Como Israel tem usado a violência sexual contra os palestinos desde a sua fundação: "É um sistema de dominação, opressão e apagamento"

(Foto: Michael Shvadron | Wikimedia commons)

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01 Julho 2026

Um novo relatório do Coletivo Feminista Palestino e da Internacional Progressista compilou múltiplos casos de uso de violência sexual por Israel contra palestinos ao longo das décadas, desde a fundação do Estado de Israel em 1948 até os dias atuais, com ênfase particular em casos ocorridos desde outubro de 2023, quando a operação genocida contra Gaza teve início após os ataques do Hamas.

A reportagem é de Victor Honorato, publicada por El Diario, 30-06-2026.

O relatório, intitulado Um Estado Predatório, analisa sistematicamente, ao longo de mais de 180 páginas, as provas documentais e os testemunhos recolhidos de múltiplas fontes — desde relatos de sobreviventes a pesquisas de historiadores, opiniões de especialistas jurídicos e notícias da imprensa — para concluir que a utilização da violência sexual representou uma estratégia de "desumanização institucionalizada para infligir danos e punições coletivas aos palestinos e tentar reduzir a resistência a um estado de subjugação coletiva". A este respeito, rejeita a narrativa das autoridades israelenses de que os casos de violência foram incidentes isolados, concluindo, em vez disso, que faziam parte de um plano coordenado.

Um exemplo flagrante, segundo os autores, é o uso de cães em atos de violência sexual, mencionado em uma seção específica. “Sustentamos que a única maneira de um cão estuprar um ser humano é se ele tiver sido treinado para isso”, afirmam. Eles alegam que o objetivo dessa prática é incitar o terror nos palestinos e chamam a atenção para o fato de que a escala e a frequência desses atos aumentaram desde a nomeação do colono de extrema-direita Itamar Ben-Gvir como Ministro da Segurança Nacional de Israel em 2022.

Violência sexual desde 1948

O relatório cita casos documentados de violência sexual que remontam à fundação do Estado de Israel e aos massacres e expulsões de palestinos de suas casas que se seguiram, a chamada Nakba (catástrofe). Menciona o caso de um estupro coletivo reconhecido por um comandante militar e registrado em arquivos israelenses, um evento que foi desclassificado e posteriormente declarado secreto novamente, bem como documentação compilada pelos primeiros historiadores revisionistas israelenses — como Benny Morris e Ilan Pappé — que contestaram a narrativa oficial de uma ocupação pacífica de terras praticamente estéreis.

O relatório divide cronologicamente a repressão israelense desde a fundação do Estado até 2023 em cinco fases, destacando inúmeros casos de violência sexual. A partir dessa data, o relato torna-se ainda mais detalhado, categorizando os atos como “humilhação sexual” ou “tortura sexual e estupro”, distinguindo entre vítimas do sexo masculino e feminino (incluindo crianças) e se as ações foram cometidas com “intenção genocida”.

Testemunhos repetidos

Os casos são variados. Um depoimento, retirado de um trabalho anterior da ONG Euromed, é de uma mulher detida que relata penetração anal com um pênis artificial. Em outro, coletado anteriormente pelo Centro Palestino para os Direitos Humanos, uma mulher identificada pelas iniciais NA, detida em um posto de controle em Gaza em 2024, relata estupros cometidos por mais de um soldado, alguns no mesmo dia, além de tortura física e psicológica. “Não consigo descrever o que senti; a cada instante eu queria morrer”, disse ela.

Uma das instalações onde foram relatados abusos é a Prisão de Ofer, em Jerusalém, mencionada diversas vezes no relatório. Um dos advogados que visitou os presos nessa instituição, Khaled Mahajna, destaca que alguns desses abusos sexuais foram cometidos deliberadamente na frente de outros detentos “para dar uma lição a todos os presos e fazê-los perceber que qualquer um deles poderia ser submetido a métodos tão brutais”.

A obra é assinada pelo Coletivo Feminista Palestino (PFC), que se identifica como um grupo de feministas árabes e palestinas com base principalmente na América do Norte, e pela Internacional Progressista, um movimento de partidos de esquerda, sindicatos e ONGs de todo o mundo, cujos idealizadores iniciais foram o político grego Yanis Varoufakis e o senador americano Bernie Sanders.

A relatora da ONU endossa o trabalho

A Relatora Especial da ONU para a Palestina, Francesca Albanese, elogiou o trabalho. “É hora de entender que os crimes contra os palestinos — incluindo a violência sexual e de gênero que foi minuciosamente investigada e denunciada neste relatório — não são uma soma de abusos isolados, mas um sistema de dominação, opressão e apagamento [...]”

“Os Estados parecem alegar ignorância para se esquivarem de suas obrigações legais de prevenir e punir o genocídio, acabar com a cumplicidade, investigar e processar os responsáveis ​​e desmantelar as estruturas que permitem que tais crimes persistam. O relatório é um apelo a todos os cidadãos responsáveis ​​para que se unam, não apenas para acabar com o genocídio, mas para lutar de uma vez por todas contra esse modelo de poder ‘movido a testosterona’ que se enraíza e prospera por meio da subjugação e da repressão”, afirma Albanese

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