20 Mai 2026
O líder russo precisa demonstrar que é um aliado do homem mais poderoso do mundo.
"Putin não está bem. Isso fica evidente quando Xi disse a Trump que ele se arrependerá de ter invadido a Ucrânia. É a primeira vez que o presidente chinês diz algo assim: ele não está satisfeito com o rumo das coisas." Ian Bremmer é um analista de risco global e fundador do think tank Eurasia Group, um dos mais influentes em Washington.
A entrevista é de Anna Lombardi, publicada por La Repubblica, 20-05-2026.
Eis a entrevista.
Essa declaração, divulgada pelo Financial Times, foi negada por Pequim e por Trump. Você acha que é verdade?
"Sim, alguém que estava lá confirmou isso para mim. A impaciência da China é compreensível: a guerra na Ucrânia, imensamente destrutiva, já dura tempo demais. Hoje, a Europa é profundamente anti-Rússia. E muitos países do Leste Europeu, antes próximos da China, agora estão irritados com o apoio chinês a Moscou."
Por que Putin irá à China depois da visita de Trump?
Após o desfile do Dia da Vitória, onde quase nenhum líder compareceu, ele quer ser visto ao lado do homem mais poderoso do mundo, alegando amizade e aliança. Isso o ajuda a se projetar como um homem melhor, mas o relacionamento entre eles agora está desequilibrado. É Putin quem precisa de Xi, e não o contrário.
Então, o que a China ganha com isso?
"Não muito. Está se afastando do petróleo, gás e combustíveis fósseis, e suas vantagens tecnológicas fizeram de Moscou o parceiro minoritário em uma relação que não é isenta de tensões. O crescente domínio econômico da China e a reaproximação de Putin com a Coreia do Norte também são fatores."
O que leva líderes em dificuldades a buscar a amizade de Pequim?
A China é mais importante hoje do que era no passado. De fato, não apenas Trump e Putin foram a Pequim, mas também o primeiro-ministro canadense Carney, o primeiro-ministro indiano Modi e vários líderes europeus, incluindo os da França e da Alemanha: eles acreditam que não podem mais confiar nos Estados Unidos. A China os recebe de braços abertos porque deseja manter boas relações com todos e tem condições para isso. Sua ascensão econômica e tecnológica é evidente, assim como a dependência de outros países em relação às suas terras raras e às suas cadeias comerciais.
Por que ele chama Xi de o líder mais poderoso?
Por não ter eleições e, portanto, não ter limite de mandatos, a China pode pensar e investir a longo prazo. O país mais poderoso, no entanto, continua sendo os Estados Unidos. A China não possui moeda de reserva global, nem um exército global, nem um estado de direito. E não goza de confiança ilimitada.
Trump quer ter boas relações tanto com Xi quanto com Putin. Será que ele vai conseguir?
Muitos na administração e no Congresso consideram a China o principal adversário dos Estados Unidos e ficaram descontentes com os comentários de Trump sobre Taiwan no final da cúpula. O mesmo se aplica à Rússia: alguns desaprovam a pressão do presidente sobre a Ucrânia. E gostariam de um maior alinhamento com a União Europeia e a OTAN.
A Rússia realmente saiu enfraquecida da guerra na Ucrânia?
"Sim. A decisão de invadir a Ucrânia foi o maior erro de qualquer líder do pós-Guerra Fria. Pior até do que a decisão de Trump de entrar em guerra com o Irã."
Qual o impacto da guerra no Irã em Moscou?
"Acreditava-se que os russos se beneficiariam do envolvimento americano em outras áreas. Em vez disso, Zelensky está fornecendo tecnologia, inteligência e apoio operacional aos países do Golfo que precisam se defender de drones. De repente, a Ucrânia tem novas cartas na manga, graças ao Irã."
A Europa e os EUA estão pedindo a Pequim que pressione Putin a negociar a paz. Isso vai acontecer?
"Não. Pequim quer o fim da guerra, mas não a ponto de comprometer as relações com Putin."
O que resultará deste encontro?
Os dois discutirão uma ordem global multipolar para contrabalançar a ordem global liderada pelos EUA. Concordam em estratégias amplas e políticas de longo alcance. Há menos divergências em outras questões, devido à assimetria.
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