25 Junho 2026
"Habermas distinguiu entre racionalidade instrumental, orientada para a eficiência dos meios, e racionalidade comunicativa, orientada para o acordo sobre objetivos comuns. A inteligência artificial distribuída por infraestruturas energeticamente e geopoliticamente assimétricas torna essa distinção ainda mais evidente. O relatório do JPMorgan alerta urgentemente que, no domínio militar, as normas estão perigosamente atrasadas em relação às capacidades."
O artigo é de Paolo Benanti, publicado por Il Sole 24 Ore, 24-06-2026.
Paolo Benanti é frade franciscano italiano, téologo e especialista em revolução digital. É reconhecido por ter sido o principal consultor do Papa Francisco sobre a ética da Inteligência Artificial (IA) e da tecnologia.
Eis o artigo.
Há um dado no último relatório do Centro de Geopolítica do JPMorgan Chase que vale mais do que uma análise de cenários: em 2025, a China terá gerado 10.707 terawatts-hora de eletricidade, mais que o dobro dos 4.670 terawatts-hora dos Estados Unidos. Aqueles que veem a competição em inteligência artificial como uma corrida entre algoritmos e benchmarks fariam bem em reler essa frase: a inteligência artificial é, antes de tudo, uma tecnologia que consome eletricidade.
A razão é simples, mas suas implicações não. Os data centers são máquinas que consomem energia de forma extraordinária: em algumas regiões, a eletricidade pode representar até 40% dos custos operacionais. O custo médio da energia nos principais polos de distribuição da China varia entre US$ 0,07 e US$ 0,09 por kWh, com as concessionárias estatais frequentemente absorvendo os picos de consumo; a média nacional dos EUA é de US$ 0,18, o dobro disso. A previsão é de que a China adicione 3,4 terawatts de capacidade até 2030, quase seis vezes o total dos EUA: é aí que reside a verdadeira diferença.
No entanto, os riscos são maiores do que uma questão de eficiência industrial. A infraestrutura nunca é neutra. A Rota da Seda Digital, um componente da Iniciativa Cinturão e Rota, já expandiu os serviços de nuvem, telecomunicações e plataformas chinesas por todo o Sudeste Asiático, África e América Latina; os downloads globais de modelos chineses e americanos atingiram a paridade em 2025. A infraestrutura precede a norma e, onde a norma chega tarde, encontra uma lógica já estabelecida que redefine silenciosamente o que é possível.
Habermas distinguiu entre racionalidade instrumental, orientada para a eficiência dos meios, e racionalidade comunicativa, orientada para o acordo sobre objetivos comuns. A inteligência artificial distribuída por infraestruturas energeticamente e geopoliticamente assimétricas torna essa distinção ainda mais evidente. O relatório do JPMorgan alerta urgentemente que, no domínio militar, as normas estão perigosamente atrasadas em relação às capacidades.
Para a Europa — e para a Itália, que é observadora e não protagonista desta competição — o que está em jogo não é tecnológico, mas político no sentido mais profundo: trata-se de compreender que a escolha não é entre sistemas de inteligência artificial americanos e chineses, mas entre duas antropologias digitais diferentes, duas formas incompatíveis de organizar a relação entre eficiência, liberdade e responsabilidade coletiva. Permanecer espectador, acreditando que a competição diz respeito a outros, já é uma forma de participação — a mais custosa. E hoje, um watt vale tanto quanto um voto.
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