08 Julho 2026
Quase 5 mil pessoas estão dormindo nas ruas da capital francesa. Muitas delas são migrantes e são diretamente afetadas pelas temperaturas extremas.
A informação é de Inés Gil, publicada por El Salto, 08-07-2026.
No norte de Paris, perto da estação Stalingrad, a estrutura metálica da linha 2 do metrô se ergue acima do Boulevard de la Chapelle. A cada quatro minutos, os trens que passam quebram o silêncio com um rugido constante que faz o chão vibrar.
Sob esses trilhos elevados, encontra-se um assentamento de migrantes sem-teto. Cerca de 350 pessoas, quase todos homens, dormem ali em barracas improvisadas. "Isso é horrível. E com esse calor, é ainda pior", reclama Shezad. Ele tem 31 anos, é originário da província afegã de Kunar e chegou à França há uma década. Desde então, ele se mudou de acampamentos improvisados para quartos de hotel e, às vezes, para "apartamentos em ruínas", como ele os descreve. Hoje, está dormindo em uma barraca novamente, sob os trilhos do metrô.
"É um inferno. À tarde, o calor invade o corpo todo. Não tem como se refrescar. Não há circulação de ar e a barraca nunca esfria. Olha, essas manchas apareceram durante a onda de calor", diz ele, arregaçando a manga da camiseta para mostrar vários ferimentos no ombro.
Um risco mortal nas ruas
Durante a última semana de junho, as temperaturas atingiram 41 graus Celsius em Paris e permaneceram em torno de 40 graus por três dias consecutivos. Esses são recordes sem precedentes para a capital francesa nessa época do ano e representaram um "sério risco à saúde" para as pessoas em situação de rua, explica Paul Alauzi, coordenador da missão para migrantes da Médicos do Mundo Paris. "Elas não tiveram um único momento de alívio." Embora as temperaturas tenham se estabilizado na França, o calor extremo persiste. "O risco de desidratação nesses casos é muito alto. Problemas dermatológicos graves também aparecem, porque o calor agrava irritações e lesões na pele." Soma-se a isso a falta de recursos da organização. "Muitos de nossos voluntários são médicos aposentados, idosos que são especialmente vulneráveis às altas temperaturas. Eles mal conseguem sair para fazer seus trabalhos de assistência."
O calor extremo que atualmente assola a Europa também está tendo consequências psicológicas para as pessoas sem-teto. "Os migrantes já sofreram experiências muito traumáticas durante o exílio. As altas temperaturas podem agravar os transtornos psiquiátricos. No campo de Stalingrado, por exemplo, encontramos uma pessoa que se isolou do lado de fora das tendas e arrancou a pele do couro cabeludo", explica o assistente social.
Ali, outro morador do acampamento, junta-se à conversa. "Está muito quente no nosso país, mas isto é Paris. Esta cidade não está preparada para suportar estas temperaturas", diz ele. Durante os dias mais quentes da semana passada, Ali ia todos os dias ao canal Saint-Martin para nadar. Com a chegada das altas temperaturas, a Câmara Municipal de Paris autorizou o banho neste canal de 4,5 quilômetros que atravessa o 10.º e o 11.º arrondissements da cidade, tornando-o um dos principais refúgios do calor para os parisienses.
Além do canal, os moradores do acampamento La Chapelle podem usar os banheiros e chuveiros municipais gratuitamente. "Eles ficam perto da estação de trem Gare de l'Est. Não é exatamente ao lado, e quando você volta com 40 graus de calor, está encharcado de suor de novo. Mas pelo menos podemos tomar banho", explica Ali. A poucos metros do acampamento, também há um bebedouro. "Não teríamos sobrevivido sem ele", diz Safi, outro refugiado afegão, originário de Mazar-i-Sharif. "Aqui, nos ajudamos uns aos outros. É disso que se trata o acampamento. Mas para quem tem mais de cinquenta anos, tudo é muito mais difícil", acrescenta, apontando para um companheiro de cabelos grisalhos deitado em um cobertor no chão.
Alojamento de emergência não garantido
Organizações que trabalham com pessoas sem-teto e migrantes alertam que as ondas de calor extremas estão agravando uma situação já crítica. A Utopia 56, uma das principais organizações de apoio a migrantes na França, afirma que o Estado está falhando em sua obrigação legal de fornecer abrigo emergencial.
Durante a onda de calor da semana passada, apenas 428 vagas adicionais em abrigos de emergência foram disponibilizadas, embora, segundo a Utopia 56, "cerca de 5 mil pessoas ainda estejam vivendo nas ruas. Essas vagas, além disso, ficaram indisponíveis em 28 de junho". A situação foi agravada pelo anúncio da Prefeitura de Paris sobre o corte de 1.200 diárias em hotéis até dezembro. "É inaceitável", afirma Nathan Lequeux, coordenador da organização em Paris.
Durante a onda de calor extrema da semana passada, a associação teve que abrigar cerca de 160 pessoas por dia, principalmente mulheres e crianças, utilizando seus próprios recursos. "Uma responsabilidade que pertence ao Estado não deve recair sobre as ONGs. É a Prefeitura que tem a obrigação legal de garantir abrigo emergencial para qualquer pessoa em situação de rua", insiste Lequeux.
Boumedien, um agente da Polícia Municipal de Paris, rejeita a ideia de que a administração pública francesa tenha permanecido passiva diante dessa situação. Ele chega ao acampamento enquanto as entrevistas para esta reportagem estão em andamento e pede para se pronunciar. "Vocês também deveriam falar sobre o nosso trabalho. Precisam ser justos conosco", insiste, preocupado com a imagem que isso pode projetar da polícia. Boumedien faz parte da Unidade de Assistência a Sem-Teto, integrada à Direção da Polícia Municipal de Paris, que, há duas décadas, realiza diversas intervenções sociais com uma equipe especializada que trabalha com a população migrante.
"Nos dias quentes, distribuíamos água fria", explica o policial. "Estávamos constantemente de serviço, patrulhando sem interrupção. Se alguém tivesse um problema de saúde, acionávamos os serviços de emergência, e os hospitais públicos os atendiam gratuitamente. Também trabalhávamos com o 115, o serviço público de emergência, para tentar encontrar acomodação para eles."
No entanto, ele reconhece que os recursos são insuficientes. "Não há espaços suficientes disponíveis." Sobre a possibilidade de novas ondas de calor atingirem a capital novamente neste verão, ele garante que a polícia municipal "está preparada" e destaca que a Prefeitura instalou diversos bebedouros por toda a cidade. "Bem aqui, a poucos metros, no Parque Léon, tem um bebedouro." Mesmo assim, ele admite que a situação é difícil para os moradores de rua. "Ainda há muita gente vivendo nas ruas."
A poucos metros do grupo de afegãos, várias pessoas de origem sudanesa buscam refúgio na sombra dos trilhos do metrô. "O calor aqui é insuportável", diz Abdul. Ele fugiu da guerra no Sudão e chegou à França há apenas dez dias, em meio a uma onda de calor. "Espero que não tenhamos que passar por algo assim novamente neste verão."
Mobilização para exigir mais ajuda pública
A onda de calor levou dezenas de migrantes sem-teto à esplanada da Prefeitura de Paris na última terça-feira, 30 de junho. Eles exigiam abrigo emergencial para os milhares de pessoas que ainda dormiam nas ruas. Lucila carregava um cartaz de papelão com os dizeres: "Todos precisam de um teto sobre suas cabeças". Ela tem 43 anos, é originária da República Democrática do Congo, mãe de cinco filhos e vive nas ruas. "Com o calor extremo, um dos meus filhos teve febre. Os pequenos não conseguiam dormir. Era insuportável", explicou ela na terça-feira.
"Socorro, estamos exaustos!" gritavam os manifestantes. A manifestação foi organizada pela Utopia 56, em conjunto com Médicos do Mundo. Ambas as organizações têm denunciado a falta de abrigo para os sem-teto. Segundo Bérangère Grisoni, presidente do coletivo Les Morts de la Rue (Os Mortos da Rua), "mais de uma dúzia" de pessoas sem-teto morreram "em consequência da onda de calor extrema em Paris, na região da Île-de-France e no Pays de la Loire".
Gala Matondo, uma angolana que vive na França há apenas um ano e meio, explicou que passou os primeiros dias da onda de calor "sob uma tenda" com seus dois filhos, um deles um bebê de oito meses. A faixa que carregava na terça-feira durante a manifestação dizia: "Ter um teto sobre a cabeça é uma necessidade básica". "O calor se acumula dentro da tenda e, à noite, não consigo refrescar o bebê", disse ela. Nos piores dias, a Utopia 56 ofereceu abrigo temporário para a família. "Tentei ligar para o 115, mas nunca havia vagas. Felizmente, a associação nos ajudou." Ela também pediu às autoridades francesas que cumpram sua obrigação de garantir abrigo emergencial. "Somos estrangeiros, mas, antes de tudo, somos seres humanos."
Calida, de 37 anos, vive na França há um mês. Ela chegou de Alicante com o marido e o filho na esperança de encontrar trabalho. Eles também estão morando nas ruas. "Liguei para o 115, mas não havia vaga. Meu bebê tem dez meses. É muito difícil para ele." Seu marido, Mourat, também não conseguiu procurar emprego durante o calor extremo. "Não conseguia dormir à noite. Estava completamente exausto. Foi terrível. É um ciclo vicioso. De acordo com a previsão do tempo, as ondas de calor extremas vão voltar. Não sei como vamos sobreviver", conclui.
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