06 Agosto 2026
“O verdadeiro desafio não é apenas reconstruir nossas economias ou reformar nossas políticas; é também recuperar nossa humanidade”, escreve Jay Naidoo, que foi secretário-geral do Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos durante a luta pela liberdade na África do Sul e, posteriormente, ministro no governo de Nelson Mandela, em artigo publicado por La Jornada, 04-08-2026.
Eis o artigo.
Hoje em dia, há muito debate em torno da imigração. Recentemente, quase 49 mil migrantes cruzaram do Marrocos para o enclave espanhol de Ceuta em um único dia, uma onda sem precedentes que colocou as causas profundas da migração na agenda global.
Com muita frequência, porém, ao falar das pessoas que chegam às nossas fronteiras, evitamos a pergunta mais profunda: Por que elas deixam seus lares?
Condeno a xenofobia onde quer que ela apareça. Seja dirigida aos migrantes na Europa ou aos nossos semelhantes africanos na África do Sul, o medo e o ódio não são políticas. São sintomas de sociedades que enfrentam a insegurança, a desigualdade e a falta de coesão social.
No entanto, não basta condenar a xenofobia. Devemos perguntar por que a vida no local de origem se tornou tão impossível que as pessoas estão dispostas a atravessar desertos, confiar suas vidas a traficantes e correr o risco de morrer afogadas no mar.
Ninguém abandona por vontade própria sua família, seu idioma, sua cultura e sua pátria, a menos que algo fundamental tenha sido destruído. O que acontece na África não pode ser desvinculado da história.
O legado da escravidão, o colonialismo, a Conferência de Berlim, a conquista imperial e a extração de riquezas da África contribuíram para moldar uma economia global que enriqueceu impérios, ao mesmo tempo em que deixou muitas sociedades africanas com instituições frágeis e desigualdades profundas.
A história importa, mas não é suficiente. Precisamos fazer perguntas difíceis sobre nós mesmos: O que as elites políticas e econômicas da África fizeram, ou deixaram de fazer, que leva milhões de nossos cidadãos a buscar dignidade em outras regiões? Por que tantos jovens africanos acreditam que seu futuro está na Europa, no Golfo Pérsico ou mesmo em outras partes da África, e não no país onde nasceram?
A corrupção; o sequestro do Estado; o conflito; instituições frágeis; a erosão da liderança ética.
Essas são falhas que não podemos continuar ignorando. A Europa não pode escapar de suas responsabilidades históricas. A África não pode escapar de suas responsabilidades atuais. Ambas as verdades podem coexistir.
No entanto, sob ambas existe uma pergunta ainda mais profunda: Que tipo de sistema econômico construímos?
Sem dúvida, o modelo dominante de capitalismo criou extraordinária inovação e prosperidade. No entanto, também concentrou imensa riqueza e influência nas mãos de relativamente poucas pessoas, enquanto muitas comunidades ao redor do mundo vivenciam níveis crescentes de desigualdade, insegurança e exclusão. À medida que a tecnologia e a inteligência artificial aceleram as transformações em curso, muitos se perguntam se nossas instituições econômicas são capazes de acompanhar os impactos sociais dessas mudanças.
Portanto, o debate que enfrentamos é muito mais amplo do que a imigração. Refere-se à questão de saber se a ordem econômica global ainda serve à humanidade. Em todo o mundo, já vimos duas respostas em conflito. Uma delas tende ao medo, ao nacionalismo, à exclusão e a políticas autoritárias. A outra questiona se precisamos repensar a forma como compartilhamos a riqueza, a oportunidade e o poder, para que a economia volte a servir às pessoas, às comunidades e à Terra viva.
A migração não é a doença. É um dos sintomas mais claros de sistemas sob tensão. Os mesmos sintomas que têm contribuído para a destruição ecológica, para o agravamento das desigualdades, para a crescente desconfiança nas instituições e para a erosão da coesão social.
Estamos atravessando uma convergência de crises: Uma crise ecológica; uma crise de governabilidade; uma crise de desigualdade; uma crise de pertencimento. E, talvez acima de tudo, uma crise de liderança ética.
No entanto, há outra crise que recebe muito menos atenção: uma crise espiritual.
Tornamo-nos notavelmente bem-sucedidos em perguntar o que podemos construir, produzir e consumir, mas esquecemos de nos perguntar em que tipo de pessoas estamos nos tornando.
O ruído ao nosso redor é cada vez mais intenso: a violência se aprofunda; a verdade é obscurecida pelo engano; o debate público torna-se cada vez mais polarizado; as instituições perdem legitimidade; as comunidades se fragmentam.
Muitos experimentam não apenas a insegurança material, mas também uma profunda perda de sentido e de pertencimento.
Talvez estes não sejam apenas sinais de colapso, mas também as dores do parto de um despertar.
A história nos ensina que, muitas vezes, períodos de grande perturbação obrigam a humanidade a confrontar as ilusões sobre as quais os velhos sistemas foram construídos. À medida que as falsidades são reveladas, somos convidados, tanto individual quanto coletivamente, a atravessar o fogo da divisão sem permitir que o ódio, o medo ou o desespero nos consumam.
O verdadeiro desafio não é apenas reconstruir nossas economias ou reformar nossas políticas; é também recuperar nossa humanidade.
A questão já não é simplesmente como evitar que as pessoas cruzem fronteiras. A verdadeira questão é como criar sociedades nas quais as pessoas não se sintam compelidas a deixar seu lar, porque no lugar onde nasceram encontram dignidade, oportunidades e esperança. Essa é uma conversa que diz respeito a todos nós.
Os sistemas que nos trouxeram até aqui mostram sinais de estar chegando ao seu limite. O futuro não será garantido por muros mais altos. Tampouco por slogans. Dependerá de a humanidade ter a coragem de imaginar uma ordem econômica e política que coloque no centro a dignidade humana, a justiça, o equilíbrio ecológico e nossa humanidade compartilhada.
Mas nem isso será suficiente se não vier acompanhado de um despertar mais profundo.
Com o tempo, toda civilização enfrenta um momento em que precisa perguntar a si mesma não apenas como deve se organizar, mas por que existe.
Talvez as perguntas decisivas de nosso tempo já não sejam econômicas ou políticas. São profundamente humanas: quem somos? O que significa ser humano?
Nossas respostas a essas perguntas determinarão não apenas o futuro da migração, da democracia e da economia global. Determinarão o futuro da própria civilização.
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