15 Agosto 2026
Filósofo e escritor, Fabrice Hadjadj leciona filosofia e literatura em Toulon; em 24 de agosto, ele será um dos protagonistas do Meeting de Rimini, participando da sessão "Pelo Humano e pelo Eterno: O Amor que Gera", ao lado de Anna Chiara e Gigi De Palo, Gabriella Gambino e Monica Santamarina.
Um dos pontos de partida será o livro Noè. Cominciare alla fine del mondo (Libreria Editrice Vaticana, 112 páginas, € 12,00), no qual Hadjadj propõe uma reinterpretação da história bíblica do Dilúvio, focalizando os temas da distinção como princípio da criação, da Arca como lugar onde a diversidade é preservada e da Aliança como promessa de esperança.
A entrevista é de Eugenio Giannetta, publicada por Avvenire, 08-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Em seu livro, Noé é descrito como um "estraga prazeres", pois se recusa a se conformar ao espírito de seu tempo e convida a estabelecer limites. Que tempo é esse de Noé?
Para construir minha narrativa, me baseei na Bíblia, é claro, mas também nas mais antigas interpretações rabínicas, particularmente aquela de Rashi de Troyes. Em primeiro lugar, há a afirmação feita pelo próprio Jesus em Mateus (24,8–9): "Nos dias anteriores ao dilúvio, eles comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos". Algumas traduções substituem "homens" pelo termo "eles". No entanto, aqui, esse "eles", com seu caráter indefinido, parece-me muito importante.
Noé: Commencer à la fin du monde, de Fabrice Hadjadj. (Salvator, 2025)
Os homens daqueles "dias anteriores ao dilúvio" haviam se tornado impessoais; entregavam-se àquilo que era, mais que uma festa, uma espécie de torpor ébrio, no qual já começavam a se afogar. Qual é a mensagem fundamental de Gênesis a respeito deles (6,12)? "E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida". Não apenas os homens, então, mas todo "ser vivo", desviando-se de seu caminho, divergindo de sua própria natureza. É por isso que os rabinos, no Midrash, inferem: "Isso ensina que a geração do Dilúvio fez com que animais domésticos machos cruzassem com animais silvestres fêmeas, e animais silvestres machos com animais domésticos fêmeas, e todos os animais machos com mulheres, e os homens com todas as fêmeas de animais..." Era isso que acontecia nos tempos de Noé: a mistura entre humano e não humano, silvestre e doméstico.
É por isso que você enfatiza que Deus cria distinguindo as coisas, enquanto os homens do Dilúvio acabam por confundir tudo, e descreve a arca como um espaço que preserva a diversidade...
Em nome do amor e da paz, tendemos a falar apenas de unidade, a ponto de confundir a verdadeira comunhão com a fusão ou a osmose. Mas a comunhão é uma união na diversidade. O próprio mistério da Trindade nos fala de uma unidade absoluta da substância em uma distinção absoluta das pessoas. Antes da primeira palavra criadora, há o caos, o vazio, o informe. Deus cria ao falar, mas também rompendo a uniformidade inicial, isto é, separando: a luz das trevas, as águas de cima das águas de baixo, os seres vivos segundo a sua espécie, o homem e a mulher.
Quando o Eterno pede a Noé para construir a arca, lhe fornece um projeto de construção cuja arquitetura permite não apenas a sobrevivência, mas também a restauração das diferenças reais, tanto horizontais quanto verticais: “Farás compartimentos na arca... construirás um convés inferior, um segundo e um terceiro...”
Onde você vê, hoje, uma confusão semelhante à do Dilúvio? Trata-se de uma crise ecológica, cultural ou espiritual, ou de todas essas coisas juntas?
Esse texto é uma narrativa, não um ensaio. Meu objetivo foi abrir o Gênesis, ampliar sua interpretação, e não o reduzir e aplicar à nossa época. Naturalmente, eu também pertenço ao meu tempo; não pude deixar de trazer à tona certas ressonâncias, mas um narrador está lá principalmente para anunciar, não para denunciar. Não acredito que estejamos em uma crise, nem em uma fase de decadência. A decadência pressupõe que tudo fosse melhor antes.
O Evangelho, por meio da parábola do trigo e do joio, apresenta a história como um desenvolvimento duplo e entrelaçado do bem e do mal. Todas as dimensões estão envolvidas: ecológica e cultural, material e espiritual, antropológica e cósmica. É isso, afinal, que se vê nos apocalipses sinóticos (como no Édipo Rei, também): um desequilíbrio da natureza que é impossível separar de um declínio da cultura.”
Você escreve que construir a arca significa também desconstruir os ídolos.
Os Papas Francisco e Leão XIV falaram sobre o "paradigma tecnocrático", que representa a forma atual de idolatria. O que é a idolatria? Formalmente, é o ato de prestar a uma criatura o culto que cabe apenas a Deus. Pois os seres humanos nunca são ateus: quando fingem sê-lo, automaticamente começam a divinizar qualquer outra coisa. Pode ser um time de futebol, uma dieta de emagrecimento ou o próprio julgamento.
A idolatria também consiste em depositar nossa confiança na obra de nossas próprias mãos (ou melhor, nas mãos de uma multidão de escravos que mantemos ocultos). Mandamos construir uma estátua, um dispositivo, uma inteligência artificial, e nos esforçamos para acreditar que esse produto é maior do que nós e resolverá tudo, como se a vida fosse um problema à espera de uma solução, em não um mistério à espera de nossa oração (louvor ou súplica). Com o ídolo, o objetivo é sempre nos libertarmos da dimensão dramática da vida, da nossa própria responsabilidade e da nossa dolorosa verticalidade.
Por meio de um comentário rabínico, você mostra um Deus que não apenas não esquece os animais, mas também não esquece aqueles que se afogaram no Dilúvio. O que essa imagem revela?
Até o fundo do abismo, até o nosso último instante, Deus faz de tudo para vir ao nosso encontro. Mas quer o nosso consentimento. A salvação não é um resgate passivo; é uma aliança. Deus não é apenas um agente de seguros ou um bombeiro; é um pai e um esposo. Ele quer a nossa liberdade. Quer filhos, não súditos. Sua graça nos concede a possibilidade de dizer "sim", até o último momento. Mas é sempre possível, até o fim, dizer ‘não’.
Assim, na tradição judaica, durante a Páscoa, os anciãos jejuam em memória da morte dos primogênitos do Egito (homens e animais). Fazem penitência pela salvação do povo inimigo. Algo semelhante pode se perceber na belíssima adaptação cinematográfica da Odisseia de Christopher Nolan: Odisseu não se sente digno de retornar para casa após a destruição de Troia.
É claro que ele é diretamente responsável: aquela destruição aconteceu graças à astúcia de seu cavalo de madeira e ao sacrilégio de uma falsa oferenda a Atena. No entanto, permanece o fato de que ele continua pensando não apenas em seus próprios soldados que morreram sem sepultamento, mas também no destino dos troianos e de seus lares. Ele aspira a uma redenção compartilhada. Ele se pergunta: ‘Por que a mim foi concedido o retorno, e não aos outros?’
No início de seu livro, você escreve que os homens do Dilúvio não falam mais verdadeiramente: eles produzem uma “marmelada de sílabas”, enquanto Noé preserva “as palavras da origem”. A crise da linguagem precede a crise do mundo?
A história de Noé precede aquela de Babel, onde a linguagem é um tema explícito e central. Com Babel, deparamo-nos com uma padronização tecnológica da linguagem: todos se comunicam, mas ninguém entra em comunhão, pois a palavra não passa de um código destinado a viabilizar a construção de uma torre que despreza toda transcendência. O castigo é, portanto, a confusão das línguas e a dispersão dos povos, e essa confusão e essa dispersão são positivas, pois cumprem uma função corretiva.
Quanto ao episódio do Dilúvio, e à ideia de que todo ser vivo se desviou de seu caminho, evoco o oposto da padronização tecnológica: uma confusão sentimental. Hoje, essas duas deformações opostas da palavra caminham juntas. Somos seres da palavra. Perdemos o sentido do mundo juntamente com o sentido da palavra. Contudo, quando falo da perda da palavra, não estou pensando em um rebaixamento do nível literário. Penso na perda do vocativo. Penso no fato de que falar, antes de dizer algo sobre alguma coisa, antes de transmitir informações, consiste em tornar possível um encontro.
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