28 Mai 2026
"Instalações industriais do século passado, poluição do ar, da água e do solo, emissões cancerígenas, impactos sobre a saúde das pessoas e do território: quando testemunhas das duas regiões [Piquiá, no Brasil, e Taranto, no sul da Itália] se encontram, rapidamente as histórias se entrelaçam e falam a mesma linguagem de violência socioambiental e de organização popular, entre resistência e busca de alternativas", escreve Dario Bossi, missionário comboniano, assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), particularmente no eixo Direitos Humanos, e articulador da Rede Igrejas e Mineração.
Eis o artigo.
Piquiá, no Brasil, e Taranto, no sul da Itália, estão separadas por cerca de 8 mil quilômetros em linha reta. Ainda assim, apresentam muitas afinidades: sofrem os mesmos impactos socioambientais e são territórios de resistência e de busca persistente por alternativas a uma “economia que mata”, como a definia o Papa Francisco.
O bairro periférico do estado do Maranhão é atravessado por uma ferrovia tão longa quanto a Itália, que liga a maior mina a céu aberto do mundo, no coração da Amazônia, ao porto oceânico de São Luís. Dali partem navios carregados de minério de ferro, alguns dos quais atracavam, a cada três semanas, no porto de Taranto, para abastecer as siderúrgicas da empresa Ilva. Também em Piquiá se instalaram empresas siderúrgicas ligadas à multinacional Vale S.A., responsável pela construção de toda a infraestrutura de extração e comércio do minério de ferro.
Instalações industriais do século passado, poluição do ar, da água e do solo, emissões cancerígenas, impactos sobre a saúde das pessoas e do território: quando testemunhas das duas regiões se encontram, rapidamente as histórias se entrelaçam e falam a mesma linguagem de violência socioambiental e de organização popular, entre resistência e busca de alternativas. O mais recente desses encontros aconteceu no final de maio de 2026, em uma praça pública de Taranto; em outras ocasiões, membros das duas comunidades já haviam realizado atividades de intercâmbio no bairro Tamburi e na capital do Maranhão. Um documentário narra os cruzamentos entre essas duas histórias, marcadas pela mesma condenação: são zonas de sacrifício que deveriam garantir o progresso econômico, mas que sofrem quase exclusivamente suas contradições.
Desde os anos 2000, desenvolveu-se em Taranto um movimento de protesto marcado por fases alternadas, atravessado pela chantagem do emprego e pelo drama imposto pela empresa e pelo Estado à população: escolher entre o direito à saúde e o direito ao trabalho e à sobrevivência.
Ainda assim, a sociedade civil tarantina conseguiu levar às ruas até vinte mil pessoas em uma única manifestação. Depois daquele período, nasceu, em 2017, a associação político-cultural Giustizia per Taranto. Foi com eles que nos encontramos, como missionários comprometidos com a defesa da vida, no Brasil e na Itália.
Também em Piquiá, a resistência e as iniciativas da comunidade local seguem ativas há mais de vinte anos: a estratégia desgastante das instituições e do capital industrial tenta sufocar a esperança, impor obstáculos, esconder informações e enfraquecer a mobilização organizada. Ainda assim, a perseverança dos pequenos não desiste, frequentemente alimentada por uma espiritualidade que se traduz em amor concreto pelo próprio território.
As contradições em Taranto tornam-se cada vez mais evidentes. Apesar de notificações do Ministério Público e de uma sentença judicial, com sequestro e confisco de instalações incompatíveis com a saúde pública, sucederam-se decretos governamentais e leis para “salvar” a Ilva (hoje Acciaierie d’Italia), considerada um sítio de interesse estratégico nacional. Os governos sucessivos garantiram blindagem penal aos gestores da siderúrgica e concederam empréstimos bilionários para sustentar a produção. Também foi tentada uma improvável experiência de cooperação público-privada, com a cessão de mais de 60% da empresa ao gigante franco-indiano ArcelorMittal. A associação Giustizia per Taranto considera que a intervenção privada “espremeu a empresa e deixou escombros”. Resultado: desde 2021, o Estado voltou a assumir a propriedade integral.
Enquanto isso, a cidade mudou. Durante anos esmagada pela “monocultura do aço”, que sufocava qualquer alternativa econômica, Taranto passou gradualmente a se distanciar da Acciaierie d’Italia. As evidências se multiplicam, tanto no plano sanitário quanto no ocupacional. A fábrica gera uma dívida de cerca de 50 milhões de euros por mês; dos 7 mil trabalhadores formalmente empregados, aproximadamente 4 mil estão há anos em regime de suspensão parcial do trabalho subsidiada pelo Estado.
Para ser competitiva, a antiga Ilva deveria produzir ao menos 6 milhões de toneladas de aço por ano, mas não consegue sequer alcançar a marca de 2 milhões. As instalações estão deterioradas; desabamentos, acidentes e condições de insegurança são frequentes. Desde janeiro, três pessoas morreram no trabalho, onze nos últimos anos. A Giustizia per Taranto as define como “mortes de Estado”, acrescentando: “A empresa nos mata do ponto de vista da saúde e da economia”.
A fábrica é descrita como um paciente terminal, mantido artificialmente vivo em uma espécie de obstinação terapêutica político-industrial. Mas por que a Acciaierie d’Italia continua sendo mantida artificialmente em funcionamento?
Nossos interlocutores indicam três possíveis razões. Os bancos teriam investido cerca de 1,5 bilhão de euros e pressionariam para recuperar esses recursos sem perdas — ainda que existam garantias estatais para cobrir esses empréstimos. Razões de imagem política desencorajariam qualquer governo a optar pela solução drástica do fechamento, sobretudo na ausência de um plano estratégico de reconversão e diversificação econômica. Além disso, na atual economia de guerra, pode ser considerado estratégico manter o “ativo bélico” e não desmontar a única estrutura europeia de siderurgia de ciclo integral, do minério de ferro ao aço.
Em oposição a essas lógicas, a Giustizia per Taranto exige o fechamento imediato das instalações. Há tempos elaborou um “Plano para Taranto”, inspirado também em um estudo da Confindustria de 2016, que destacava as oportunidades econômicas de investimentos na recuperação ambiental dos chamados Sítios de Interesse Nacional (SIN). Os ativistas de Taranto sintetizam aquele estudo afirmando que, diante de um investimento de 5 bilhões de euros, seria possível recuperar ao menos metade desse valor em termos fiscais, gerar um número de empregos três vezes superior ao das indústrias poluentes e criar um forte impulso de benefícios econômicos de médio e longo prazo, além de garantir segurança ambiental e sanitária.
A reconversão é possível e urgente, como demonstrou a experiência das empresas alemãs na região do Ruhr, há vinte anos. A Giustizia per Taranto estudou esse caso e o propõe como modelo, também por meio de um interessante documentário.
Taranto, assim como outros Sítios de Interesse Nacional, recebe recursos europeus do Just Transition Fund, atualmente investidos no desenvolvimento do cinturão verde e na recuperação da mitilicultura no Mar Piccolo. Existem ainda outros fundos voltados para a requalificação dos trabalhadores e para as descontaminações ambientais, estes últimos até agora utilizados sobretudo nas áreas militares da região. Portanto, é possível regenerar a economia da cidade, desvinculando-a do modelo único e já fracassado da Acciaierie d’Italia.
Essas novas perspectivas vêm sendo aprofundadas e debatidas há tempos em um processo de articulação política e intercâmbio denominado “Desarmar a economia, pela conversão ecológica integral”. Trata-se de uma reflexão que também está emergindo em outras áreas do país: do Lácio, com as experiências de Colleferro e do Vale do Sacco, à Sardenha, particularmente no Sulcis-Iglesiente, até a persistente e criativa organização das Mães No PFAS, no Vêneto. No centro desse debate está a necessidade de requalificar a economia e redefinir o próprio conceito de segurança, orientando-o para a proteção integral dos territórios e das comunidades.
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