Apelo de Pizzaballa: "Não se esqueçam de Gaza"

Foto: Abdallah F.s. Alattar/Anadolu Ajansi

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30 Junho 2026

"Precisamos falar sobre isso, informar, não seguir tendências. Esses territórios são o centro do mundo: pertencem a nós, fazem parte de nós."

A reportagem é de Paolo Berizzi, publicada por La Repubblica, 30-06-2026.

Bergamo. Quando Lucio Caracciolo lhe pergunta como são os soldados israelenses e que tipo de diálogo existe com eles, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa arranca risos da plateia e, ao mesmo tempo, a leva a uma profunda reflexão: "Há um pouco de tudo, mas devo dizer com pesar — ​​sou religioso, bem, deveria ser um pouco religioso! — que os mais duros são os religiosos, os religiosos que lutam."

Em seguida, surge uma passagem arrepiante. O Patriarca de Jerusalém ("a diocese mais difícil do mundo") descreve, com olhar de repórter, a situação atual na Faixa de Gaza, conforme a observa durante suas viagens pelo norte. "As cidades estão arrasadas, niveladas, destruídas. Você viaja por estradas precárias, entre as tendas onde as pessoas vivem, entre os esgotos. Ninguém fala dos cheiros e dos ratos, os ratos que mordem principalmente as crianças que brincam perto dos esgotos em vez de irem para a escola. Há uma degradação que você não pode imaginar, você tem que ver."

Nas plateias e camarotes do Teatro Sociale de Bergamo, o silêncio é absoluto. No palco, em um diálogo cativante e comovente, o diretor do Prêmio Limes, Lucio Caracciolo, e Sua Eminência Pizzaballa: bergamense, 36 anos em Jerusalém. Seu nome foi amplamente cogitado no ano passado entre os potenciais candidatos às vésperas da eleição de Leão XIV. Antes de lhe conceder o Prêmio Limes de Diálogo e Paz, Caracciolo aborda o ponto crucial: o conflito israelo-palestino, os dois povos, o antes, o depois e o amanhã em que — pergunta Pizzaballa, invertendo a pergunta do entrevistador — "há necessidade de empatia com aqueles que não pensam como nós". Atento, ponderado. E, ainda assim, direto ao ponto. "O que mais se precisa agora na Faixa de Gaza são psicólogos para as crianças e seus pais. É isso que os profissionais nos pedem."

Durante a conversa de uma hora, a política é mantida a uma distância segura, apenas rondando aqui e ali. Tanto Pizzaballa quanto Caracciolo parecem concordar sobre a urgência de não demonizar nenhum dos lados. Mas, imediatamente depois, o foco muda para a destruição desumana de Gaza, a ocupação militar e os assentamentos na Cisjordânia. "Os colonos israelenses têm permissão para fazer tudo", diz o Patriarca de Jerusalém. "Eles instalam postos de controle em todos os lugares, derrubam árvores, não deixam você cultivar sua terra. Os ataques se tornaram diários. Não apenas em aldeias cristãs, mas especialmente em aldeias não cristãs. Eles chegam e atacam. Chamamos o exército, e quando o exército chega, eles já fugiram."

Inevitavelmente, começamos com o dia 7 de outubro e o que aconteceu imediatamente depois. "Houve, sem dúvida, um profundo trauma entre o povo israelense, mas as ações, os pensamentos e a linguagem que emergiram tornaram-se gradualmente muito agressivos. E, infelizmente, não são apenas de uma minoria", reflete Pizzaballa. Ele se refere à ala linha-dura do governo Netanyahu. "Eles são um movimento político messiânico; não expressam o pensamento da maioria em Israel, mas estão ganhando cada vez mais credibilidade e criando uma profunda divisão, inclusive dentro da população israelense."

E o Hamas? Caracciolo questiona o cardeal sobre as "duas" Gazas: a da superfície, destruída, e a subterrânea, com os túneis dos terroristas palestinos. "Eles certamente foram enfraquecidos, mas ainda mantêm relações com a população."

Pizzaballa fala da Autoridade Palestina. "Ela perdeu credibilidade, especialmente aos olhos dos palestinos. Não tem mais autoridade; é triste ver como e por quem esse povo, que tem o direito de viver em paz e segurança, é representado."

O Patriarca de Jerusalém chefia uma diocese que abrange quatro países e possui seis vicariatos, incluindo o católico-judaico. "Não há reunião que possa ser realizada em apenas um idioma", diz ele. " Realmente temos de tudo aqui; é um mundo." "O centro do mundo", sugere o diretor do Limes.

Pizzaballa relata sua vida nas terras mais conturbadas do planeta. "Moro na cidade velha, na Bacia Sagrada, não muito longe do Santo Sepulcro, nos becos onde cristãos e judeus se encontram com cada vez mais frequência; não era assim antes, por isso os confrontos aumentaram."

O que pode ser feito?, pergunta Caracciolo. "O que podemos fazer?" "Falem sobre isso. Informem. Não sigam tendências; os jornais falam um pouco sobre o assunto e depois param. Esses territórios (a Faixa de Gaza) nos pertencem, fazem parte de nós. Os israelenses nos perguntam: 'Mas por que vocês não falam também sobre o Sudão do Sul?' Simples. Porque não temos nenhuma relação com o Sudão do Sul!"

As palavras finais nos arrepiam. "Não devemos nos isolar, devemos dialogar, não erguer barreiras", alertou Pizzaballa. "Vocês devem nos ajudar a sair do buraco em que caímos, não nos abandonem aqui." Os acordes do Hino da Paz começam a tocar no teatro. Assim que a cortina se fecha, perguntamos ao cardeal se a Itália fez o suficiente por Gaza. Ele responde: "Não sei!"

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