08 Agosto 2026
O presidente brasileiro conversou com o ministro das Relações Exteriores do México sobre a situação da democracia na América Latina e o acordo de colaboração entre a Petrobras e a Pemex, e reiterou seu convite para que Sheinbaum visite o país.
A reportagem é de Elena San José, publicada por El País, 07-08-2026.
México e Brasil estão cada vez mais isolados em um continente que responde quase que inteiramente aos ditames de Donald Trump, e o cenário cada vez mais adverso ao norte e ao sul os força a olhar um para o outro. Nesse contexto, o ministro das Relações Exteriores do México, Roberto Velasco, viajou a Brasília na quinta-feira para copresidir, juntamente com seu homólogo brasileiro, Mauro Vieira, a VI Reunião da Comissão Binacional México-Brasil, “o principal mecanismo de diálogo político e cooperação bilateral entre os dois países”, segundo o Ministério das Relações Exteriores do México. O momento é especialmente delicado para o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que enfrenta a reeleição e está em meio a crescentes desavenças com o presidente dos EUA após o cancelamento do visto do embaixador brasileiro.
No encontro subsequente entre Lula e Velasco, que representava Claudia Sheinbaum, discutiram, entre outros assuntos, o "estado da democracia na América Latina", segundo o presidente brasileiro, que reiterou o convite para que o presidente mexicano visitasse o país. Após a derrota do partido de Gabriel Boric no Chile nesta primavera e a derrota de Gustavo Petro na Colômbia neste verão, a vitória de Lula neste outono é mais importante do que nunca para o México. Mais ainda para Lula, que sente o apoio mexicano.
Os governos de Lula e Claudia Sheinbaum são praticamente o último bastião progressista na região, o principal baluarte contra as pressões intervencionistas vindas dos Estados Unidos, ávidos por assumir o controle de ambos os países. Ambos sofreram a ameaça das tarifas de Trump, que se materializaram contra o Brasil duas vezes: 50% há um ano e outros 25% neste verão. O México se saiu melhor, mas as ameaças de sanções comerciais como forma de pressão política obrigam seu vizinho a permanecer constantemente vigilante e a buscar aliados no exterior. O Brasil é o principal parceiro natural, dado seu poder econômico e alinhamento ideológico.
Estão sendo feitos esforços em ambas as frentes. A Petrobras, do Brasil, e a Pemex, do México, as duas maiores petrolíferas da América Latina, assinaram em junho um acordo de colaboração para explorar petróleo nas águas do Golfo do México, outro tema discutido nesta quinta-feira na reunião do grupo de trabalho binacional. A autonomia das duas maiores economias da região é tão importante quanto conter a extrema-direita politicamente. Segundo dados do próprio governo brasileiro, as projeções para 2025 indicam um intercâmbio comercial de US$ 13,9 bilhões. O Brasil também é o principal exportador latino-americano para o mercado mexicano, e o México é o segundo maior exportador para o Brasil.
A capacidade de ambos os países de impulsionar esses números também depende da defesa de sua soberania nacional, pedra angular da política externa mexicana e princípio que, mais uma vez, molda a geopolítica do continente. Sheinbaum luta para impedir a intervenção de Trump em sua cruzada contra o narcotráfico, enquanto Lula enfrenta o apoio explícito do republicano ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe, e ao restante de sua família. O aumento de 50% nas tarifas alfandegárias, imposto no ano anterior, inclusive, tentou, sem sucesso, impedir a condenação do político; ele cumpre pena de 27 anos. Agora, seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, enfrentará Lula nas eleições de outubro próximo.
No contexto das próximas eleições, Lula interpretou as últimas ações de Trump como uma "escalada deliberada de medidas hostis" que, segundo ele, só podem ser compreendidas em termos ideológicos. Os Estados Unidos acabaram de cancelar o visto da embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti, em resposta, de acordo com o governo americano, à demora do governo Lula em aprovar a nomeação do embaixador indicado para o Brasil. Washington também criticou a recusa de vistos a dois diplomatas que desejavam visitar o país. O argumento de Lula na ocasião foi de que eles estariam tentando encorajar a extrema direita brasileira e minar a credibilidade do sistema eleitoral.
A tensão entre os dois líderes está alta, e eles falam abertamente sobre a antipatia mútua. Sheinbaum é mais sutil, compartilhando uma fronteira de 3.000 quilômetros com sua vizinha do norte e não querendo provocar ainda mais os republicanos. Mesmo assim, a situação atual os obriga a tomar partido, e a líder mexicana está aumentando sua projeção internacional, um sinal de distanciamento de seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador, também membro do partido Morena, que não costuma viajar a trabalho.
A atual presidente participou de diversos fóruns e, em abril, atendeu ao convite do presidente espanhol Pedro Sánchez para participar do IV Encontro em Defesa da Democracia, onde uniu forças com os líderes progressistas da região. Um mês depois, ela e Lula reafirmaram sua frente unida contra a pressão dos EUA na Colômbia e em Cuba. Em apenas alguns meses, porém, Petro já havia caído em desgraça. Os esforços agora se concentram em manter Lula em evidência, com quem o México também busca promover a candidatura da chilena Michelle Bachelet para Secretária-Geral da ONU. Qualquer ajuda é bem-vinda em um cenário cada vez mais desequilibrado. Os líderes ainda não exploraram totalmente o potencial da relação bilateral, e essa talvez seja a última tábua de salvação para os progressistas diante da forte guinada à direita na região.
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