03 Junho 2026
Analistas avaliam que Trump ignora dados e busca 'reviver o pior que existe no imperialismo'.
A informação é de José Bernardes, Larissa Bohrer e Maria Teresa Cruz, publicada por Brasil de Fato, 02-06-2026.
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação comercial aberta contra o Brasil em 2025 e propôs a aplicação de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O anúncio foi feito pelo governo dos Estados Unidos nesta segunda-feira (1º). A medida ainda depende de decisão do presidente Donald Trump.
O episódio se soma à recente decisão de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, situação que fere a soberania do Brasil e abre brechas para intervenções militares diretas em território brasileiro.
Professor e pesquisador de Relações Internacionais, Ricardo Leães diferencia o atual possível tarifaço do anterior, que vigorou no ano passado. “Embora esse tarifaço seja de 25% e o outro seja de 50%, esse é mais grave. Naquela época já se sabia que o tarifaço seria contestado na Suprema Corte dos EUA, como foi, e poderia ser na prática acabado. Esse de agora acontece por um dispositivo legal que já está consagrado nos EUA, através de uma disputa, averiguação de questões concretas envolvendo o Brasil. Isso precisa ser levado em consideração, porque é muito mais difícil que o Brasil consiga fugir desse tarifaço pelas vias que foram utilizadas anteriormente”, afirma, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Leães pondera que, apesar do impacto econômico, a decisão de taxação não é comercial e que há uma explicação lógica para esses ataques. “Trump tinha um diagnóstico muito claro: de que os EUA estavam passando por um processo de desindustrialização, e um dos motivos para isso seria justamente a baixa das tarifas alfandegárias do país”, explica. “Só que o Brasil não se enquadra nessa lógica porque é um país que tem déficit nos EUA. Além disso, o Brasil também está passando por um processo de industrialização. Se lá atrás estava muito claro que a decisão de Trump foi política, agora ficou escancarado. É a questão do Pix, é a questão das decisões judiciais que afetaram as big techs dos EUA, se fala em desmatamento, no combate à corrupção, ao narcotráfico. Ou seja, todos os argumentos são usados para justificar o tarifaço, mas nenhum é comercial”. explica.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a declarar que tudo que está acontecendo recentemente na relação dos EUA e Brasil é responsabilidade dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O analista internacional alerta, no entanto, que Lula não deve querer entrar em qualquer disputa de influência nesse sentido, porque Flávio Bolsonaro é submisso e está disposto a tudo, inclusive, entregar o Brasil ao Trump. “Se o Lula oferece as terras raras, o Flávio vai oferecer terras raras e o Pix. Se o Lula oferecer terras raras e o Pix, o Flávio vai oferecer terras raras, Pix e qualquer outra coisa que seja de interesse de Trump.”
Leães também contesta a afirmação de que o imperialismo está em queda. “Donald Trump quer reviver os piores aspectos do imperialismo e não existe conciliação possível. Só o enfrentamento”, pontua.
Para a cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tanto a decisão sobre as facções criminosas como a recente recomendação da aplicação de um novo tarifaço não interessam a nenhum dos países. “É um equívoco absoluto. O tarifaço é descabido porque alterna argumentações sem ter qualquer relação comercial, e muito menos com interesse real aos brasileiros, e mesmo dos estadunidenses, que vão enfrentar mais prejuízos do que benefícios ao mercado interno”, avalia.
Goulart destaca que, se na questão das facções criminosas Flávio tentou amealhar algum ganho político, o caso da taxação é mais difícil, uma vez que o tarifaço é muito impopular, como ficou provado no ano passado. “[Flávio Bolsonaro] tem enfrentado uma queda expressiva entre jovens, entre evangélicos, entre quem ganha de dois a cinco salários mínimos. Ele está perdendo o público menos radicalizado”, pontua.
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