prolongar a vida das pessoas, então é evidente que dinheiro pode ser considerado um ótimo remédio.

Essa ideia tem suas origens no conceito dos “determinantes sociais da saúde”, segundo o qual nossa saúde é determinada não apenas por coisas como glicemia, nível de colesterol ou pressão arterial. Tal conceito reconhece que muitas das coisas que influenciam a nossa saúde – e, indiretamente, até mesmo a glicemia, o colesterol e a pressão arterial – dependem de fatores socioeconômicos que costumam passar despercebidos por médicos e pacientes nas consultas.

Uma forma de corroborar essa influência é a demonstração, em vários estudos, de que a expectativa de vida das pessoas pode ser muito diferente em países ricos ou pobres. Porém, muito mais importante é a demonstração de que a diferença na expectativa de vida mesmo em pessoas de bairros diferentes de uma mesma cidade – algumas vezes com poucos quilômetros de distância entre si – pode chegar a mais de 20 anos. Ou seja, as pessoas mais ricas em uma cidade podem viver décadas a mais que seus vizinhos menos privilegiados.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Estilo de vida

Isso ocorre por vários motivos, entre eles as melhores condições de moradia (casas mais protegidas das intempéries climáticas em bairros arborizados e com ar mais limpo), empregos menos extenuantes e com melhores salários que dão acesso a serviços de saúde de mais qualidade, além de maior autonomia em relação ao seu tempo, o que permite que as pessoas mais ricas possam realmente escolher a forma como se dedicarão aos cuidados relativos à saúde.

Isso nos leva à questão bastante propagada na mídia de se escolher um estilo de vida saudável como forma de obter saúde e longevidade. O que este conceito esconde é que, enquanto os mais ricos podem realmente escolher entre um ou outro “estilo de vida” que inclua dietas saudáveis, hobbies prazerosos e horas a fio em academia, os pobres que formam a imensa maioria da população só podem continuar lutando pela própria subsistência e não costumam ter qualquer autonomia para decidir o tipo de comida que irão comer ou o tipo de atividade física que irão praticar. Nesse sentido, a chamada “medicina do estilo de vida” será sempre apenas uma forma elitista de medicina, a menos que passe a considerar seriamente – e se esforce para melhorar – a realidade daquela enorme parcela mais pobre e vulnerável da população.

O fator renda

Em outras palavras, é evidente que alguém que acorda às cinco da manhã para pegar duas conduções até um trabalho estressante apenas para voltar à noite para casa já esgotado jamais terá condições de optar por um “estilo de vida” saudável. Neste caso, seria muito mais adequado falarmos em “condições de vida”, já que essas são as condições impostas a elas pela sociedade e por níveis vergonhosos de desigualdade social. Atribuir a má saúde e a pouca longevidade dessa parcela da população a doenças que “caem do céu” é apenas uma maneira educada e cínica de lavar as mãos e esconder o problema debaixo do tapete.

É interessante também observar que os estudos que avaliaram a relação entre riqueza e saúde em geral na população chegam à mesma conclusão: existe uma relação direta entre as duas, com as pessoas apresentando melhor saúde à medida que aumentam sua faixa de renda familiar. Mas também é importante notar que essa relação atinge um platô – o qual varia entre os países estudados –, de maneira que após um determinado nível de renda os ganhos em saúde passam a ser insignificantes. Ou seja, embora a saúde e a longevidade de pobres e ricos seja em média bastante diferente, essa mesma diferença de saúde e longevidade entre ricos e bilionários é insignificante.

Porém, o achado mais interessante desses estudos que avaliam as relações entre renda e saúde é que os maiores ganhos em saúde e longevidade podem ser obtidos por meio de intervenções sobre aqueles grupos localizados nos estratos de renda mais baixa da população. Nesse aspecto, chama a atenção um estudo publicado em 2024 no Lancet por um grupo de pesquisadores de vários países financiados pelo Reino Unido, o qual avaliou os ganhos em saúde e longevidade relacionados aos chamados “programas de transferência de renda”, no caso o Programa Bolsa Família do Brasil. Segundo o estudo, nos últimos 20 anos o Bolsa Família teria evitado mais de 700 mil mortes e mais de 8 milhões de internações hospitalares, com efeitos particularmente robustos na redução da mortalidade infantil e na saúde dos idosos. Esses dados podem transformar o Bolsa Família em uma das iniciativas mais custo-efetivas para melhorar a saúde da população e aumentar sua longevidade, com previsão de evitar outras 700 mil mortes até 2030.

A conclusão a que podemos chegar é que os determinantes sociais da saúde são muito importantes e que a renda familiar tem alto impacto na saúde das pessoas. Além disso, os fatores relacionados a renda e qualidade de vida interagem com as intervenções médicas tradicionais. Eles podem potencializar a saúde, como quando o Bolsa Família exige que as crianças estejam com a vacinação em dia, ou podem reduzir os efeitos de intervenções médicas que funcionariam mais em pessoas com melhores condições de vida. Este seria o caso, por exemplo, de tentarmos reduzir a obesidade em nível populacional apenas usando as caríssimas “canetas emagrecedoras” sem lembrarmos que a obesidade é uma doença fortemente ligada à pobreza. Ou seja, algumas vezes o dinheiro – e, por conseguinte, melhores condições de vida – é realmente o melhor remédio a ser oferecido.

Leia mais