Washington e a Santa Sé são mundos em colisão: é por isso que Trump às vezes revida. Artigo de Marco Politi

Donald Trump. (Foto: Joyce N. Boghosian/The White House/Flickr)

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10 Junho 2026

Além disso, Prevost – para além de sua sólida formação religiosa – é uma personalidade dotada de aguda sensibilidade política. Ademais, possui o temperamento de um estadista.

O artigo é de Marco Politi, escritor italiano e especialista em Vaticano, publicado por Il Fatto Quotidiano, 04-06-2026.

Eis o artigo.

Como a sombra em uma tragédia shakespeariana, a imagem de Leão XIV assombra o presidente Trump, que há alguns dias voltou a tuitar agressivamente: "Alguém deveria explicar ao Papa que o Irã não pode ter uma arma nuclear." Todos sabem, tanto em Roma quanto em Washington, que Leão é absolutamente contrário às armas nucleares: em Teerã e no mundo todo. Então, por quê?

Isso pode parecer uma abordagem um tanto insensata, mas a impressão seria superficial. O fato é que o presidente Maga compreendeu perfeitamente que, em poucos meses, o Papa Prevost se tornou uma voz influente no cenário internacional, defendendo uma visão radicalmente diferente da sua, uma voz que contradiz e continuará a contradizer a política de poder praticada pelo governo dos EUA.

Uma voz ainda mais alta enquanto outras permanecem em silêncio. A Rússia, porque precisa de Trump. A China, ansiosa para explorar o caos disseminado pela política americana. A União Europeia também se cala, pois — além de rejeitar a guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã — demonstra-se incapaz de desempenhar qualquer papel na promoção da paz no Oriente Médio em chamas.

Leão tem estado sob escrutínio da Casa Branca desde o início do ano, quando o pontífice declarou ao corpo diplomático que "o fervor bélico está se espalhando" e que uma nova tendência havia surgido: buscar a paz pelas armas, "como condição para a afirmação do próprio domínio". Foi nesse momento que o Subsecretário de Guerra, Elbridge Colby, de maneira bastante incomum, convocou o núncio apostólico no Vaticano, Christophe Pierre (nada menos que um cardeal), para explicar que a Santa Sé faria bem em compreender a política dos EUA.

Isso levou a um confronto direto entre Leão e Trump sobre a guerra desencadeada pelos EUA e Israel contra o Irã. O pontífice desejava pôr fim a esse conflito. No entanto, o capítulo da encíclica Magnifica Humanitas sobre o tema da guerra é antitético à era de caos e brutalidade nas relações internacionais inaugurada por Trump (e que Netanyahu está explorando no Oriente Médio para sua política de dominação).

Em termos inequívocos, Leão XIV condena a "preocupante reabilitação da guerra como instrumento da política internacional" e critica a excitação que acompanha a preparação para a guerra "através de narrativas simplistas, lógica de amizade, desinformação e medo". Um mundo está sendo criado, denuncia o pontífice, em estado de "beligerância permanente", intoxicado por visões maniqueístas que dividem o mundo entre o bem e o mal, marcado por retórica agressiva e mera política de poder. "A força do direito internacional", enfatiza o Papa, "está sendo, assim, substituída pelo alegado 'direito do mais forte'".

Mais ainda, Leão insiste na importância das regras e organizações internacionais e na necessidade de um retorno ao multilateralismo. A linguagem da encíclica impressiona pela sua extrema precisão: "A estreita ligação entre interesses econômicos, aparatos militares e decisões políticas", escreve Leão, "gera uma 'nação armada', na qual a guerra surge quase como uma extensão natural da política e o mercado de armas torna-se um fator independente que impulsiona as decisões militares."

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