29 Mai 2026
Jesús Bel (Zaragoza, 1964) leva toda a sua vida adulta dentro de uma prisão. Mas não como delinquente, e sim como pároco. É membro da Ordem Mercedária, que se dedica aos cativos e, desde que se ordenou sacerdote, dedicou seu tempo aos presos. A ponto de morar em um apartamento onde acolhem presos em permissão penitenciária, compartilhando teto, mesa e conversas com eles — sejam católicos ou não.
Já passou por cárceres de Lleida e de Valência. Foi também o pároco de La Modelo quando fecharam. Mas isso foi logo quando voltou da Venezuela, onde passou 24 anos na prisão de Maracaibo, considerada uma das mais perigosas da América Latina. "Quando voltei à Espanha, me parecia uma república universitária", brinca o padre Bel. Há décadas disso e agora é o referente espiritual da prisão de Can Brians, que se tornou notícia por ser o centro penitenciário que o Papa Leão XIV escolheu visitar durante sua estância na Espanha. Bel está "nas nuvens" e quer aproveitar a chegada do pontífice para derrubar preconceitos e evidenciar as carências de um sistema que, diz, não serve para prevenir a delinquência.
A entrevista é de Sandra Vicente, publicada por elDiario.es, 26-05-2026.
Eis a entrevista.
O que faz um padre na prisão?
É o encarregado de toda ação da Igreja e de atender o preso que o solicite. Mas não nos fechamos a entrar em uma conversa com qualquer um, seja crente ou não.
Do que fala com os presos?
A prisão rompe muito. Estou em uma prisão de preventivos, de gente que está à espera de um julgamento e que tem muito medo. São pessoas que pensavam que dominavam o mundo. E, de repente, vão presas e o mundo se acaba. Têm uma vulnerabilidade muito profunda e muita necessidade de contar com alguém que escute sem julgar.
Há muitos crentes na prisão?
Muitos, a verdade. Mais do que na rua. As porcentagens de assistência às missas são mais altas entre a população presa. Quando tudo desmorona, a tendência é olhar para cima e começam a surgir interesses que antes não tinham porque estavam metidos em outras coisas.
Os presos tendem a se sentir abandonados por Deus?
Há muitas pessoas que, para pedir ajuda, precisam se chocar muitas vezes e muito profundamente. Quando tudo desmorona, o primeiro que aflora é a rebeldia, porque os seres humanos temos a tendência de buscar culpados fora de nós. E o culpado que mais aguenta é o de cima. "Se Deus me quisesse, eu não estaria aqui". Bom, talvez você tenha algo a ver com estar aqui, não? Mas a prisão coloca todo mundo em seu lugar, às vezes de uma maneira demasiado dura, e as pessoas acabam refletindo. Muitos que haviam renegado acabam na missa.
A fé aguenta um processo penitenciário?
É ela que o torna suportável. A fé é o alimento da esperança e, se a esperança se perde, já não resta nada. Mas não falo só da fé em Deus, mas também em si mesmo e nas próprias possibilidades. Os crentes dizemos que a razão pela qual alguém que caiu no mais fundo pode voltar a crer em si mesmo é porque sabe que Deus ainda crê nele.
E os que não creem?
Também precisam de fé. Quem crê, a tem focada de maneira mais clara e direta, mas quem não crê em nada ainda pode crer em si mesmo. A fé não é exclusiva do cristianismo; é algo fundamental para não se abandonar.
Em menos de um mês terão a visita do Papa. Como recebeu a notícia?
Estamos como nas nuvens, felizes porque o fato de o Papa vir fará que o mundo olhe para a realidade da prisão e para essas pessoas que estão à margem, das quais nunca ninguém se lembra. E, quando se lembram, nunca é para desejar-lhes o melhor. Ele as tornará visíveis e isso lhes deu uma dose de alegria. Lhes transborda saber que estão no coração do Papa. E a nós também: estamos preparando da melhor forma que sabemos e podemos.
Que mensagem espera que o Papa possa lançar ao mundo para mudar a visão que a sociedade tem sobre os presos e as prisões?
A pastoral penitenciária nunca justificará o delito porque é mau e ponto. Agora bem, quando se conhecem as histórias dos presos, a ausência de carinho, de família e raízes, e os maus-tratos que sofreram... Insisto, o delito não se justifica, mas se entende por que foram pelo mau caminho. Delinquir nunca é a solução, mas não sei o que eu teria feito na situação deles. Embora isso não se aplique a todos os presos nem a todos os delitos, há os que são mais vítimas do que delinquentes. Na prisão cabe todo mundo, mas nem todos os problemas deveriam ser tratados na prisão.
Diz, portanto, que a prisão não é a melhor maneira de pagar por um delito?
Não. A pastoral penitenciária leva 40 anos defendendo a justiça restaurativa, porque nem a prisão nem a justiça punitiva servem para resolver nada. Só castigam o delito; levam alguém à prisão por algo que fez, mas não resolvem o porquê o fez. As pessoas não melhoram com castigos e repressões. As vidas destroçadas podem ser restauradas, mas só com aquilo que não tiveram: amor e compreensão. O Evangelho diz que o mal só pode ser vencido com o bem. Se o ataca com mal, o mal crescerá.
Os presos catalães levam anos denunciando más condições e maus-tratos nas prisões. O que lhe contam?
O controle se consegue com disciplina, que pode ser maior ou menor. E há internos que a toleram mais do que outros. O regulamento penitenciário está muito bem para que tudo funcione perfeitamente, mas não para permitir que ninguém pense que as coisas poderiam ser de outra forma. O preso entra em uma maquinaria que o molda ao estilo da prisão. Por isso, quando se sai, tudo o que se trabalhou para a reabilitação não dá o fruto esperado.
O que mudaria na prisão?
Faria que olhasse mais para fora. A prisão não resolve o problema nem o evita. Simplesmente serve para isolar uma pessoa que cometeu um delito e ficar tranquilos por um tempo. Mas depois vai sair e não sabemos se melhor ou pior. A justiça punitiva não resolve. A restaurativa, por outro lado, estuda por que alguém chegou ao ponto de delinquir e busca resolver o problema na origem, não suas consequências.
Houve queixas dos presos relativas a maus-tratos nas prisões?
A disciplina não agrada a ninguém e é verdade que pode ser um pouco forte em determinados momentos. Em todas as prisões há problemas e abusos que não se podem controlar porque o preso terá que demonstrar suas acusações e é muito difícil demonstrar nada na prisão. Em qualquer caso, os internos se queixam de tudo: da comida, do trato, do advogado que não os visita ou de que há muitos internos para cada profissional. O que falta, sobretudo, são profissionais. Quando a custódia se faz com falta de pessoal, às vezes, tende-se a evitar situações de colapso com técnicas que podem levar a certo maltrato.
O que é mais difícil de conseguir, o perdão da sociedade ou o perdão de Deus?
O perdão de Deus é instantâneo. A resposta de Deus ao pecado — e o delito é pecado — é o perdão. O perdão da sociedade é outra coisa. Mas, no final, o que custa mais de conseguir é o perdão de si mesmo. A sociedade condena muito facilmente, por isso os sistemas penitenciários restritivos são os que têm mais sucesso. A sociedade tende a rejeitar o delinquente, mas a pessoa é muito mais do que o delito que cometeu.
O pecado tem graduações?
Naturalmente. Jamais será o mesmo o roubo por avareza que o motivado por necessidade. De fato, São Tomás diz que, em caso de necessidade, todos os bens são comuns. Por isso, o roubo por necessidade é um pecado mínimo ao lado do motivado pela avareza, que é um dos pecados arrasadores: quem o sofre nunca tem suficientes posses, poder e prazer. E se mete em uma espiral que leva a toda classe de delitos.
Acredita na reinserção?
Há pessoas que você sabe, desde o momento em que cruzam a porta, que reincidirão porque o contexto que as levou a delinquir não se quebrou. Continuam sendo o que eram. Precisa-se de muito apoio e compreensão para se reinserir. Mas o sistema nem sempre colabora. Quando existia o subsídio de saída da prisão, este não se recebia até três ou quatro meses depois de sair. Por quê? Porque não se podia tramitar até que o preso deixasse de depender da prisão. E claro, até que se formalizava, eram meses sem ajuda para comer, dormir ou vestir. E muita gente voltou a roubar. Não se pode abrir as portas da prisão e jogar alguém na realidade sem mais nada.
Há muitos preconceitos relacionando migração e delinquência.
Não há nenhuma relação entre uma coisa e outra. E é muito injusto que se meta todos os migrantes no mesmo saco. Claro que haverá alguns que não aproveitaram bem sua estância e cometem delitos, mas não são nem de longe a maioria. Creio que deveria haver um pouco mais de cultura de acolhida, porque não vêm para nos estragar a vida, mas fugindo de situações extremas. A Espanha também teve que migrar uma vez para buscar um futuro.
Muitas pessoas erguem a bandeira do catolicismo para justificar discursos de exclusão. Como pároco, o que pensa dessa instrumentalização da religião?
Estão enganados. O Evangelho fala de acolhida, não de exclusão. Há um texto específico, o Evangelho de São Mateus capítulo 25, que fala do Juízo Final. As perguntas desse exame estão lá e diz que, quando chegar o fim dos tempos, Deus separará o rebanho e a uns dirá: "Vinde, benditos, porque tive fome e me destes de comer. E tive sede e me destes de beber. E estive doente e me visitastes. Estive na prisão e viestes ver-me. E era estrangeiro e me acolhestes." Se um cristão leu isso, não pode apontar e criminalizar um estrangeiro. Que Evangelho lê quem rejeita o imigrante? Vão ter que me explicar.
Acha que os líderes da extrema-direita católica seriam reprovados no exame do Juízo Final?
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