22 Junho 2026
Ainda há marcas físicas e emocionais decorrentes das enchentes históricas que atingiram quase todo o Rio Grande do Sul há dois anos, em maio de 2024. Agora, com a confirmação de um novo El Niño e a possibilidade de que se torne um fenômeno muito forte, as preocupações com novas chuvas extremas são crescentes – assim como as incertezas sobre ações governamentais para evitar que o pior se repita.
A informação é publicada por ClimaInfo, 21-06-2026.
Apesar dos investimentos em infraestrutura, sistemas de alerta e monitoramento, Sarandi, em Porto Alegre, continua sendo um símbolo da vulnerabilidade da capital gaúcha, destaca a CNN Brasil. Moradora do bairro, Marilian Fontoura conta que as pessoas estão com medo. Em sua casa, há marcas de água até o teto da enchente de 2024. “Se for outro temporal, outra enchente, aí o que acontece? A gente perde tudo de novo.”
O governo do Rio Grande do Sul lançou o Prepara RS, plano voltado para a prevenção de impactos do El Niño 2026-27. Segundo o Executivo gaúcho, todos os 497 municípios do estado elaboraram planos de contingências, aprovados pela defesa civil estadual. Em 2024, eram apenas 60 cidades, informa a CNN Brasil.
Na semana passada, o governador Eduardo Leite (PSD) anunciou o repasse de R$ 32,9 milhões a cidades consideradas mais suscetíveis a desastres climáticos. Inicialmente, o valor deve beneficiar 141 municípios – portanto, uma média de apenas R$ 234 mil para cada um deles. São cidades que registraram inundações, declararam calamidade pública em 2023 ou 2024 ou que apresentam risco geológico.
Na capital, o prefeito Sebastião Melo (MDB) afirma que a cidade está mais segura do que em 2024 e que está trabalhando “intensamente” para reparar estações de bombeamento, reconstruir diques e melhorar as comportas. No entanto, somente na semana passada a empresa de água e esgoto do município selecionou um consórcio para fazer obras de proteção contra enchentes financiadas pelo estado, no valor de R$ 24,2 milhões. E Marilian, de Sarandi, reclama de projetos parados perto de casa, como um dique, conta a Reuters.
Em debate promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Alexania Rossato, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), chamou atenção para a falta de assistência das prefeituras gaúchas e a inexistência de programas específicos para atender às demandas dos atingidos por enchentes. “O que se viu e se vê ainda é um despreparo das prefeituras no cadastramento e reconhecimento das famílias”, afirmou.
Também presente no evento, Guilherme Marques, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reforçou que o preparo a eventos extremos vai além de ações contra desastres. “Se preparar contra eventos extremos implica conseguirmos avaliar diferentes trajetórias e soluções integradas, especialmente considerando a existência de eventos que não conseguimos modelar probabilisticamente. É o que chamamos, na literatura, de deep uncertainties, incertezas profundas.”
O que é certo é que prefeituras continuam ignorando as mudanças climáticas e avançando contra a Natureza. É o que mostra um mapeamento do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS), que identificou 36 cidades gaúchas que promulgaram leis fragilizando Áreas de Proteção Permanente (APPs) urbanas.
Pressões políticas que favorecem a especulação imobiliária estão no cerne do desmonte da legislação ambiental nesses casos, aponta ((o))eco. Mesmo que um estudo realizado pelo WRI-Brasil indique que entre as causas-raiz dos efeitos das inundações de 2024 no estado esteja o modo de ocupação territorial pouco resiliente e o modelo de desenvolvimento que prioriza a economia sobre pautas ambientais e sociais.
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