É a lei de Zeus, Meloni. Artigo de Tereixa Constenla

Foto: James Lee/ Unsplash

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10 Agosto 2026

Regras humanitárias contra a barbárie já haviam sido inventadas na Idade do Bronze. Três milênios depois, estamos em uma frequência diferente.

O artigo é de Tereixa Constenla, jornalista galega, publicado por El País, 09-08-2026.

Eis o artigo.

Antes de falarmos sobre crocodilos, uma breve digressão. Se você assistiu ao último filme de Nolan, já deve estar familiarizado com a xenia. Entre os antigos gregos, a hospitalidade para com os estrangeiros era um código sagrado de Zeus.

Independentemente de sua origem, posição social ou riqueza, um estrangeiro tinha direito à sua parte de comida e bebida, e a um lugar para dormir. Regras humanitárias contra a barbárie já haviam sido inventadas na Idade do Bronze. Três milênios depois, estamos em uma frequência diferente.

Com uma amnésia indigna de primeiras-ministras, Giorgia Meloni e Mette Frederiksen convenientemente esqueceram as crises em Lampedusa e na Groenlândia, optando por se envolver em política de bastidores com os desesperados. Alguém deveria lhes dar uma Odisseia e contar a história de Faten Ben Amar, a jogadora magrebina do Atlético Tetuán que poderia ter sido uma Alexia Putellas se não tivesse se afogado a caminho da Espanha, um dia antes de receber a permissão para entrar legalmente no país.

Juntamente com a tragédia grega do século XXI, chegou a farsa da reinstalação das fronteiras para espanhóis e italianos. Mais uma vez, ao desembarcarem no aeroporto do outro país, eles precisam exibir seus documentos de identidade antes de finalmente se deliciarem com a pizza ou paella que economizaram o ano todo. A Europa precisa desesperadamente de uma tábua de salvação.

Um dos paradoxos da nossa sociedade é que, enquanto regredimos na defesa do direito humanitário, avançamos na proteção animal. E assim chegamos aos répteis.

Um tribunal israelense suspendeu esta semana o plano do governo de construir fossos ao redor de prisões onde, como se pode imaginar, prisioneiros palestinos são muito requisitados. O fosso, em estilo medieval, seria reforçado com crocodilos do Nilo. O projeto, idealizado pelo Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, avançava rapidamente. Na prisão de Ketziot, a escavação do terreno circundante começou, enquanto o Ministério da Proteção Ambiental alterava às pressas a classificação dos crocodilos do Nilo para permitir seu uso para fins de segurança. Isso autorizava legalmente seu uso como predadores para intervir em qualquer tentativa de fuga. Para essa missão, os répteis não precisariam de nenhum treinamento. Eles fariam o que sabem fazer de melhor, com a mesma eficiência dos banquetes de gnus no Masai Mara durante a Grande Migração. E não importa quanto treinamento um palestino possa receber do Hamas, nada se oporia aos quatro metros e 200 quilos de um crocodilo típico com um pouco de fome.

Foi o grupo Let the Animals Live que garantiu a proibição temporária após denunciar judicialmente a falta de proteção aos répteis. Embora não pareça provável que o ministro israelense abandone seu plano, é um começo. "A resistência política muitas vezes começa com uma medida provisória", disse o escritor John Berger. Portanto, enquanto alguns humanos são tratados como subumanos, saudamos esta medida provisória que protege os direitos dos crocodilos.

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