A fé e a ecologia integral contra a invasão dos centros de dados de IA

Foto: Phonlamai Photo's Images/Canva

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29 Mai 2026

As habituais e pacatas reuniões municipais de Andover Township, uma pequena localidade no estado norte-americano de Nova Jersey, transformaram-se recentemente num palco de forte contestação cívica. Centenas de moradores uniram-se para travar a instalação de um centro de dados de inteligência artificial (IA), alegando que o projeto ameaçava esgotar os recursos hídricos, inflacionar as faturas de eletricidade e quebrar a tranquilidade rural com o ruído constante dos sistemas de refrigeração. O movimento resultou numa proposta de lei municipal para proibir estas infraestruturas na região.

A reportagem é de Clara Raimundo, publicada por 7 Margens, 27-05-2026.

Ao contrário do que é habitual, a resistência assumiu contornos profundamente espirituais e teológicos, segundo relata a revista America. Num dos momentos mais marcantes das assembleias que se sucederam ao longo das últimas semanas, a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, foi evocada por Sydney Hesse, uma estudante universitária. A ativista recordou que “não estamos diante de duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas sim de uma crise complexa que é ao mesmo tempo social e ambiental”.

Hesse sublinhou que o conceito de ecologia integral sustenta que o desenvolvimento desenfreado e mal regulado da tecnologia compromete diretamente a Doutrina Social da Igreja e a teologia da libertação. E que, ao monopolizarem o acesso ao ar puro, à água potável e aos espaços de silêncio, estas megaestruturas penalizam as populações mais vulneráveis. Assim, aceitar a degradação ambiental destas comunidades equivale a aceitar que os mais pobres fiquem privados de recursos vitais. Nas palavras de Hesse, “o que consideramos aceitável para os mais pobres entre nós é o que consideramos aceitável para Jesus”.

A contestação não partiu apenas de católicos, mas uniu diferentes sensibilidades religiosas, encontrando também eco nas comunidades evangélicas locais. Eric Crafton, um luterano e veterano de guerra pertencente ao grupo de intervenção Protect Andover, recorreu ao Livro dos Números para justificar a proteção da natureza: “Não contaminarás a terra em que vives… na qual eu habito” (Num 35, 34). E lembrou que, para muitos antigos combatentes que procuraram o refúgio das florestas e lagos de Sussex para curar as feridas da guerra, a destruição da paisagem natural é vista como uma profanação de um espaço onde Deus providenciou a paz. A defesa do meio ambiente assume-se, assim, como um dever sagrado de preservação da Criação.

Uma vitória inspiradora

Para lá do debate com pendor mais religioso, os moradores apresentaram outros argumentos para desmistificar as promessas corporativas de progresso económico. E assinalaram que, embora os promotores vendam estes projetos com a garantia de novos empregos, a realidade noutras regiões demonstra que os centros de dados funcionam apenas como grandes armazéns de computadores com chips dispendiosos, exigindo uma equipa técnica permanente muito reduzida.

Em contrapartida, o impacto ambiental e social é imediato e severo, enfatizaram ainda. O apetite voraz destas instalações por energia e água ameaça secar as explorações agrícolas circundantes e sobrecarregar as redes elétricas locais, fazendo disparar os custos para os cidadãos.

O exemplo de comunidades vizinhas serviu de alerta: no Condado de Fayette, o desenvolvimento destas estruturas contaminou rios outrora cristalinos, tornando a água turva e imprópria; no Condado de Loudoun, o ruído agudo e incessante dos ventiladores destruiu a saúde mental e a qualidade de vida dos residentes.

O desfecho do caso em Andover Township acabou por ditar uma vitória total da mobilização popular. O ponto de rutura ocorreu numa sessão camarária tensa, onde a polícia interveio para expulsar à força um cidadão que contestava o projeto. O incidente gerou uma onda imediata de indignação pública, forçando um recuo histórico das autoridades políticas.

Numa decisão histórica, o executivo municipal rejeitou o centro de dados projetado para o local do antigo aeroporto da região e aprovou uma lei municipal que proíbe terminantemente a instalação destas infraestruturas na localidade.

A vitória nesta pequena localidade está já a inspirar municípios vizinhos em Nova Jersey a avançar com idênticas proibições preventivas, erguendo uma barreira ética e ecológica contra a expansão desregulada da inteligência artificial. E, em futuras assembleias municipais, haverá mais uma encíclica para ajudar a sustentar – e talvez com ainda mais força – esta luta dos moradores: Magnifica Humanitas, que acaba de ser lançada pelo Papa Leão XIV.

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