07 Julho 2026
O brasileiro, completamente desorientado e focado em assuntos alheios à Copa do Mundo, tornou-se um meme de si mesmo, enquanto as duas grandes figuras que ele deveria substituir no futebol continuavam brilhando aos 39 anos.
O artigo é de Daniel Verdú, jornalista espanhol, publicado por El País, 07-06-2026.
Eis o artigo.
Algumas comédias se baseiam na descontextualização de seus personagens para provocar risos. Coloca-se um sujeito com características biográficas muito específicas em um lugar onde ele não pertence e deixa-se o tempo passar, permitindo que ele se envolva nesse ecossistema estranho. Conforme as cenas se desenrolam, suas rotinas, nada particularmente estranhas, tornam-se hilárias. Veja, por exemplo, Um Marciano em Roma, de Ennio Flaiano, o alienígena que aterrissa a capital italiana e desperta uma onda de fascínio ao sair de sua nave espacial no coração dos jardins da Villa Borghese. Então, pouco a pouco, ele sofre a indiferença dos romanos, um povo que viu demais em 2.779 anos para ceder seu lugar no café a um extraterrestre.
Aconteceu o mesmo com Alfredo Landa na Alemanha e com o primo de Larry em Chicago. Ou, involuntariamente, com os talibãs que viajaram para Bruxelas outro dia, quando alguém pensou que eles eram interlocutores legítimos para discutir imigração. Imaginei-os indo ao shopping, olhando com desdém para aquele exército de assessores, diplomatas e parlamentares de Bruxelas bebendo cerveja depois de um dia exaustivo na Comissão Europeia. Malditos infiéis, os afegãos devem ter pensado enquanto devoravam alguns mexilhões. E algo semelhante aconteceu nestas últimas semanas com as palhaçadas de Neymar na Copa do Mundo, causando aquela estranha e cômica sensação de estar completamente deslocado.
O atacante do Santos, mestre em desperdiçar talento, entrou em campo contra a Noruega aos 67 minutos, mal tendo pisado no gramado da Copa do Mundo. Até então, ele havia sido notícia por comprar um relógio de um milhão de euros enquanto seus companheiros de equipe estavam em treinamento. Ou por pedir a camisa de Yassine Bono em um vídeo e oferecer outra a Doué. Ele fazia o que bem entendia, como sempre. Mesmo depois daquela profecia que rendeu a Unzué, então auxiliar técnico do Barcelona, uma discussão com o brasileiro. "Você vai acabar como o Ronaldinho", disse ele. Ele certamente gostou disso.
Ancelotti tem fama de usar a política na hora de escolher o elenco, de manipular emocionalmente o ego dos jogadores. Ele também tende a se concentrar em fatores intangíveis quando se trata de recursos humanos. Mas a situação com Neymar define seu estilo de jogo melhor do que qualquer outra. Ele também sente um tédio absoluto quando jogadores de nível excepcional estão indisponíveis — como aconteceu em Nápoles ou no Everton — ou quando são afastados por lesões da seleção, como o brilhante Estevão. Mas sua autossabotagem na escolha do elenco para a Copa do Mundo é lendária.
Nesse momento, com as costas contra a parede, colocaram em campo, no domingo, o jogador mais deslocado da equipe. Mas Neymar, duas semanas depois, ainda parecia perdido quando se aproximava da área e pedia a bola sem que ninguém o levasse a sério; quando cruzava a bola sem que ninguém tentasse interceptá-la; ou quando, em desespero, chutou Odegaard por trás. O camisa 10 estava fora de forma mesmo em seus melhores momentos, marcando um pênalti sem importância, o último gol que marcaria em uma Copa do Mundo, e enfrentando um goleiro que acabara de fazer uma atuação soberba que impulsionou a Noruega ao topo do torneio. Um fim ridículo e triste para esse grande talento destinado a substituir dois jogadores, um português e o outro argentino, no auge do futebol, que continuam a cativar o público em sua sexta Copa do Mundo.
Em tempo
1.- "A camisa ainda pesa porque os anos 70 e 80 foram grandiosos. Mas é isso. A convocação de Neymar é um escárnio. Um Brasil sem personalidade é outro escárnio. O 7x1 passou sem ser elaborado, sem que haja responsáveis", escreve Milly Lacombe em comentário publicado por UOL, 06-07-2026, sob o título "Brasil: pequeno, covarde, dominado, ridículo, constrangedor".
2.- "Essa é uma geração que, de forma quase total, se submete à liderança de Neymar. A masculinidade, ensina a antropóloga Rita Segato, é hierárquica. Funciona como uma corporação: com um macho alfa e outros machos que imitam, lambem e se submetem ao alfa. Casemiro, Raphinha, Vini, João Pedro e tantos outros precisam sempre deixar claro em entrevistas o que sentem por Neymar. Vini não pode, portanto, brilhar mais do que seu herói. Não se trata de um comportamento tão consciente, obviamente", escreve Milly Lacombe em comentário publicado por UOL, 06-07-2026, sob o título "Vini, Raphinha, Casemiro: a geração sem personalidade e sem rumo".
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