01 Julho 2026
"Choques de oferta não geram desigualdade espontaneamente, mas sim amplificam a desigualdade já existente."
O artigo é de Ben Balint-Kurti, jornalista especializado em economia e antitruste, sediado em Nova York. Anteriormente, foi pesquisador do projeto Reimagining the Economy em Harvard, publicado por Jacobina, 29-06-2026. A tradução é de Pedro Silva.
Eis o artigo.
Mais de 50% dos lucros decorrentes dos recentes choques na oferta de petróleo foram para o 1% mais rico dos estadunidenses. A faixa mais pobre da população recebeu apenas 1%. A guerra contra o Irã desencadeou outra transferência maciça de recursos para os mais ricos.
A recente guerra no Irã desencadeou um enorme choque global no preço do petróleo. Praticamente todos no planeta dependem do petróleo, ou de produtos que o requerem, o que significa que praticamente todos estão pagando mais pelos itens básicos da vida cotidiana. Parece ser uma daquelas raras crises que afetam a todos igualmente.
Mas não. Uma nova pesquisa dos economistas Gregor Semieniuk, Isabella Weber e seus colegas utiliza análises financeiras para mostrar exatamente como os choques de oferta canalizam o dinheiro para o andar de cima: mais de 50% dos lucros provenientes dos choques de oferta relacionados à Covid e à Ucrânia em 2021 e 2022 foram para o 1% mais rico da população dos EUA. Os 50% mais pobres receberam apenas 1%. Há todos os motivos para acreditar que o mesmo padrão está se repetindo agora.
O mecanismo é simples. Suponha que uma guerra destrua os estoques de petróleo de alguma empresa, mas não os seus. O preço global do petróleo sobe porque a oferta total diminuiu, mesmo que sua empresa não tenha sofrido nenhuma perda. Agora você vende a mesma quantidade de petróleo de antes a preços dramaticamente mais altos, sem ter feito nada para melhorar seu produto ou sua eficiência. É um lucro inesperado.
Quando isso aconteceu durante as crises de 2021 e 2022, empresas como a ExxonMobil e a Chevron registraram lucros recordes. Houve, compreensivelmente, apelos para tributar esses lucros e devolver parte do dinheiro ao público que arcou com o custo dos preços mais altos nos postos de gasolina.
Como observou Darren Woods, CEO da ExxonMobil: "Nos Estados Unidos, tem havido discussões sobre a nossa indústria devolver parte dos lucros diretamente ao povo estadunidense. Na verdade, é exatamente isso que estamos fazendo, na forma de dividendos trimestrais."
É evidente que, provavelmente, não é você quem vai receber esse dividendo.
Quem fica com o dinheiro?
Para rastrear o destino real dos lucros dos combustíveis fósseis, os pesquisadores acompanharam a cadeia de propriedade desde as empresas petrolíferas até os acionistas individuais, incluindo pessoas que possuem ações de empresas petrolíferas indiretamente por meio de fundos de hedge, fundos de investimento ou outras empresas. A descoberta é surpreendente.
O 1% mais rico da população concentrou mais da metade de todos os lucros dos combustíveis fósseis durante os choques de oferta de 2021-2022. A metade mais pobre da população estadunidense recebeu apenas 1%. Isso muda fundamentalmente a forma como entendemos a inflação impulsionada por choques de oferta. Se considerarmos apenas o aumento dos preços ao consumidor, essa inflação afeta a todos de forma praticamente igual, cerca de 6,5% em 2022, em todas as faixas de renda. Mas, ao levarmos em conta os lucros que retornam aos acionistas, surge um cenário bem diferente.
Para o 1% mais rico, a inflação efetiva em 2022 foi de cerca de 3%, porque seus dividendos e rendimentos de ações compensaram grande parte dos aumentos de preços. Para os 50% mais pobres, não houve essa compensação. Eles foram obrigados a absorver o impacto total.
O que está acontecendo agora?
As empresas já divulgaram individualmente os resultados. A Shell e a BP anunciaram aumentos expressivos nos lucros. Os spreads de refino nos EUA, a medida padrão das margens de lucro das refinarias, mostram que grande parte do aumento nos custos de combustível reflete margens de lucro maiores, e não custos de insumos mais elevados. E como as principais companhias petrolíferas são verticalmente integradas, elas lucram em ambas as pontas: com o aumento dos preços pelos quais vendem seu excedente de petróleo bruto e com o aumento de suas próprias margens de refino.
Os mercados, ao que parece, anteciparam-se ao público. As ações de empresas de combustíveis fósseis começaram a subir em janeiro e fevereiro deste ano, quando as tensões com o Irã aumentaram e a invasão da Venezuela pelos EUA gerou temores (ou, para os acionistas, talvez esperanças) de novas interrupções no fornecimento.
Choques de oferta não geram desigualdade espontaneamente, mas sim amplificam a desigualdade já existente. A guerra no Irã não escolheu seus vencedores e perdedores no âmbito econômico; a estrutura de propriedade da indústria global de combustíveis fósseis fez isso. Quando descrevemos o que se segue simplesmente como "inflação" ou "dinâmica de mercado", estamos usando uma linguagem neutra para descrever algo que é, em sua essência, uma transferência de recursos de pessoas que estão sofrendo para pessoas que não estão.
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