18 Agosto 2026
"A radicalidade da leitura levinasiana supera, porém, a perspectiva nietzschiana. Abraão simboliza a disposição ética fundamental: sair de si e fugir das armadilhas do Ocidente, aceitando pôr-se em contemplação e escuta do rosto e do rastro do Outro. Em vez de incorporar, pelo processo cognitivo, o que é diferente, podemos nos deixar interpelar por uma alteridade que permanece sempre misteriosa e irredutível."
O artigo é de Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Eis o artigo.
A Odisseia, filme de Christopher Nolan baseado no poema de Homero, suscitou inúmeras reações, às vezes polêmicas, que revelam, mais uma vez, após quase três mil anos, a capacidade de um poema interpelar e dialogar com o presente. Isto não é novidade, se pensarmos no Ulisses de James Joyce, que se encarna em Leopold Bloom, navegador pelos temas candentes e banais da modernidade, numa odisseia que se torna a própria vida cotidiana, e a radical superação da obediente e submissa Penélope pela rebelde e ressentida Molly Bloom. Desaparece em Joyce a nostalgia e a busca da restauração da ordem tradicional da humanidade: deus-pátria-família. E como esquecer 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, onde a meta não é uma Ítaca do passado, mas se encontra num futuro desconhecido, mas tecnologicamente acessível.
Na diversidade destas modernas interpretações da figura de Ulisses, vinga, porém, um denominador comum: Ulisses seria o símbolo da razão ocidental, de matriz grega. O próprio Dante, na Comédia, descreve um Ulisses que quer conhecer tudo, ultrapassando todos os limites: "não fostes feitos para viver como brutos". No século XX, a interpretação filosófica mais famosa aparece em Dialética do Esclarecimento. Para Adorno e Horkheimer, Ulisses representa o surgimento do sujeito racional moderno, que, seduzido pelo canto das sereias, se entrega, porém, à razão, para controlar a si mesmo e administrar o mundo.
Leitura de um Ulisses apolíneo, quase em oposição radical à interpretação nietzschiana, que sublinha a vocação dionisíaca de um Ulisses, que, como Zaratustra, não entende conhecer a si mesmo, mas criar o que ainda não existe. Para Nietzsche, "tornar-se quem somos" é princípio fundamental: não se trata de recuperar uma identidade perdida, mas produzir uma forma superior de si mesmo. Neste nosso tempo em que parecem vencer, nos espaços do poder, do saber e do dinheiro, os modernos Ulisses, "sem Ítaca", como Dave Bowman, figura de uma humanidade que ultrapassa a si mesma, assistimos ao delírio do transumanismo, a ideia de que os seres humanos podem e devem ampliar suas capacidades físicas, cognitivas e até emocionais por meio da tecnologia para transitar do humano para o pós-humano: engenharia genética; nanotecnologia; inteligência artificial; extensão radical da vida.
As conjunturas sociopolíticas da atualidade nos mostram, porém, novamente, o paradigma de um Ulisses cristalizado na e com a sua Ítaca. Amplos setores das sociedades ocidentais — em muitos países, já chegaram ao poder — vivem uma traumática nostalgia das tradições que teceram a organização social no passado. Este Ulisses, que estranha "o desmanchar no ar de tudo que parecia sólido", é fatalmente condenado ao exercício de um poder opressor e ainda mais violento. Neste caso, nada sobra do paradigma grego da racionalidade, nem do paradigma romano do estado de direito, mas parece-me inegável a continuidade do legado grego, que inferioriza e elimina o outro, encarado como bárbaro, em termos de gênero, o pobre, o indígena, o negro, o estrangeiro, o migrante… E, além disto, nada sobra da perspectiva universalista, oposição a todos os tribalismos, que prosperou nos marxismos, fruto irrenunciável da criticável aventura iluminista, que não conseguiu se libertar radicalmente do eurocentrismo colonialista.
É este contexto que me obriga a voltar à leitura que Lévinas faz da figura de Ulisses.
Para Lévinas, Ulisses é a versão poética do princípio de identidade e não contradição de Aristóteles, fundamento do conhecimento filosófico do Ocidente, desde sempre preocupado com a afirmação da identidade e da diferença, diástase, com relação a qualquer alteridade: A=A; A≠B. Legado este, que nos deixou Parmênides, inspirador do sistema platônico, quando, afirmando a primazia do ser sobre a materialidade do mundo, fundou o dualismo antropológico hierárquico, o da alma como um ente superior e do corpo como algo inferior que, reinterpretado e popularizado pela cristandade, ainda impregna o mundo ocidental.
Lévinas, hebreu conservativo com credenciais gregas, penetra no território filosófico grego, cavalgando o cavalo de Ulisses e Diomedes, e introduz uma alternativa existencial e gnosiológica, semítica, bíblica, à hegemonia indo-europeia, grega. É bom frisar que não estou demonizando os gregos e santificando os judeus, até porque, se para os gregos tem bárbaros, para os judeus tem goyim.
Para Emmanuel Lévinas, Ulisses simboliza o coercitivo movimento de retorno a si mesmo: depois de tantas aventuras, a sua identidade é algo irremovível e inoxidável e ele volta à Ítaca. Ulisses representa uma tradição filosófica que transforma a realidade em algo assimilável e reduzível ao ego e que procura reduzir a alteridade ao que já é conhecido pelo sujeito. O diferente é acolhido apenas para ser compreendido, integrado e, no fim, reconduzido ao "eu".
Em lugar dele, a alternativa é a figura de Abraão, que não fica e não volta para a sua terra, mas viaja para o desconhecido, atendendo a um chamado que o leva ao encontro do Outro, mesmo no conflito.
Tentativa análoga fez Nietzsche quando elegeu Zaratustra como alternativa ao apolíneo Ulisses. Se, em lugar de sublinhar as diferenças teológicas, enfocamos a dimensão existencial da jornada destas duas figuras, Abraão e o Zaratustra de Nietzsche são muito parecidos. Ambos rompem com o modo de vida anterior, abandonam o conhecido, vivem um êxodo constelado de imprevisibilidade, incertezas e perigos e são transformados em estrangeiros frequentemente não compreendidos e não reconhecidos pelos seus. É, com certeza, diferente o que sustenta as duas jornadas: em Abraão, a confiança em Deus; em Zaratustra, a confiança na própria capacidade de criar um sentido. Os dois, porém, simbolizam o ser humano que precisa abandonar um mundo para que outro mundo possa nascer.
A radicalidade da leitura levinasiana supera, porém, a perspectiva nietzschiana. Abraão simboliza a disposição ética fundamental: sair de si e fugir das armadilhas do Ocidente, aceitando pôr-se em contemplação e escuta do rosto e do rastro do Outro. Em vez de incorporar, pelo processo cognitivo, o que é diferente, podemos nos deixar interpelar por uma alteridade que permanece sempre misteriosa e irredutível.
Em Lévinas, a ética é a filosofia primeira. Em vez de começar pela pergunta "o que é o ser?", a pergunta inicial seja "qual é a minha responsabilidade com relação ao rosto e ao rastro do Outro?". Em suma, Ulisses pergunta "Como posso compreender o outro?" e Abraão responde "Como devo responder ao outro?".
Diante do rosto do Outro, sou interpelado por um mandamento ético implícito: "Não matarás."
Tenho uma pergunta conclusiva pela qual não encontro resposta nem em Nietzsche e nem em Lévinas: quando o Outro, irredutível alteridade, que me chama à responsabilidade ética, vira uma ameaça homicida e genocida, poderia aparecer insuficiente o apelo ao mandamento "não matarás". Com efeito, o próprio Lévinas teve dificuldade em lidar com a violência do Estado de Israel contra os palestinos. A sua filosofia oferece instrumentos para criticar toda forma de desumanização, inclusive a praticada por Estados, mas o próprio Lévinas nem sempre tirou todas as consequências dessa posição. Trata-se de uma contradição da qual as cristandades fornecem exemplos em todas as estações da história ocidental. Pensemos nas posições filosófico-teológicas de Agostinho, Tomás e toda a tradição Escolástica com relação ao tema da guerra. Pensemos na cumplicidade do cristianismo católico e protestante com a violência dos processos de colonização. Pensemos na secular perseguição dos judeus "deicidas" e na naturalização da longa estação da escravidão dos africanos.
Estaríamos helenicamente equivocados, buscando resposta em teologias marcadas pelo paradigma ontológico, mas estaríamos certos e seguros se seguíssemos o conselho de Francisco de Assis, que nos diz que os Evangelhos são a única leitura que pode guiar a caminhada: a palavra viva do Messias Jesus de Nazaré, que nos é dado encontrar, silenciosamente escondido nas cruzes e nas esperanças dos pobres, no sangue, misturado no Seu cálice e no cosmos, das vítimas, dos profetas e dos mártires. São eles, afinal, o Outro que estende a mão, que interpela e invoca por acolhida, reconhecimento da dignidade e compaixão. Não são sereias sedutoras que testam e despertam a nossa racionalidade controladora e ordeira para nos levar, quiçá, a um passado que já não existe, mas são "os pequeninos-mikroi" que ajudaram Jesus a se reencontrar consigo mesmo e com quem o enviou.
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