Uma civilização se define pela forma como trata os estrangeiros. Artigo de Mariano Croce

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08 Agosto 2026

"Na Europa, alimentados por um propagandismo que se mostra amargamente eficaz, os ideólogos das direitas mais ou menos extremas chegam até a oferecer um verniz teórico aos mais desavergonhados impulsos racistas", escreve Mariano Croce, professor de filosofia política na Università degli Studi di Roma La Sapienza, em artigo publicado por Domani, 06-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Ao longo de dois milênios, a identidade europeia foi moldada por uma dialética constante com o "outro": da inteligência flexível com que a Roma antiga soube se apropriar dos modos de vida mais remotos até os movimentos incessantes de povos que, na modernidade, reescreveram a fisionomia de povos inteiros. Nenhum país ocidental conseguiu sobreviver sem passar por uma hibridização por meio dos fluxos migratórios. No entanto, como num ato desconcertante de remoção psíquica, a Europa de hoje trata a figura do migrante como aquela inoportuna anomalia, algo que, se finalmente eliminado, garantiria um futuro de renovada prosperidade.

Não causa surpresa, então, que um dos indicadores mais reveladores do chamado retrocesso democrático seja a resposta descaradamente nacionalista à pergunta de "quem somos " – ou seja, aquela reflexão sobre o eu coletivo por meio da qual todo um povo define sua identidade. Na Europa, alimentados por um propagandismo que se mostra amargamente eficaz, os ideólogos das direitas mais ou menos extremas chegam até a oferecer um verniz teórico aos mais desavergonhados impulsos racistas.

Testemunhamos, assim, uma "virada cultural" do racismo, que permite mascarar toda referência explícita às diferenças biológicas entre povos para fundamentar a oposição à migração, numa suposta natureza primordial das raízes culturais e das tradições históricas. Ganha terreno a ideia, lançada décadas atrás por Alain de Benoist, ideólogo da “Nouvelle Droite” francesa, de que as culturas são marcadas por diferenças irredutíveis e de que, consequentemente, todo povo tem tanto o direito quanto o dever de se manter fechado e isolado em seu próprio território. Com base de similares intuições, a "remigração" é apresentada como um processo de restauração da ordem diante do caos provocado pelas políticas temerárias das esquerdas. Segundo autores que defendem tese até mais ousadas, como o filósofo Marc Jongen, um dos principais pensadores da AfD, os povos aflitos por indevidas expropriações culturais estão legitimados a desencadear sua "fúria identitária" contra a imigração. O austríaco Martin Sellner se torna arauto de uma remigração "legal" cujo objetivo é a sobrevivência das democracias nacionais; ela exigiria a ruptura com a atual "paralisia identitária", que derivaria de um lamentável sentimento de culpa em relação aos "últimos da terra", que teria amolecido o ânimo pragmático e viril dos Estados europeus.

Nessa farra paraculturalista, mas que na prática não passa de criptorracista, a migração deixa de ser uma questão de política administrativa e se transforma em um artefato problema de "essência". Na ausência de qualquer projeto concreto sobre como concretizar esse delirante plano - que correria o risco de marcar um declínio dos países ocidentais, comparável apenas àquele que cem anos atrás determinou na Alemanha a expulsão de centenas de milhares de judeus, a despeito de sua profunda integração no tecido produtivo e cultural alemão - hoje a resposta à pergunta "quem somos?" traduz-se na muito mais inquietante, porém, inconclusiva, pergunta: "Quem é o inimigo interno que ameaça o nosso modo de vida?"

Trata-se de um estarrecedor retrocesso no plano da cultura política em comparação com a segunda metade do século XX, época em que os dilemas da coexistência entre grupos étnicos eram debatidos sem que se sucumbisse às soluções estouvadas propagadas pelas direitas hoje.

Ainda no final do século XX, Jürgen Habermas definia o pertencimento cultural como enraizado no compartilhamento de princípios constitucionais fundamentais, capazes de transcender barreiras étnicas, religiosas e linguísticas - em outras palavras, a participação em um projeto comum de solidariedade entre estranhos.

Pode ter sido uma ilusão, mas, durante décadas, acreditou-se que a convivência, por mais difícil que possa ser, não exigia a profissão de fé em supostos traços originários; pois nada no mundo é realmente originário, exceto a precariedade compartilhada que marca a vida desse eterno desajustado que é o ser humano no ambiente natural.

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