Milei visita Noboa com a ambição de se tornar um coordenador regional de governos de direita

Foto: Casa Rosada | Wikimedia Commons

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08 Agosto 2026

O presidente argentino está atualmente no Equador e depois viajará para a Colômbia para a posse de De la Espriella. Dias antes, ele se reuniu com Flávio Bolsonaro no Brasil e com Fujimori no Peru.

A reportagem é de Delfina Torres Cabreros, publicada por El País, 07-08-2026.

Javier Milei está percorrendo quilômetros em sua busca para se tornar o arquiteto de uma aliança de governos de direita nas Américas. Depois de visitar o candidato presidencial Flávio Bolsonaro no Brasil e comparecer à posse de Keiko Fujimori no Peru, o presidente argentino viajou ao Equador para se encontrar com seu homólogo, Daniel Noboa. Antes de retornar à Argentina, ele seguirá para a Colômbia para participar da cerimônia de posse de Abelardo de la Espriella.

O presidente partiu na noite de quarta-feira para Quito, acompanhado por sua irmã e Secretária-Geral da Presidência, Karina Milei, e pelo Ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno. Na tarde de quinta-feira, participou de uma oferenda floral na Praça da Independência, no centro histórico da capital equatoriana, e posteriormente se reuniu com Noboa no Palácio Carondelet.

Em agosto passado, Milei recebeu Noboa em Buenos Aires, onde posaram para uma foto no gabinete presidencial da Casa Rosada: Milei segurando uma motosserra, Noboa empunhando um facão. A relação entre os dois, no entanto, tem sido instável. Em 2024, em um artigo do jornalista Jon Lee Anderson para a revista The New Yorker, o presidente equatoriano lançou uma dura crítica ao libertário: "Não sei por que ele se acha tão importante. Não realizou nada desde que assumiu o cargo. Parece muito convencido, o que é bem típico da Argentina, aliás", disse, embora mais tarde tenha tentado amenizar o tom.

A agenda da delegação argentina em Quito também incluiu uma reunião entre o presidente Milei e representantes das câmaras automotivas argentinas, e a participação do ministro das Relações Exteriores, Quirno, na abertura do Fórum Econômico no Swissôtel. Mais tarde, Milei partiria para Santiago de Cali, na Colômbia, onde participaria da posse do presidente eleito do país, Abelardo de la Espriella, e teria um encontro particular com ele.

Antes de retornar à Argentina, onde o partido governista acaba de sofrer um grande revés legislativo, Milei também planejava se encontrar na Colômbia com o Ministro das Relações Exteriores do Estado de Israel, Gideon Sa'ar.

Herdeiro de uma das famílias mais ricas do Equador, Noboa faz parte do que Milei busca estabelecer como uma "onda azul", uma nova geração de líderes de direita que ascenderam ao poder em diversos países da América Latina. Outras figuras proeminentes visitadas recentemente por Milei incluem Nayib Bukele, de El Salvador, e José Antonio Kast, do Chile. Por outro lado, seus principais antagonistas são os presidentes do México e, principalmente, do Brasil. Nas últimas semanas, a hostilidade de Milei em relação a Luiz Inácio Lula da Silva — a quem ele repetidamente chamou de "ladrão", "corrupto" e "condenado" — intensificou-se, levando o Brasil a convocar seu embaixador na Argentina, Julio Bitelli.

Milei, que desde o início de seu mandato tem se empenhado em se posicionar como figura de proa desse novo movimento internacional reacionário, ambiciona ser reconhecido como líder desse bloco nas Américas e principal interlocutor regional com Washington. O libertário só aceitará estar à sombra do totem, Donald Trump, que em março passado já reuniu seus aliados em Miami em um encontro que denominou Escudo das Américas. Conforme confirmado pelo El País com fontes oficiais, Milei está trabalhando para coordenar uma "cúpula azul" com líderes de ideologia semelhante na região, fora das organizações multilaterais existentes, embora uma data ainda não tenha sido definida.

Segundo Juan Gabriel Tokatlian, sociólogo argentino especializado em relações internacionais, os novos líderes de direita e extrema-direita da região têm afinidades diretas com Milei, mas isso não significa que lhes faltem ambições de projeção e influência regional, mesmo que ainda não as tenham explicitado. Bukele, por exemplo, tornou-se uma figura decisiva na América Central, e é possível que De la Espriella ganhe mais destaque na região andina. "Seja qual for a ambição pessoal de Milei, ele vai descobrir que ninguém está à sua espera para liderá-lo. Especialmente considerando a má imagem interna da Argentina, com sua situação econômica e social", destaca.

Segundo Tokatlian, a América Latina é uma região "indomada", onde todos aqueles que tentaram se apresentar como a ponte natural para os Estados Unidos fracassaram. "Supor que esta seja uma região aberta às ambições de liderança de certos presidentes é ignorar o fato de que, se há algo que caracteriza a América Latina, é um vácuo de liderança, porque vivemos em um continente onde os Estados Unidos estão presentes, um continente com o poder que outros não têm para punir e conceder favores. Para todos os países, o Norte continua sendo os Estados Unidos."

A banda Chone Killers

No mesmo dia da visita, o governo Milei declarou a gangue equatoriana Chone Killers uma organização terrorista, pouco mais de um mês depois de os Estados Unidos terem feito a mesma determinação. A declaração da Presidência argentina descreveu os Chone Killers, que surgiram como uma facção de Los Choneros (a gangue mais antiga do Equador) antes de se separarem em 2020, como "uma das estruturas criminosas mais violentas da região, dedicada ao tráfico internacional de drogas, extorsão, assassinatos por encomenda e outras atividades ilícitas ligadas ao crime organizado transnacional".

A inclusão desse grupo no Cadastro Público de Pessoas e Entidades Ligadas a Atos de Terrorismo e seu Financiamento (RePET) da Argentina possibilita a aplicação de sanções financeiras e restrições operacionais destinadas a limitar sua capacidade de atuação no país, "protegendo, ao mesmo tempo, o sistema financeiro argentino de ser utilizado para fins ilícitos", explica o texto.

O governo equatoriano celebrou a decisão da Argentina, afirmando que ela "demonstra a determinação da região em agir com firmeza". "O crime organizado será combatido de forma coordenada, implacável e com toda a força do Estado", escreveu o ministro do Interior equatoriano, John Reimberg, em sua conta no Twitter.

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