29 Agosto 2025
"Putin, Erdogan, Orbán e Netanyahu estão no poder há décadas. Levaram muitos anos para se tornarem os líderes autoritários que são hoje. O que aconteceu nesses países ao longo de muito tempo está acontecendo nos Estados Unidos em poucos meses", escreve Nathalie Tocci, diretora do Instituto de Assuntos Internacionais, na Itália, professora honorária da Universidade de Tübingen, em artigo publicado por La Stampa, 28-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Os Estados Unidos estão deslizando para uma ditadura? Ditadura é uma palavra forte e ainda prematura.
A Rússia de Vladimir Putin é uma ditadura, assim como a Coreia do Norte de Kim Jong Un. Por outro lado, Estados inquestionavelmente autoritários como a China ou o Irã, que manifestam um articulado sistema de poder e não uma estrutura vertical que começa e termina com um único homem no comando (porque é sempre de homens que se trata), não podem ser rotulados de ditaduras; sem mencionar países como a Turquia de Recep Tayyip Erdogan, a Hungria de Viktor Orbán ou Israel de Benjamin Netanyahu.
Autoritários, sim, e cada vez mais, mas ditaduras ainda não. E se Turquia, Hungria ou Israel não o são, os Estados Unidos de Donald Trump certamente não o são. Mas é tão verdade que os Estados Unidos não são uma ditadura quanto é verdade o fato que se direcionaram para o caminho do autoritarismo. Pouco mais de meio ano se passou desde o início da segunda presidência de Trump, e já é difícil definir os EUA como uma democracia liberal.
Uma democracia liberal se identifica por eleições livres, e nesse ponto os Estados Unidos continuam a ter o selo azul. Eles poderiam perdê-lo no futuro: basta considerar a determinação de Trump de eliminar o voto por correspondência, o que em um país grande e federal como os Estados Unidos equivaleria a uma restrição significativa do direito ao voto. Um dos pontos mais baixos do encontro entre Trump e Putin no Alasca foi justamente quando o presidente estadunidense, protestando contra o voto por correspondência, se gabou em uma entrevista à Fox News de que o ditador Putin pensava da mesma forma.
Igualmente preocupante é o redesenho dos distritos eleitorais no Texas para favorecer candidatos republicanos, levando a Califórnia, governada pelos democratas, a fazer o mesmo para neutralizar o desequilíbrio em favor do Partido Republicano. Mas, se as eleições livres são uma condição necessária para a democracia, não são suficientes. Além disso, eleições mais ou menos livres são realizadas regularmente na Turquia, Irã, Israel e Hungria.
Direitos e liberdades, estado de direito e a separação de poderes são igualmente, se não mais, importantes. E em todos esses aspectos, os EUA de Trump estão acelerando em direção ao autoritarismo.
Em relação a isso, os últimos meses viram o uso da Guarda Nacional contra cidadãos na Califórnia. Agora, Trump ameaça fazer o mesmo em Chicago. Houve prisões e deportações em massa, começando com o caso de Kilmar Ábrego Garcia, um salvadorenho que vivia legalmente nos Estados Unidos há anos, injustamente deportado para El Salvador e agora, ao retornar, preso novamente sem provas. Estudantes foram presos e tiveram seus vistos de estudante revogados por expressarem opiniões contrastantes com aquelas do governo, como no caso de Mohammed Kalili por suas críticas a Israel.
As liberdades acadêmicas estão sob cerco, com a cruzada de Trump contra as universidades da Ivy League. E enquanto algumas, começando por Harvard, tentam enfrentar o governo, outras, como a Columbia, aceitaram ingerências sem precedentes para evitar a perda de centenas de milhões em financiamentos federais para a pesquisa. As mídias também estão sob ataque, mais recentemente a ABC e a NBC. Jornalistas e mídia estão cada vez mais propensos à autocensura desde que Jeff Bezos, mesmo antes da eleição de Trump, negou ao Washington Post, de sua propriedade, a oportunidade de apoiar Kamala Harris, por medo de criar inimizade com o provável futuro presidente.
Finalmente, há o ataque frontal ao estado de direito e à separação dos poderes. E é talvez aqui que a transformação dos Estados Unidos em direção ao autoritarismo seja mais radical. Em seis meses, Trump intimidou os escritórios de advocacia que representavam seus opositores ou entraram com ações judiciais contra suas políticas. Nos primeiros meses de seu governo, sob o falso pretexto de eficiência e cortes de gastos, e pelas mãos do ex-apoiador Elon Musk, Trump aboliu ou esvaziou as agências que considerava estruturalmente críticas para suas políticas, começando pela USAID, a Agência de Proteção Ambiental e o Ministério da Educação.
Agora, o alvo favorito se tornou o banco central, o Federal Reserve, que se obstina em manter sua independência. Trump ainda não tomou a medida decisiva de remover o governador Jay Powell, certamente não por reverência à democracia, mas por medo da reação dos mercados, os mesmos que na guerra tarifária já os forçaram a moderar seus instintos mais radicais. Mas ele deu passos nessa direção, com a demissão de Lisa Cook, membro do Conselho de Governadores do Fed. A demissão de Cook segue um roteiro já familiar. Sempre que um funcionário público declara ou publica fatos ou opiniões que contrastam com as supostas verdades do governo, esses indivíduos são brutalmente removidos. Esse também foi o caso da diretora do Departamento de Estatísticas do Trabalho, Erika McEntarfer, que foi demitida após a publicação de um relatório com dados preocupantes sobre a economia estadunidense.
Trump, além disso, defende a teoria unitária do executivo, ou seja, que o poder executivo deve residir exclusivamente na presidência. O crescente poder da Agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira (IMI), que se reporta diretamente ao presidente e parece operar de acordo com regras opacas, vai na mesma direção.
Um executivo unitário não é equivalente a uma ditadura, mas a intenção é essa, e o caminho parece traçado. E o que torna a jornada dos Estados Unidos rumo ao autoritarismo ainda mais inquietante é sua velocidade.
Putin, Erdogan, Orbán e Netanyahu estão no poder há décadas. Levaram muitos anos para se tornarem os líderes autoritários que são hoje. O que aconteceu nesses países ao longo de muito tempo está acontecendo nos Estados Unidos em poucos meses. E não há superpotências ou organizações supranacionais com o poder de deter a deriva autoritária de Washington. No entanto, inerente a essa velocidade existe uma esperança. As mudanças lentas são mais difíceis de decifrar e, portanto, mais difíceis de frear e obstaculizar. Mudanças rápidas e radicais são óbvias e tendem a provocar uma reação. Em termos de mercado, essa reação ainda luta para chegar aos Estados Unidos, mas a esperança é que logo se faça sentir. Uma coisa é certa: se não chegar, a democracia nos Estados Unidos já estará morta.
Simplesmente não teremos nos dado conta.

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