25 Agosto 2026
“O resgate do que há de verdadeiramente humano na figura do presbítero torna-se imperativo e assume ares de prevenção a tanto sofrimento que temos visto e que parece nos deixar com certa impotência”, escreve Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos, coordenador do clero da Arquidiocese de Londrina e reitor do Seminário Teológico Paulo VI.
Eis o artigo.
Não são poucas as vezes que necessitamos recuperar o óbvio! Deus nos salvou no humano que somos quando o seu Filho se fez Ele mesmo, homem! A historicidade da encarnação é o elemento por excelência do projeto salvífico do Pai.
Chegam-nos de todos os lados, em tempo real, situações dilacerantes envolvendo presbíteros de todas as idades. Não existem, a priori, diagnósticos simples e muito menos simplistas para abordar tão complexa questão. Os padres em geral pelejam para que o seu ministério se desenrole em trilhos lubrificados pela aceitação de suas limitações e contingências, enquanto se esforçam para serem fiéis a quem os convocou a trabalhar na vinha do Senhor.
Parece simples! Mas é uma tarefa hercúlea! Sabe-se que o padre atual não tem nenhum script que lhe forneça as seguranças adequadas, como as possuíam os seus congêneres até ao final do século passado. Num mundo secularizado, que presenteia a Igreja com a indiferença e a decretação da sua irrelevância, ser presbítero é literalmente uma arte! Um equilibrista! Cuidar do ser humano sarando as suas feridas, sujar as mãos na argamassa concreta da vida e viver a sua existência como um homem a quem Deus confiou a “guarda do seu palácio”, gera nesse ser humano normal e não comum uma necessidade automática de cuidado de si mesmo! O que, já sabemos, raramente acontece!
O sacramento da Ordem não lhe retira a sua condição. Este princípio tão olvidado (muitas vezes conscientemente) seria um bom começo de conversa para repor o trem em seu devido trilho e evitar muitas situações delicadas e constrangedoras na vida do presbítero. Nenhum homem ordenado deixa de ser o homem a quem a Igreja lhe conferiu tal situação! O ministério não o eleva! O rebaixa, no pleno sentido de quem toma o avental e lava os pés, como fez o único Mestre, Jesus de Nazaré, na última ceia. A ordenação o aproxima dos seus irmãos batizados e lhe confere a prerrogativa, por excelência, de caminhar junto com eles no Caminho da Salvação. Servindo-os!
Ora, se o presbítero tem dificuldade em assumir esta postura e identidade e os irmãos leigos, por vários motivos, o “sacralizam”, ele correrá o risco de se desintegrar causando grandes males à sua pessoa e à Igreja. A Ordem ordena-se ao desenvolvimento da graça batismal e a serve! O batizado e o ordenado participam do sacerdócio de Cristo, “o único e eterno sacerdote”. A presença de Cristo no seu ministro não deve ser entendida como se este estivesse premunido contra todas as fraquezas humanas, assim nos diz o Catecismo da Igreja.
Na nova aliança, não existe outro sacerdócio além do de Cristo. Esse sacerdócio é o cumprimento e a superação de todos os antigos sacerdócios. Na Igreja, todos os fiéis são chamados a participar dele. O ministério hierárquico é necessário à edificação do Corpo de Cristo, no qual essa vocação se realiza, reafirmava a Comissão Teológica Internacional.
Parece-me que a reposição desta verdade seja fundamental para a abordagem da saga dos presbíteros. Carregamos tesouros em vasos de argila, no entanto, não carregamos asas que nos diferenciem ontologicamente dos irmãos assinalados pelo mesmo Batismo, ou até de todo o ser humano. Nenhum gesto, nenhuma indumentária, nenhuma liturgia sumptuosa, nenhum abuso cometido (crime) salvaguardará teses falaciosas e heréticas! Somos o que somos pela Graça e Ela nos sustenta.
Estou plenamente convicto de que a redescoberta do que somos como ministros ordenados aliviará o fardo e o jugo que parecem nos atormentar! Por outras palavras: não tenho dúvidas de que os irmãos que padecem tormentos existenciais e mergulham em abismos inauditos se afastaram essencialmente do que o ministério na sua beleza singela lhes pediria e adentraram num mundo idealizado e perigoso.
Por sua vez, o padre deste século navega em meio a um denso nevoeiro que envolve esta mudança de época repleta de desafios culturais, ao que se conveniou chamar de pós-modernidade. Ele tem artefatos do passado inapropriados para o presente; inócuos, deveras! Qualquer nostalgia de tempos que nunca viveu, tratando-se dos mais jovens, ou aprisionamento a épocas que lhe proporcionaram seguranças, sendo mais velhos, é resvalamento para o precipício. Este tanto pode se apresentar na aridez de um deserto existencial profundo como se transformar na mediocridade de uma vida de rotina estéril!
O presbítero desta época não se pauta por certezas! Aliás, Bento XVI já reconhecia a consistência da dúvida no processo da fé! Ele terá incertezas e conviverá com elas com a galhardia da confiança no Mestre. Portanto, o presbítero do amanhã, chamado hoje, é acima de tudo um peregrino na fé, homem de muita fé. Uma fé madura, esclarecida, partilhada.
Poucas seguranças o acompanharão, começando pelas riquezas materiais. A Igreja será o que Ratzinger já nos alertava que seria na década de setenta: pobre e minoria! No Brasil, um país em que 1% detém 34% da riqueza nacional e em que mais da metade está endividada e vive com salário mínimo, o presbítero será incoerente se ostentar ares de classe média ou aburguesar-se. Os Seminários terão que levar isso em conta no processo de formação!
O presbítero do século XXI tirará as sandálias ao se aproximar dos seus irmãos e encetará com eles uma caminhada solidária na busca da Verdade, que ele já conhece pela fé. Como bem nos lembra Tomás Halík em suas obras, este padre não terá medo do diálogo, do confronto e não será prepotente, nem aparentará poder. Os templos esvaziados não o intimidarão e a decadência da cristandade lhe mostrará a beleza do entardecer. Será um presbítero íntegro, inteiro, pois plenamente humano! Só assim, ele escapará das armadilhas que ilusões óticas e visões equivocadas do ministério lhe trariam!
Este século se imporá aos novos ministros ordenados com questões novas, como afirma Leão XIV na Magnifica Humanitas. Tratar-se-á da defesa intransigente do que é verdadeiramente humano, imago Dei, quando a IA ocupará espaços cada vez maiores e poderá disputar com os homens a hegemonia no planeta, requerendo direitos e a própria consciência.
O presbítero das próximas décadas não terá como se esconder sob panos e rendas, nem poderá apelar para qualquer benevolência cultural favorável. Reconhecerá no terreno que o presbitério é não só fundamental, mas imprescindível. Não caberão carreiras “da solo” no chão escaldante deste século. Caminhar junto e peregrinar em grupo devem ser a tônica dos presbíteros destes tempos. A busca por multidões “seguidoras”, ainda que seja momentaneamente inebriante, não garantirá a fidelidade ao Evangelho a que qualquer evangelizador se propõe.
Outrossim, o presbítero que agora inicia o seu ministério sabe que 65% das crianças de hoje terão no futuro profissões ainda desconhecidas. E ele vai estar lá! Sob denso nevoeiro ético, será obrigado a discernir à luz do Evangelho o melhor para o ser humano, apontando-lhe o caminho da salvação.
Nos tempos vindouros que já sentimos, a figura do presbítero será tão ou mais necessária do que em qualquer outro momento histórico. O seu humanismo por excelência, a sua capacidade ímpar de estabelecer relações entre pessoas e conexões entre acontecimentos, serão o grande diferencial e legitimarão a sua vocação. Saberá melhor do que ninguém que Deus nunca abandona o ser humano em nenhum tempo ou lugar!
Será literalmente um perito de Deus e perito em humanidade e exercerá o seu múnus profético, ao custo da reputação e até da sua vida. Não conhecerá glamour na vida sacerdotal, porque os termos “sucesso e êxito” não rimam com a cruz do seu Mestre e Senhor! Contudo, a singeleza de uma vida com os tons do “bom samaritano” gerará inevitavelmente um estado de felicidade e bem-estar.
O resgate do que há de verdadeiramente humano na figura do presbítero torna-se imperativo e assume ares de prevenção a tanto sofrimento que temos visto e que parece nos deixar com certa impotência.
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