Como a crise do Irã se desenrolaria em um mundo movido por energias renováveis em vez de combustíveis fósseis? Artigo de Katie Marie Manning, Clement Sefa-Nyarko e Frans Berkhout

Foto: Markus Distelrath/Pexels

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06 Março 2026

"Realizar esse experimento mental não significa que a energia renovável eliminaria a geopolítica. Em um mundo pós-petróleo, o estreito ainda teria importância e os conflitos por recursos não desapareceriam. Mas isso sugere que o nosso sistema energético baseado em combustíveis fósseis é frágil, e que conflitos podem rapidamente repercutir em todo o planeta", escrevem Katie Marie Manning, Clement Sefa-Nyarko e Frans Berkhout, em artigo publicado por The Conversation, 04-03-2026.

Katie Marie Manning é professora de Mudança Climática, Negócios e Sociedade, na King’s College London.

Clement Sefa-Nyarko é professor de Segurança, Desenvolvimento e Liderança na África, no King’s College London.

Frans Berkhout é professor de Meio Ambiente, Sociedade e Clima, no King’s College London.

Eis o artigo.

Imagine o conflito crescente entre os Estados Unidos, Israel e Irã se desenrolando em um mundo movido principalmente por energia eólica, solar e baterias, em vez de petróleo e gás.

Na economia atual, baseada em combustíveis fósseis, os mercados reagem aos ataques do Irã a instalações de petróleo e gás no Golfo e à ameaça de fechar o Estreito de Ormuz. Os preços do petróleo sobem. Os governos se preparam para a inflação. Cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo passa por esse corredor estreito, que liga os países do Golfo ao restante do planeta. Quando as tensões aumentam ali, os mercados de energia reagem imediatamente.

Mas, em um mundo em que a maior parte da energia é gerada internamente a partir de fontes renováveis, a mesma ameaça provocaria o mesmo choque global? A instabilidade no Golfo ainda levaria ao aumento do preço dos alimentos e dos combustíveis em todo o mundo? Ou as repercussões econômicas seriam muito diferentes?

Para entender o que está em jogo, primeiro precisamos observar como o sistema energético atual está estruturado.

Um sistema construído sobre gargalos estratégicos

Durante cerca de um século, a economia global dependeu de combustíveis fósseis produzidos por um número limitado de produtores no Oriente Médio. Gargalos estratégicos, como o Estreito de Ormuz, carregam um enorme peso geopolítico.

O Estreito de Ormuz é o ponto estreito entre o Golfo Pérsico e o oceano aberto (Foto: AustralianCamera/Shutterstock).

É por isso que o conflito atual entre os Estados Unidos, Israel e Irã repercute tão rapidamente nos mercados globais. Mesmo antes de qualquer interrupção prolongada no fornecimento, os preços do petróleo e do gás já dispararam diante da possibilidade de que uma grande parte dos fluxos globais possa ser bloqueada.

Como o petróleo sustenta o transporte, a agricultura e a manufatura, os picos de preço se espalham rapidamente pelas bolsas de commodities, pelas cadeias de suprimento e chegam até os orçamentos das famílias. Assim, um conflito regional pode se transformar em turbulência econômica global em questão de dias.

Agora, vamos imaginar a mesma crise em um mundo movido por energias renováveis.

Voltemos ao nosso experimento mental. Agora, imagine a mesma crise se desenrolando em um mundo em que os sistemas energéticos são movidos por fontes renováveis e eletricidade, em vez de petróleo e gás.

É a mesma semana. A mesma escalada militar. A mesma retórica sobre fechar o Estreito de Ormuz. Mas, desta vez, o sistema energético global já foi amplamente descarbonizado.

Nesse mundo alternativo, a maior parte da eletricidade global seria produzida dentro das fronteiras nacionais a partir de energia eólica, solar e outras fontes de baixo carbono. O transporte rodoviário seria predominantemente elétrico. O aquecimento dependeria de fontes renováveis disponíveis localmente, como bombas de calor, biomassa doméstica, sistemas geotérmicos ou hidrogênio verde. Todas essas são soluções já testadas e comprovadas. Não são tecnologias do futuro — e, ainda assim, hoje a economia global ainda obtém cerca de 80% de sua energia primária de combustíveis fósseis.

Nesse cenário alternativo, o que mudaria?

O choque macroeconômico imediato seria mais fraco. Uma interrupção no Estreito de Ormuz ainda teria importância. O petróleo ainda seria comercializado em alguns setores, mas não seria tão central para o uso cotidiano de energia. Os preços seriam mais baixos porque a demanda estaria em queda. A ligação automática entre instabilidade no Golfo e inflação global se enfraqueceria.

A geração de eletricidade continuaria, em grande parte protegida de interrupções no fornecimento de gás. Pessoas com carros elétricos seriam menos diretamente afetadas por um aumento no preço da gasolina. As contas domésticas permaneceriam inalteradas, já que as tarifas de energia se manteriam estáveis. Os governos estariam menos expostos a demandas repentinas por subsídios a combustíveis e a choques inflacionários.

A segurança energética passaria a depender menos do controle de rotas marítimas distantes e mais da construção de redes elétricas domésticas distribuídas e resilientes, maior capacidade de armazenamento de energia e cadeias de suprimento diversificadas.

Gargalos marítimos nas cadeias de suprimento de minerais

Isso não significa que a geopolítica da energia desapareceria. Ela se transformaria.

Os sistemas de energia renovável dependem de minerais críticos, como lítio, cobalto e os chamados elementos de terras raras, além de complexas cadeias de produção industrial para fabricar painéis solares, turbinas eólicas e baterias. Novos gargalos estratégicos poderiam surgir em centros de processamento de minerais ou em fábricas de semicondutores. Já existe, inclusive, uma competição geopolítica pelo acesso às terras raras.

Mas existem diferenças importantes. As reservas de combustíveis fósseis são geograficamente concentradas, razão pela qual o comércio global converge para um pequeno número de rotas marítimas: Estreito de Ormuz, Canal de Suez, Estreito de Malaca (entre os oceanos Índico e Pacífico), entre outras. Os mercados de petróleo e gás são altamente voláteis.

Recursos renováveis, como luz solar e vento, estão distribuídos de forma muito mais ampla. Embora as cadeias de suprimento de minerais ainda sejam desiguais — e dependam fortemente de alguns poucos produtores, como a China para terras raras, a República Democrática do Congo para cobalto e a Indonésia para níquel — elas não convergem para um único gargalo estratégico. As mudanças de preço se propagam pelos mercados de tecnologias muito mais lentamente. Além disso, é mais fácil construir reservas estratégicas.

Na nossa crise imaginada envolvendo o Irã, o poder seria mais difuso, sem que um único Estado pudesse ameaçar uma interrupção tão grande.

Como os minerais estão mais dispersos do que o petróleo e o gás — e menos concentrados em poucos lugares — reduz-se o tipo de centralização e de “captura de recursos” que historicamente caracterizou a indústria do petróleo. Hoje, os padrões globais sobre consentimento das comunidades, transparência e proteções ambientais são muito mais fortes nas cadeias de suprimento de minerais do que jamais foram no caso dos combustíveis fósseis.

Isso dá maior poder de negociação aos atores locais em um mundo movido por energias renováveis. Regiões ricas em minerais na África, América Latina e partes da Ásia ganhariam um novo tipo de influência — não apenas como fornecedoras de recursos, mas também por meio de mecanismos de consentimento comunitário e da chamada licença social para operar, que lhes permitem influenciar se determinados projetos irão ou não avançar.

Isso marca uma mudança em relação à era do petróleo, na qual o poder esteve amplamente concentrado entre Estados e empresas multinacionais de petróleo, frequentemente operando à distância das comunidades afetadas.

O dividendo geopolítico da descarbonização

A descarbonização costuma ser apresentada como uma necessidade climática. Mas ela também levará a uma redistribuição do poder geopolítico, provavelmente em direção a uma maior estabilidade.

No sistema atual baseado em combustíveis fósseis, o Estreito de Ormuz ocupa uma posição central em um sistema econômico global que vincula a estabilidade econômica mundial ao fluxo ininterrupto de petróleo — e ao poder militar que o protege. A crise atual expõe a fragilidade desse arranjo.

Realizar esse experimento mental não significa que a energia renovável eliminaria a geopolítica. Em um mundo pós-petróleo, o estreito ainda teria importância e os conflitos por recursos não desapareceriam. Mas isso sugere que o nosso sistema energético baseado em combustíveis fósseis é frágil, e que conflitos podem rapidamente repercutir em todo o planeta.

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