Além das impaciências humanas: o mistério do tempo divino. Comentário de Ana Casarotti

Foto: canva

17 Julho 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 13,24-43 que corresponde ao 16° domingo do Tempo Comum Cristo, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo: Jesus contou outra parábola à multidão: "O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?' O dono respondeu: 'Foi algum inimigo que fez isso'. Os empregados lhe perguntaram: 'Queres que vamos arrancar o joio?' O dono respondeu: 'Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!'"

Jesus contou-lhes outra parábola: "O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos". Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: "O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado". Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões.

Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: "Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo". Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: "Explica-nos a parábola do joio!" Jesus respondeu: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça".

Neste domingo, continuamos lendo e meditando o capítulo 13 do Evangelho de Mateus. Jesus fala por meio de parábolas para transmitir aos que o ouvem a boa nova do Reino de Deus. Como dissemos no domingo passado, as parábolas são um recurso pedagógico que Jesus utiliza para dar a conhecer o mistério do Reino a todos de maneira simples e aberta, de modo que cada pessoa possa acolher sua mensagem e deixar-se interpelar por ela. O texto deste domingo apresenta três situações da vida cotidiana que, sem dúvida, correspondem a realidades vividas na pequena comunidade do século I:

- a parábola do trigo e do joio,

- a parábola da semente de mostarda que, embora seja muito pequena, cresce como uma árvore que dá abrigo aos pássaros e às aves,

- e a parábola do fermento que, misturado à farinha, faz toda a massa fermentar.

Neste domingo, somos novamente convidados a permanecer no capítulo 13 do Evangelho de Mateus. Jesus nos fala em parábolas, linguagem simples e cheia de imagens, para revelar o mistério do Reino de Deus. As parábolas não são apenas histórias: são sementes lançadas em nosso coração. Elas nos permitem acolher a mensagem do Reino de forma acessível, mas também nos desafiam a deixar que essa Palavra nos transforme.

O Evangelho nos apresenta três parábolas inspiradas na vida cotidiana: a parábola do trigo e do joio, a parábola da semente de mostarda que, embora seja muito pequena, cresce como uma árvore que dá abrigo aos pássaros e às aves, e a parábola do fermento que, misturado à farinha, faz toda a massa fermentar. Essas imagens nos revelam que o Reino de Deus começa de forma discreta, quase imperceptível, mas possui uma força transformadora que se expande e dá vida. Somos chamados a reconhecer essa presença no nosso cotidiano e a permitir que ela cresça em nós, como fermento que dá sabor, como árvore que acolhe, como trigo que frutifica.

"O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio”

Ao ouvir esta parábola, não são necessárias muitas explicações: o coração logo reconhece quem são aqueles que semeiam o joio no campo. Jesus fala rodeado de camponeses, homens e mulheres que conhecem bem o trabalho da semeadura e as dificuldades que ela traz. É a partir dessa realidade concreta que Ele revela o mistério do Reino. No domingo passado, meditamos sobre a semente lançada em diferentes tipos de solo, que produz frutos variados conforme a terra que a acolhe. Jesus nos lembrava da necessidade de preparar o coração, como quem revolve a terra, para receber a sua Palavra com abertura e cuidado.

Hoje, Ele continua a nos ensinar por meio de parábolas. A primeira apresenta dois personagens que semeiam sementes diferentes: um semeia trigo, sinal de vida e alimento; o outro semeia joio, símbolo da confusão e da divisão. Ambos crescem juntos, mas apenas um sustenta e dá vida. É importante recordar que Jesus fala a pessoas simples, que o seguem com alegria, mas que também carregam o peso da exclusão religiosa. Muitas delas eram afastadas dos espaços de culto por não conhecerem todas as leis ou por não conseguirem cumprir as exigências impostas. A Palavra de

Jesus surge como novidade, como trigo que brota em meio ao joio da crítica e da desconfiança.

Diante das situações de confusão que surgiam na comunidade, a pergunta permanece atual: como não perder a semente do trigo, essa novidade do Reino que cresce em nós, mesmo quando ao redor se espalham dúvidas, críticas e desconfianças?

Talvez a resposta esteja em cultivar paciência e confiança, permitindo que o trigo amadureça até o tempo da colheita. O Reino de Deus não se impõe pela força, mas cresce silenciosamente, sustentado pela fé daqueles que o acolhem no coração.

'Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita"

Por meio dessa parábola, Jesus nos ensina que o tempo de Deus não é o nosso. Antes de tomarmos decisões apressadas — como, neste caso, “devo arrancar o joio? ” —, Ele nos responde com firmeza: não. O convite é à paciência, à confiança e ao discernimento, pois o Reino cresce no ritmo de Deus, e não segundo nossos cálculos humanos.

É preciso aprender a esperar, sem tomar decisões precipitadas. A colheita não nos pertence; ela é dom de Deus. Essa espera nos ensina a conviver com aquilo que, à primeira vista, parece não ser bom ou nos causa desconforto. Muitas vezes, por trás dessa realidade que julgamos negativa, pode estar escondida uma pequena semente capaz de transformar toda a colheita. Desde o início, Jesus apresenta o Reino como um caminho de convivência: com os diferentes, com aqueles que não se enquadram nos nossos critérios ou que não acolhem a Boa Notícia da forma como nós o entendemos. O Reino de Deus não é exclusão, mas acolhida. Não é arrancar pela raiz o que consideramos “ruim”, apenas porque não nos agrada.

O convite é pessoal: reconhecer que também carregamos joio dentro de nós. E, para que ele não cresça e nos domine, é necessário cultivar a escuta, o silêncio interior e o discernimento. O trigo e o joio estão sempre presentes em nossa vida e em nosso entorno. A missão que nos é confiada é continuar semeando vida, sem discriminar, acreditando que sempre há esperança que olha além das aparências. Talvez, por trás de um plantio que parece ser apenas joio, estejam escondidos pequenos rebentos de trigo, prontos para florescer.

Diante da dolorosa realidade do terremoto que abalou La Guaira, na Venezuela, há alguns dias, fomos testemunhas da surpreendente força da vida. Entre os escombros, muitas pessoas ainda resistiam, sustentadas por um fio de esperança que parecia impossível aos olhos humanos. As equipes de resgate, com admirável serenidade e profissionalismo, mantinham viva essa esperança. Incansavelmente, buscavam qualquer sinal de vida, por mais frágil que fosse acreditando que cada gesto poderia significar uma nova chance.

Ao mesmo tempo, aqueles que permaneciam soterrados encontravam formas inimagináveis de manter sua esperança acesa. Quantas vezes nos perguntamos: como isso é possível? E, no entanto, cada pessoa resgatada dos lugares mais improváveis alimentava a coragem e a fé para continuar procurando. Remover os escombros não era apenas limpar o terreno: era abrir espaço para que a vida pudesse se manifestar. Pois, em cada pedra retirada, havia a possibilidade de encontrar alguém ainda à espera de ser resgatado.

Essa experiência nos recorda que, mesmo em meio à destruição, a esperança é capaz de florescer e sustentar a vida.

Assim, abrimo-nos ao mistério de um tempo que não nos pertence e que ultrapassa nossos cálculos e prazos cronológicos: é o tempo de Deus! Ele nos convida a não classificar, a não assumir o papel de juízes do que é bom ou mau segundo nossos critérios, mas a aguardar o tempo da colheita, quando a semente do Reino continuará crescendo mesmo em meio ao joio. Não nos cabe julgar o que é bom ou ruim espalhado no campo de trigo. Não somos donos da colheita; somos apenas chamados a ser construtores, semeadores desinteressados da bondade do Reino. A colheita não tem proprietários, e ninguém ocupa o espaço sagrado da consciência de cada pessoa. É um caminho que percorremos juntos, buscando nutrir o trigo e reconhecer o joio que se espalha em nosso interior.

Esse joio assume diferentes formas: pode estar revestido de costumes religiosos ou de práticas aparentemente piedosas, mas que acabam por oprimir, sufocar e impedir horizontes de esperança. O convite de Jesus é claro: não arrancar precipitadamente, não excluir, mas aprender a discernir e a esperar, confiando que o Reino floresce mesmo em meio às contradições da vida.

O tempo de Deus é sempre maior que nossas impaciências. É nele que o trigo amadurece e a esperança se renova.

Em nossa sociedade, também somos chamados a não rotular as pessoas, nem as deixar à margem do caminho. Muitas vezes, no fundo, acreditamos que elas não têm nada a oferecer e, embora seja difícil admitir, acabamos por considerá-las como “joio”: não servem, não contribuem, não favorecem o crescimento.

Assim, descartamos vidas, eliminamos possibilidades de uma futura colheita, sem sequer permitir que essas sementes germinem. Mas o Evangelho nos recorda que o Reino de Deus não se constrói com exclusões, e que cada pessoa carrega em si um potencial de vida que pode florescer.

O convite é claro: abrir espaço para que todos possam germinar, crescer e dar fruto. O olhar de Deus não descarta, não elimina, mas espera pacientemente que o trigo se revele, mesmo quando parece escondido sob o joio.

Deixamo-nos interpelar pelo apelo do Papa Leão quando ele apresentou a encíclica Magnifica Humanitas: “Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser obscurecida por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, preservando com amor aquela magnífica humanidade que nos foi dada e que nos foi mostrada em sua plenitude em Cristo, e que nenhuma máquina jamais poderá substituir em todo o seu esplendor” (parágrafo 15). Encíclica do Papa Leão XIV: "Vamos desarmar a IA e permanecer humanos"

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