29 Abril 2026
"Meu sincero desejo é para todos aqueles que sentem a vocação de sacerdotes: não tenham medo nem orgulho. Deus dispõe da nossa história: assim como o rio nasce na montanha e deságua no mar, nós podemos cuidar de suas margens, sem pretender inventar a água ou regular seu fluxo", escreve Vinício Albanesi, em artigo publicado por Settimana News, 28-04-2026.
Vinicio Albanesi é professor do Instituto Teológico Marchigiano, presidente da Comunidade de Capodarco desde 1994 e fundador da agência jornalística Redattore Sociale junto do padre Luigi Ciotti, da Coordenação Nacional das Comunidades de Acolhida (CNCA), da Itália.
Eis o artigo.
A escassez de vocações sacerdotais foi recentemente destacada mais uma vez. Três documentos solenes foram utilizados para fornecer explicações e sugestões a respeito da crise vocacional: O dom da vocação sacerdotal, Ratio Fundamentalis Sacerdotalis (Congregação para o Clero, 2016); Diretrizes e normas para seminários (Conferência Episcopal Italiana, 4ª Edição, 2024); A revisão da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, em Uma perspectiva sinodal missionária (Relatório Sinodal, Grupo nº 4, 2026).
Os documentos substanciais insistem na dimensão da "formação", que diz respeito aos sujeitos em preparação para o sacerdócio, às características necessárias, aos percursos de formação, aos estudos, aos tempos e aos métodos pastorais de acesso ao sacerdócio.
Talvez uma abordagem diferente seja útil ao se considerar o fenômeno da raridade das vocações sacerdotais. Algumas breves considerações sobre a religiosidade do nosso país são pertinentes.
Religião natural
A primeira consideração diz respeito à religiosidade cristã tal como é vivenciada hoje.
Uma religiosidade que subverteu o cristianismo, trazendo a fé de volta à dimensão racional. O conceito de Deus não está mais orientado para a verdade bíblica, como expresso na religiosidade judaico-cristã. A religiosidade de "quem é Deus?" transformou-se em uma vaga noção de algo/alguém que deve ter dirigido e administrado a criação.
O dilema entre ciência e fé ainda não foi resolvido.
A sensação de imprecisão e, essencialmente, de não adesão a um Deus pessoal permanece ambígua.
A tendência à "religiosidade natural" é explicitamente prevalente. Uma religiosidade que só pode existir na dimensão humana, vivenciada em condições racionais, mas também afetivas, emocionais e da vida real.
O Deus único, onipotente e misericordioso não é percebido dessa forma: talvez ele seja verdadeiro, talvez seja útil, talvez exista, dizem até os fiéis. A própria Bíblia não é considerada sagrada, mas sim interpretada de forma mista e selecionada de acordo com os sentimentos e verdades de cada um.
As devoções oscilam sobretudo nos mistérios do mal e da dor, invocando uma bondade solicitada quando e somente se necessário.
As maravilhas do mundo, sejam naturais ou científicas, não inspiram "admiração e gratidão", mas são consideradas fruto da inteligência e da vontade humanas.
Os preceitos divinos são reduzidos a "honra teu pai e tua mãe, não matarás, não roubarás, não dirás falso testemunho". Uma ética reduzida às mesmas interpretações que cada um considera corretas para si. Esta é a razão para o abandono do sentido do pecado e a desnecessidade do sacramento da penitência. Ninguém se confessa, porque é o próprio ego que dita o caminho entre o bem e o mal.
Cristo, homem nobre
A figura de Cristo é apreciada pela misericórdia, paz e perdão que proclamou. Sua dimensão espiritual e transcendental é questionável. Seus ensinamentos são, por vezes, acessíveis, por vezes, inacessíveis.
Os textos nobres (Pai-Nosso, Bem-Aventuranças, Magnificat) são selecionados. A primeira parte do Pai Nosso, que se refere a Deus, é omitida para enfatizar a segunda parte: dai-nos o nosso pão, perdoai-nos as nossas dívidas, não nos abandoneis… Algumas bem-aventuranças são exaltadas, outras são reservadas apenas para alguns predestinados: ser humilde, manso, sincero, pacífico, fiel… Maria é exaltada por sua humildade, obediência e por ter aceitado ser mãe.
Preferimos exaltar o Cristo triunfante, esquecendo-nos de Jesus crucificado.
A Igreja, um corpo de adoração
A Igreja não é considerada o povo de Deus que louva, honra e bendiz a Deus em nome de Cristo e do Espírito Santo. Ela é considerada um corpo de culto, com muitas igrejas, campanários, instituições de caridade e ritos confiados a pessoas consagradas, com uma hierarquia muito rígida que inclui o Papa, bispos, padres e diáconos. A Igreja é composta por fiéis cristãos batizados, aos quais são reservados certos deveres.
Aqueles que receberam o sacramento da Ordem são pessoas sagradas, destinadas à adoração, independentemente de sua filiação religiosa. As congregações religiosas, tanto masculinas quanto femininas, que fizeram votos de pobreza, obediência e castidade têm condições especiais.
Muitas pessoas batizadas têm dificuldade em justificar escândalos que contradizem suas crenças. As organizações religiosas variam muito, dependendo de seus ritos e culturas. Cada vez mais pessoas reivindicam uma ortodoxia que tenha sido mantida como tal por séculos.
O novo presbítero
Qualquer pessoa que considere tornar-se padre enfrenta um ambiente desafiador. Na linguagem eclesiástica, os deveres do sacerdócio são precisos, assim como as áreas de sua intervenção: culto, trabalho missionário (pastoral) e caridade.
Em termos explícitos, o sacerdote (assim como os religiosos) pode expressar sua missão escolhendo entre
- assistência pastoral (organizações católicas, paróquia, movimentos católicos, culto),
- estudos (nas diversas disciplinas sagradas, da Bíblia à Patrística, da Liturgia à Moral, do Direito à História Eclesiástica),
- Trabalho social (comunidades para jovens, para pessoas com deficiência, para idosos, para cuidados médicos).
- A escolha nem sempre é clara e desejada; muitas vezes é condicionada por circunstâncias imprevistas ou indesejadas.
Independentemente da escolha, o novo sacerdote deve ser capaz de cumprir algumas condições essenciais:
- Fé: não parece ser algo tão grandioso. Fé refere-se a uma profunda convicção na religiosidade cristã, considerada um valor pleno e seguro, que traz felicidade, abrangendo a dimensão humana e espiritual.
- O novo sacerdote deve estar ciente de uma jornada de solidão e equilíbrio, em termos de afeto, finanças e prestígio. Ele não terá um futuro glorioso: se busca prestígio, é melhor renunciar a ele; caso contrário, viverá em frustração e engano.
- Seja humilde, considerando sua vocação e ordenação sacerdotal como um privilégio, um dom puro do Espírito de Deus. Você nunca se sentirá digno de representar Cristo, o único ponto de referência para si mesmo e para os outros.
- Seja paciente com todos, certo de que o dom da fé não depende dele; ele apenas pode testemunhar uma grande oportunidade que lhe foi concedida.
- Saiba ter paciência consigo mesmo: a idade, as circunstâncias e a sua própria consciência lhe ensinarão que você sempre pode melhorar, mas também piorar.
- Que ele saiba nutrir sua espiritualidade da maneira que lhe for mais adequada. A oração, o silêncio e as ações realizadas em nome de Deus o gratificarão e o reconciliarão com as injustiças e traições que sofreu.
- Tenha uma visão completa da salvação: para os pobres, para os sãos, para os ricos. Cristo foi Messias, Profeta, Taumaturgo, mas acima de tudo, foi coerente até a sua morte.
- Reconheça que a salvação começa na vida de hoje, com a construção do Reino a partir da terra, e termina com a glória de Deus.
- Ele sabe ser "irônico". A tolerância consigo mesmo e com os outros o impede de ficar triste.
- Por fim, peça perdão: por não ter sido apto para a missão, entregando-se à misericórdia de Deus.
Meu sincero desejo é para todos aqueles que sentem a vocação de sacerdotes: não tenham medo nem orgulho. Deus dispõe da nossa história: assim como o rio nasce na montanha e deságua no mar, nós podemos cuidar de suas margens, sem pretender inventar a água ou regular seu fluxo.
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