15 Julho 2026
Continuar com essa situação não é do interesse da Europa e da Itália. As palavras da encíclica de Leão XIV são cada vez mais relevantes: por trás dos conflitos, há pressão propagandística e cultural.
O artigo é de Marco Politi, escritor e especialista em Vaticano, publicado por Il Fatto Quotidiano, 13-07-2026.
Eis o artigo.
Um fantasma assombra a Europa: a ideia de que mais um ano de guerra é necessário para "colocar a Rússia de joelhos" e forçá-la a fazer a paz. Isso fica evidente no plano de ajuda financeira de € 90 bilhões da UE para Kiev e no pacote duplo de € 140 bilhões acordado pela OTAN para 2026-2027, acompanhados por repetidos apelos dos líderes da União Europeia para "aumentar a pressão" sobre Moscou.
Entretanto, os chamados Voluntários estão lançando em Paris um plano para uma coalizão militar-industrial com a Ucrânia: o objetivo é criar uma "arquitetura integrada de defesa antimíssil". Ela inclui Itália, Dinamarca, França, Alemanha, Holanda, Noruega, Espanha, Suécia, Ucrânia e Reino Unido. O presidente Zelensky, por sua vez, anunciou a criação de um comando especial das forças armadas, dedicado exclusivamente a operações de "impacto de longo alcance" em território russo.
Nesse contexto, paira no ar a profecia, difundida por alguns serviços de inteligência ocidentais, de um ataque russo contra os países da OTAN em 2030. Um editorial do jornal Avvenire observou recentemente, com razão, que é "decididamente contraintuitivo pensar em um ataque contra a Europa lançado por uma potência que, mesmo após quatro anos de guerra, ainda não conseguiu fechar a lacuna na Ucrânia". Com extremo realismo, o Ministro da Defesa, Guido Crosetto, salientou perante as Comissões de Relações Exteriores e de Defesa da Câmara dos Deputados e do Senado que, segundo análises de especialistas, no ritmo operacional atual, "seriam necessários dez anos para a Federação Russa concluir a conquista de Donbas e várias décadas para conquistar todo o território ucraniano". E se essa Rússia, como está, lançasse um ataque contra a Europa? A verdade, como enfatizou Crosetto, é que o "conflito parece estar caracterizado por um impasse". E, para ser completamente honesto — embora o ministro tenha se recusado a mencionar isso aos parlamentares —, há mais de dois anos, veteranos da diplomacia, dos círculos militares e observadores geopolíticos estão convencidos de que a única solução possível é um cessar-fogo nos moldes da Guerra da Coreia. Uma trégua mortal, livre de irredentismo nacionalista, que congelaria as fronteiras entre a Ucrânia e a Rússia por décadas.
Esta guerra, iniciada pela Rússia, jamais deveria ter começado. Moscou e Washington deveriam ter aprendido com as lições da Crise dos Mísseis de Cuba de 1962. Sem mísseis soviéticos instalados em Cuba, sem tentativas de invasão americanas. Um acordo racional que se manteve. Henry Kissinger afirmou que a Ucrânia não deveria ser um baluarte ocidental contra a Rússia, nem um baluarte russo contra a Europa. Em novembro de 2021, a OTAN se recusou a garantir que a Ucrânia não seria incluída no Pacto Atlântico. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, correu para Kiev em abril de 2022 — depois que a invasão russa já havia começado — para aconselhar Zelensky a não prosseguir com as negociações de paz com Moscou. Como o Papa Francisco observou com lucidez, a guerra na Ucrânia "não é a história da Chapeuzinho Vermelho". O cientista político americano Ian Bremmer a definiu apropriadamente como uma "guerra híbrida entre a OTAN e a Rússia".
Continuar a guerra, continuar a alimentá-la, despejar centenas de bilhões na fornalha do conflito não é do interesse da Europa e da Itália. Putin já perdeu. Nos últimos anos, as forças armadas ucranianas demonstraram coragem, determinação e eficiência superiores. Além disso, a Ucrânia desenvolveu drones e mísseis de alta tecnologia, incluindo drones navais que derrotaram a frota russa no Mar Negro. Quem fala do risco de a Ucrânia se "render" está apenas espalhando propaganda.
Numa época em que a guerra na Ucrânia, causada pela invasão russa, é agravada pela guerra desencadeada por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã, as palavras da encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, tornam-se cada vez mais oportunas. São palavras racionais, perfeitamente legíveis de uma perspectiva secular, que destacam a pressão propagandística e cultural que alimenta os conflitos: "através de narrativas simplistas, lógica amigo-inimigo, desinformação e medo". Descartando a diplomacia e as regras do multilateralismo. Mergulhando na cultura violenta do poder, "onde a paz já não se apresenta como uma tarefa a ser empreendida, mas como um intervalo precário entre conflitos". Estas são reflexões de alto nível num panorama de classes políticas dominantes — em ambos os lados do Atlântico — marcado pela decadência cultural. E, no entanto, valeria a pena discuti-las sem as lentes da propaganda. Especialmente porque a situação (Leão XIV enfatiza isso novamente) é agravada pela crescente indústria armamentista. "Enormes interesses econômicos", observa Leão XIV, estão por trás das guerras atuais. "A estreita ligação entre interesses econômicos, aparatos militares e decisões políticas gera uma 'nação armada'… (enquanto) o mercado de armas se torna um fator autônomo nas escolhas de guerra".
A corrida armamentista, baseada no axioma de 5% do PIB de cada país, está destinada a exaurir a Europa, interrompendo o financiamento da educação e da saúde. Essa também é uma reflexão que se alinha ao pensamento de Leão. Sem esquecer — como apontou o jornal Avvenire — que "a obsessão com a segurança produz um ciclo vicioso que acaba fazendo exatamente o que alega evitar". É estranho que apelos por sabedoria e realismo estejam agora vindo à tona por parte da Igreja. Mas é um fato.
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