30 Junho 2026
Em evento na capital gaúcha, o cientista e dois pesquisadores defendem preparação da sociedade para enfrentar eventos climáticos cada vez mais extremos. Adaptação e educação serão decisivas.
A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 29-06-2026.
A possibilidade de um novo El Niño de forte intensidade, entre o fim do inverno e a primavera, coloca novamente o Brasil em alerta sobre o risco de eventos climáticos extremos.
Para especialistas reunidos no painel O novo El Niño e seus reflexos no clima do Brasil, a principal lição deixada pela tragédia de 2024 no Rio Grande do Sul é que não basta acompanhar as previsões meteorológicas. Mais do que nunca, é preciso preparar a sociedade para conviver com um clima cada vez mais instável, combinando ciência, planejamento, políticas públicas e educação.
O evento promovido pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) na noite de sexta, 26, reuniu o climatologista Carlos Nobre, a meteorologista Simone Ferraz, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e o geógrafo Dilermando Cattaneo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Litoral (Ufrgs). O painel pode ser acessado na íntegra no Canal do Sinpro/RS no Youtube.
Embora abordassem o tema sob perspectivas distintas – climatologia, meteorologia e geografia –, os três defenderam que os impactos das mudanças climáticas podem ser reduzidos se o conhecimento científico orientar decisões públicas e chegar às comunidades.
Carlos Nobre apresentou o cenário mais preocupante
Segundo o cientista, todos os principais centros internacionais de monitoramento climático e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) convergem para uma probabilidade de 63% de que o atual El Niño evolua para um episódio muito forte entre setembro e dezembro.
“O Sul do Brasil tem que se preparar muito”, afirmou.
O pesquisador, que é um dos mais renomados climatologias do mundo, lembrou que o fenômeno é natural e acompanha o planeta há milhões de anos. O problema, explicou, é que o El Niño passa agora a atuar sobre oceanos e atmosfera significativamente mais aquecidos pelas emissões de gases de efeito estufa.
“O que está acontecendo agora com o aquecimento global é que todas as temperaturas estão ficando mais quentes no planeta. Por isso, os El Niños mais fortes tendem a ser mais comuns”, registrou
Na avaliação de Nobre, a ciência dispõe hoje de capacidade suficiente para antecipar situações de risco e reduzir significativamente o número de vítimas, desde que governos invistam em prevenção, sistemas de alerta e retirada antecipada de moradores de áreas vulneráveis.
“Não deixem acontecer o que aconteceu em 2023 e 2024. Preparem centenas de milhares de gaúchos”, apelou.
Um fenômeno natural em um planeta transformado
A meteorologista Simone Ferraz reforçou a avaliação de que o El Niño não mudou em sua essência, mas seus efeitos passaram a ocorrer em um contexto climático completamente diferente.
“Imagine o El Niño acontecendo sobre um planeta que já está mais quente. O fenômeno continua sendo o mesmo, mas seus impactos tendem a ser maiores”, comparou.
Ao longo de sua exposição, ela procurou desfazer interpretações que atribuem o aquecimento global apenas a processos naturais da Terra. Segundo a pesquisadora, fenômenos como variações na atividade solar, mudanças na órbita terrestre ou vulcanismo influenciam o clima, mas não explicam a rapidez do aquecimento registrado nas últimas décadas.
Ela destacou que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera já ultrapassa 430 partes por milhão, muito acima dos níveis observados antes da industrialização.
Para Ferraz, isso ajuda a compreender por que os eventos extremos vêm se tornando mais frequentes e intensos. Lembrou que somente em 2023 o Brasil registrou uma sucessão incomum de ondas de calor, secas, ciclones, enchentes e episódios de frio intenso, indicando uma atmosfera cada vez mais energética.
Apesar do alerta, a meteorologista fez questão de diferenciar tendência climática de previsão determinística.
“Seria irresponsável dizer agora que em determinado mês choverá tantos milímetros acima da média. O que os modelos mostram é uma tendência consistente de precipitações acima do normal e temperaturas elevadas”.
Simone também ressaltou que as enchentes de 2024 não podem ser atribuídas exclusivamente ao El Niño. Conforme explicou, o fenômeno manteve o solo saturado por meses, mas a tragédia resultou da atuação simultânea de bloqueios atmosféricos, ciclones, temperaturas excepcionalmente elevadas e outros sistemas meteorológicos.
O desastre não é apenas climático
Se Nobre e Simone concentraram suas análises na evolução do sistema climático, Dilermando Cattaneo deslocou o foco para as condições sociais e territoriais que transformam eventos extremos em catástrofes.
“O evento extremo não é sinônimo de desastre”, pontuou.
Para Cattaneo, um fenômeno meteorológico intenso só se converte em desastre quando encontra populações vulneráveis, ocupação inadequada do território e ausência de políticas públicas capazes de reduzir riscos.
“É recorrente como a gente costuma culpar fenômenos naturais pelas coisas que acontecem, eximindo o Estado, a sociedade e o modo de produção capitalista”.
A partir da perspectiva da ecologia política, o pesquisador argumentou que enchentes, secas e outros desastres revelam problemas estruturais relacionados ao planejamento urbano, às desigualdades sociais e ao modelo de desenvolvimento.
Nesse contexto, ele criticou a tendência de buscar respostas exclusivamente técnicas, como obras de engenharia ou dragagens, sem enfrentar as causas que tornam determinadas populações mais expostas aos riscos.
Também relacionou a expansão do agronegócio sobre biomas como Cerrado e Amazônia às transformações ambientais observadas nas últimas décadas, defendendo que o debate climático incorpore a discussão sobre uso da terra e políticas de desenvolvimento.
Ciência e educação caminham juntas
Embora partissem de enfoques distintos, os três painelistas convergiram em um ponto: enfrentar as mudanças climáticas depende tanto dos avanços científicos quanto da democratização do conhecimento.
Ao responder perguntas do público, Simone Ferraz afirmou que a educação continua sendo a ferramenta mais poderosa para transformar comportamentos.
“Qualquer mudança que a gente espera que aconteça vai acontecer com a educação”, sentenciou.
Ela lembrou que campanhas de reciclagem ganharam aos alunos como aliados, pois levaram novos hábitos para dentro das famílias e acredita que o mesmo pode ocorrer com a educação climática.
A pesquisadora também defendeu ampliar a formação em climatologia e agrometeorologia, destacando que agricultores precisam compreender não apenas El Niño e La Niña, mas também ondas de calor, ciclones e outras variabilidades atmosféricas que afetam diretamente a produção agrícola.
Cattaneo ampliou essa reflexão ao defender que o conhecimento produzido nas universidades ultrapasse os limites acadêmicos. “O maior pesquisador do mundo, se a produção de conhecimento não chega às comunidades, à periferia, ao chão da fábrica, ela fica muitas vezes lá dentro”.
Na avaliação do professor, pesquisa e extensão precisam caminhar juntas para construir soluções com as comunidades, e não apenas para elas. Ele ainda defendeu a valorização dos professores como condição indispensável para qualquer política educacional consistente.
Amazônia e Rio Grande do Sul ligados pela mesma crise
Durante o debate, Nobre chamou atenção para outro aspecto da crise climática: a situação da Amazônia.
O climatologista disse que cerca de 18% da floresta já foi desmatada e outros 34% apresentam algum grau de degradação, aproximando o bioma do chamado “ponto de não retorno”, quando perderia a capacidade de manter seu próprio equilíbrio climático.
Para evitar esse cenário, ele defendeu quatro prioridades: desmatamento zero, restauração florestal em larga escala, fortalecimento da bioeconomia baseada na floresta em pé e valorização dos conhecimentos tradicionais.
Embora tratassem de escalas diferentes, da Amazônia ao território gaúcho, os painelistas convergiram para uma mesma conclusão. A que, diante de um planeta em aquecimento, fenômenos naturais como o El Niño continuarão ocorrendo, mas seus impactos dependerão cada vez mais das escolhas feitas pela sociedade.
Para os pesquisadores, prevenir novos desastres exige integrar monitoramento climático, planejamento urbano, preservação ambiental, educação e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que as próximas tempestades cheguem.
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