07 Julho 2026
Dos atentados de 11 de Setembro à guerra em Gaza, passando pela pandemia e pela invasão russa da Ucrânia, Fabian Scheidler (Bochum, 1968) identifica um mesmo mecanismo político. As crises, argumenta, transformam-se em oportunidades para ampliar os poderes excepcionais do Estado, transferir recursos públicos para grandes corporações e acelerar a militarização das sociedades ocidentais.
A entrevista é de Guillem Pujol, publicada por La Marea, 05-07-2026.
Em El estado de guerra y la lucha por un nuevo orden de paz (publicado pela Icaria), o ensaísta alemão considera que a Europa está abandonando progressivamente o modelo de Estado social construído após a Segunda Guerra Mundial para entrar em uma economia de guerra permanente. Nesta conversa, faz uma reflexão sobre os limites do sistema partidário, a crise da hegemonia ocidental, a ascensão da China e as possibilidades de reconstruir uma política de paz para o século XXI.
Eis a entrevista.
No livro, você identifica um padrão comum que atravessa acontecimentos aparentemente distintos: do 11 de Setembro à pandemia, à guerra na Ucrânia e à guerra em Gaza. Em todos eles, você observa uma expansão dos poderes excepcionais do Estado e uma crescente militarização da política. Existe uma racionalidade consciente por trás desse processo ou, antes, uma capacidade das elites de instrumentalizar acontecimentos imprevistos?
Não acredito que, há 20 ou 30 anos, houvesse um grupo de pessoas sentado em torno de uma mesa projetando um estado de exceção permanente porque previu o declínio do Ocidente ou o caos global. A história é muito mais complexa do que isso. Não funciona por meio de planos perfeitamente traçados.
Observamos que quando ocorrem acontecimentos traumáticos - o 11 de Setembro, uma pandemia ou uma guerra -, são rapidamente utilizados para reforçar determinadas estruturas de poder, pois isso corresponde aos interesses das elites políticas e econômicas.
A pandemia é um bom exemplo. Algumas pessoas se perguntam por que eu a incluo em um livro sobre guerra e paz. O motivo é que toda a retórica mobilizada durante aqueles anos foi uma retórica de guerra. Emmanuel Macron chegou a declarar que a França estava “em guerra contra o vírus” em um momento em que o movimento dos coletes amarelos havia colocado em questão a ordem política francesa e protagonizado uma mobilização social muito importante. O estado de exceção também serviu para conter esse conflito.
Algo semelhante ocorreu com a chamada guerra contra o terrorismo. François Hollande reconheceu que algumas das medidas introduzidas para combater o terrorismo acabaram sendo utilizadas contra ativistas climáticos durante a cúpula do clima de Paris, em 2015.
Existe uma lógica recorrente. Produz-se uma crise e esta crise é utilizada para reforçar o poder executivo, ampliar o poder corporativo e transferir enormes quantidades de recursos públicos para determinados interesses privados. Foi o que vimos na guerra contra o terrorismo, na qual o complexo militar-industrial foi um dos grandes beneficiários. Também observamos isso durante a pandemia, quando setores como as grandes farmacêuticas ou as corporações tecnológicas obtiveram enormes vantagens.
Tudo isso é especialmente relevante porque vivemos uma crise estrutural do capitalismo que, em minha opinião, vem se arrastando pelo menos desde 2008. Cada vez mais corporações dependem de subsídios estatais, resgates públicos ou contratos governamentais. Os estados de emergência se tornaram mecanismos de transferência massiva de recursos para essas estruturas de poder.
A crise bancária foi outro exemplo. Utiliza-se dinheiro público para resgatar grandes corporações privadas. É assim que funciona grande parte do capitalismo contemporâneo.
No entanto, alguns dos princípios que definiram a governança econômica europeia após a crise financeira parecem estar sendo revistos. A Alemanha flexibilizou suas restrições constitucionais ao endividamento e a Europa parece abandonar algumas das regras que defendeu durante anos. Você interpreta essas mudanças como uma correção de rumo ou simplesmente como uma adaptação a novas prioridades?
Não acredito que tenham aprendido muito com a crise financeira. Muitas vozes importantes continuam alertando para a possibilidade de novas crises bancárias. O que aconteceu na Alemanha foi uma alteração da Constituição para eliminar os limites de dívida para financiar a militarização. Os Verdes acrescentaram, além disso, exceções relacionadas aos serviços de inteligência.
O resultado é muito claro. Mantém-se a austeridade para a maior parte da população, ao passo que são eliminadas as restrições para gastos militares. Estamos entrando em uma situação na qual podemos destruir grande parte do Estado de bem-estar social europeu enquanto destinamos recursos praticamente ilimitados ao Exército.
Lembro-me de uma manchete do Financial Times que resumia muito bem essa lógica. Dizia que a Europa teria de reduzir seu Estado de bem-estar social para construir um Estado de guerra. Essa é justamente a direção para a qual estamos nos movendo.
Se o Estado-nação e o capitalismo fazem parte de uma mesma arquitetura histórica, sobre quais fundamentos poderia ser construída uma política de segurança diferente? Existe alguma alternativa que não reproduza a lógica da competição geopolítica entre Estados?
Superar o Estado-nação é uma tarefa tão grande quanto superar o capitalismo, porque ambos fazem parte de uma mesma estrutura histórica. Não são fenômenos independentes.
Não sei se o capitalismo e o Estado-nação moderno sobreviverão ao longo deste século. O que sei é que ambos atravessam uma crise profunda e que a resposta das elites está sendo avançar para formas permanentes de estado de exceção e, inclusive, de estado de guerra. É justamente por isso que acredito que devemos resistir a essa deriva militarista.
Para a esquerda, isso implica recuperar a questão da paz como um tema central. Na Alemanha, por exemplo, uma parte importante da esquerda ignorou essa questão porque considera que ela gera conflitos internos ou dificuldades midiáticas. Contudo, se os governos europeus continuarem avançando nessa direção, a militarização acabará destruindo os fundamentos materiais do Estado social.
Por isso, precisamos construir uma nova coalizão política que conecte paz, justiça social, ampliação do Estado de bem-estar social, limites ao poder corporativo e diplomacia internacional. Sem paz, será impossível enfrentar a crise climática ou a crise ecológica. Os recursos necessários para essas transformações desaparecerão. Tudo está interligado.
Em certo sentido, precisamos recuperar a intuição original do movimento ambiental europeu, que vinculava paz, democracia, justiça social e crítica ao capitalismo como partes de uma mesma agenda.
Mas até mesmo as forças políticas que nasceram para desafiar o consenso dominante parecem acabar se adaptando a ele. Isso é algo de que, por exemplo, o Podemos foi acusado em cidades como Cádiz, onde coexistiam um discurso transformador e a defesa de indústrias ligadas à produção militar devido à sua importância para o emprego local. Como se resolve essa tensão entre transformação social e dependência econômica das estruturas existentes?
É uma questão muito difícil. Sou bastante crítico ao sistema partidário, embora não possamos desprezá-lo porque existe e continua tendo poder. Minha impressão é que qualquer transformação profunda deverá ser construída também fora dos partidos, por meio de novas coalizões sociais capazes de articular uma visão diferente de Europa.
O que me dá esperança são experiências concretas. Vimos trabalhadores portuários na Itália e na Espanha bloqueando envios destinados à guerra em Gaza. Vimos ativistas bloqueando instalações do complexo militar-industrial na Alemanha. Vimos formas de resistência que surgem da base.
Também observamos resistência entre os jovens frente à possibilidade de restabelecer o serviço militar obrigatório. Muitos não querem participar desses conflitos geopolíticos. Nada disso constitui ainda um movimento de massas, mas são elementos a partir dos quais algo diferente pode ser construído.
Você também considera que o declínio da hegemonia ocidental poderia abrir a possibilidade de uma nova ordem internacional. No entanto, por que deveríamos supor que potências como a China, a Índia ou os Estados do Golfo agirão de forma menos dominadora do que as potências ocidentais? O que haveria de mais pacífico em um mundo multipolar?
A multipolaridade não garante a paz. Ela também pode levar à guerra. De fato, muitos dos grandes conflitos da história moderna surgiram justamente durante momentos de transição hegemônica. Isso ocorreu antes da Primeira Guerra Mundial, antes da Segunda e em muitos outros momentos em que várias potências competiam pela liderança global. A questão é se há fatores que possam evitar esse resultado.
A China tem uma trajetória histórica diferente. Não completamente pacífica, é claro, mas diferente da experiência ocidental. A relação entre Estado e capital é diferente. Existe uma tradição política que insiste em manter o controle do capital e do Exército sob o controle civil. Além disso, a memória histórica chinesa é profundamente marcada pelo chamado século da humilhação, quando as potências ocidentais intervieram e fragmentaram o país. Sob a perspectiva chinesa, o principal objetivo consiste em evitar que algo semelhante volte a acontecer.
A narrativa dominante lá não é a construção de um império militar global, mas a recuperação da segurança e da autonomia nacional por meio do desenvolvimento econômico. Isso não significa que não existam setores nacionalistas ou militaristas na China. Existem. Mas isso abre a possibilidade de evitar uma guerra de sucessão hegemônica semelhante às que vimos ao longo dos últimos 500 anos. Não sabemos se conseguiremos. Sabemos apenas que essa possibilidade existe.
E que papel Taiwan desempenha nessa equação?
Taiwan é provavelmente o ponto mais perigoso. Enquanto o atual status quo continuar existindo, com toda a retórica que queiramos acrescentar a ele, é possível evitar uma guerra. Mas se Taiwan declarasse formalmente sua independência e os Estados Unidos apoiassem explicitamente essa decisão, entraríamos em um cenário completamente diferente.
Convém lembrar que a política de uma só China foi reconhecida durante décadas pelas Nações Unidas, pelos Estados Unidos e pela maioria dos Estados do mundo. Manter esse marco é provavelmente uma condição necessária para evitar um confronto militar de consequências imprevisíveis.
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