A insegurança alimentar aumenta com a guerra. Artigo de Fernando Valladares e Marta Rivera Ferre

Foto: Anadolu Ajansi

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07 Mai 2026

Retirar da agricultura sua função primordial de alimentar a humanidade pode ter consequências não intencionais. A batalha está sendo travada entre tratar os alimentos como uma mercadoria ou como uma questão de direitos humanos.

O artigo é de Fernando Valladares e Marta Rivera Ferre, publicado por Ctxt, 05-06-2026.

Fernando Valladares é professor de pesquisa no CSIC, Madrid, Espanha.

Marta Rivera Ferre é professora de Investigação no Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha.

Eis o artigo.

A crise alimentar global não reside na escassez de calorias, mas na arquitetura falha de um sistema que confunde o ato de nutrir com a mera lógica de mercado. Christoph Müller argumenta que, embora a insegurança alimentar seja um subproduto de sistemas políticos e econômicos disfuncionais, nos quais o acesso aos alimentos depende do poder aquisitivo em vez da disponibilidade real, a pesquisa agrícola caiu na armadilha produtivista de aumentar a produção de alimentos. Isso permitiu que a fome fosse usada como escudo moral em escala global, burlando regulamentações ambientais e evitando a necessária redistribuição de renda. Segundo Müller, exigir que a agricultura resolva a fome sem abordar os problemas socioeconômicos subjacentes desviou a atenção científica de desafios críticos de sustentabilidade. Portanto, dada a incapacidade da agricultura de acabar com a fome, Christoph Müller lança um desafio: libertar a agricultura de seu mandato histórico de segurança alimentar para que o setor possa finalmente enfrentar a emergência climática e a conservação da biodiversidade sem o fardo de produzir alimentos artificialmente baratos. A proposta é transferir a responsabilidade pela segurança alimentar para os sistemas de proteção social e as políticas de renda, permitindo que o mercado reflita os custos reais de produção e possibilitando que a ciência se concentre na integridade ambiental e no bem-estar dos agricultores.

Mas a ciência também faz um alerta contundente, apontando que o problema não é a obrigação da agricultura de alimentar a população, mas sim a narrativa econômica que a sequestrou. Há consenso de que o paradigma produtivista é uma armadilha perigosa, mas privar a agricultura de sua função primordial de alimentar as pessoas pode ter consequências indesejadas para a humanidade. A verdadeira batalha se trava entre uma visão da comida como mera mercadoria destinada ao crescimento econômico e uma perspectiva baseada nos direitos humanos que prioriza a nutrição, a saúde e a adequação cultural. É necessário focar na agricultura industrial. É a agricultura industrial que precisa ser libertada da obrigação de segurança alimentar que nunca foi verdadeiramente concebida para cumprir, visto que seu objetivo final é a produção de bens para mercados internacionalmente competitivos, e não a garantia do direito humano à alimentação.

A proposta social, justa e humanitária implica uma mudança radical nas métricas, que responde a uma abordagem baseada em direitos e onde a eficiência não é medida exclusivamente em quilogramas por hectare, mas, por exemplo, no número de pessoas alimentadas por unidade de área, abrangendo a complexidade das policulturas e o conhecimento dos pequenos produtores. Enquanto Müller propõe separar a produção da justiça distributiva para salvaguardar a integridade do planeta, a proposta holística e humanista não pode deixar de enfatizar que a segurança alimentar só será alcançada pela democratização do sistema alimentar e pelo reconhecimento do direito humano à alimentação acima de qualquer lógica de mercado.

Assim, constatamos, por exemplo, como os Estados Unidos, o atual exemplo máximo de manipulação da ciência e dos direitos humanos, vivenciam um momento de colapso sistêmico, no qual o direito mais básico de seus cidadãos foi transformado em refém de uma política fiscal abusiva e da estratégia de confronto do governo Donald Trump. A paralisação governamental mais longa da história, em 2025, deixou de ser uma simples paralisia burocrática e se tornou um experimento de privação que afeta diretamente 42 milhões de pessoas na terra da democracia. O que historicamente se entendia como segurança alimentar, pilar que deveria garantir que nenhum habitante passasse fome por razões econômicas, está sendo desmantelado sob uma lógica que trata a nutrição não como um direito humano fundamental, mas como uma mercadoria de mercado sujeita à discricionariedade de economias estratégicas e liquidez financeira. O governo Donald Trump decidiu ignorar as ordens judiciais que exigiam a reativação imediata do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP), argumentando que o país precisa conservar recursos diante de possíveis conflitos armados ou futuras catástrofes. Essa posição rompe com o consenso social sobre a rede de proteção social do Estado e redefine a ajuda alimentar como uma concessão excessiva ou um luxo que o tesouro público não deveria conceder sem severas restrições.

No cerne desta crise reside uma visão governamental que prioriza a acumulação de recursos estatais e a solvência econômica em detrimento do bem-estar da população, prejudicando os mais vulneráveis. Enquanto tribunais federais alertam para os reais prejuízos causados ​​às famílias que dependem de uma média de US$ 187 por mês para sobreviver, o Poder Executivo responde com constantes apelos e retórica que questionam a real necessidade dos beneficiários.

A Casa Branca argumenta que o número de pessoas que recebem assistência aumentou injustificadamente e que o programa deveria ser limitado exclusivamente a casos de extrema miséria, apesar dos dados oficiais demonstrarem que o volume de auxílio tem sido massivo e consistente nos anos anteriores. A estratégia de pressionar a oposição legislativa utiliza o acesso à alimentação para um em cada oito americanos como ferramenta de negociação econômica, priorizando a manutenção da liquidez estatal em detrimento do cumprimento de obrigações sociais básicas. Essa manobra não só impacta a nutrição de milhões de pessoas que vivem na pobreza, como também degrada o funcionamento estrutural do país, causando crises em setores críticos como o transporte aéreo, devido à exaustão e ao estresse dos trabalhadores que não recebem mais seus salários. Dessa forma, o governo transformou a segurança alimentar em uma variável para ajustes e estratégias econômicas, desafiando a autoridade judicial para impor uma visão em que a alimentação é uma despesa administrável e não um direito inegociável do cidadão. É um exemplo real e dramático das consequências de se encarar a comida como uma mercadoria.

Na sequência da insegurança alimentar nos EUA, e sob o pretexto da necessidade de liquidez para financiar a guerra, esta foi iniciada. Desta vez, tratou-se de uma intervenção armada unilateral dos EUA, juntamente com Israel, no Irã. Hoje sabemos que o conflito desencadeado no Irã deixou de ser uma disputa regional e tornou-se uma ameaça direta à segurança alimentar mundial. Os principais representantes do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e do Programa Mundial de Alimentos emitiram um alerta contundente sobre como esta guerra levará inevitavelmente à disparada dos preços das commodities e a uma crise global de insegurança alimentar. Este choque resulta de uma das maiores perturbações nos mercados de energia da história moderna, onde o preço do petróleo subiu até cinquenta por cento desde o início das hostilidades. O cerne do problema reside no Estreito de Ormuz, uma via navegável vital onde o fechamento parcial imposto por Teerã em resposta à agressão deixou milhares de navios retidos e está sufocando o fluxo de hidrocarbonetos essenciais.

Os impactos do conflito atingiram os fertilizantes sintéticos com particular intensidade. Na primeira semana da guerra, o preço da ureia, o fertilizante inorgânico mais utilizado no mundo, disparou 20%, dada a sua dependência crítica do gás natural. Com a duplicação dos preços do gás na Europa e os ataques com drones a instalações estratégicas no Catar, o fornecimento global de fertilizantes sintéticos está sob extrema pressão. Esta situação é especialmente crítica para países com um modelo agrícola industrializado dependente de importações, como a Espanha, onde a maior parte da ureia utilizada tem de ser importada, ficando à mercê da volatilidade internacional e da disponibilidade de fornecedores no Norte de África e na Rússia.

Embora o impacto total ainda não seja sentido nas prateleiras dos supermercados, o setor agrícola já alerta que as monoculturas com alta demanda por fertilizantes, como cereais e girassóis, em breve repassarão esses custos para o produto e, caso nenhuma medida seja tomada para evitar isso, para o preço final. Isso poderá se traduzir em aumentos drásticos nos preços de produtos básicos como pão, macarrão e óleo. O fardo mais pesado desta crise recairá sobre as populações mais vulneráveis ​​e as economias de baixa renda, que já enfrentam dívidas elevadas e espaço fiscal limitado. Olhando para crises passadas, o cenário futuro é preocupante, pois, se a crise se prolongar, os grandes exportadores poderão limitar suas vendas para proteger suas reservas, o que faria os preços dispararem em questão de dias e confirmaria que a guerra no Irã também está semeando fome muito além de suas fronteiras.

É inegável que a pesquisa agrícola atual é enviesada por perspectivas produtivistas, presa a uma visão economicista da insegurança alimentar que equipara a fome principalmente à falta de alimentos (apesar de, por exemplo, um terço da produção ser perdida ou desperdiçada), e que uma mudança nas prioridades de financiamento, nas métricas de avaliação e nos mandatos políticos é necessária para garantir a sustentabilidade a longo prazo. Embora Müller e outros busquem legitimamente separar a produção agrícola da responsabilidade social pela fome, uma abordagem complexa para o problema propõe a reintegração da agricultura em uma estrutura de direitos sociais e ecológicos, o que implica um questionamento radical do funcionamento do sistema agrícola, passando de um modelo industrial para um agroecológico. Há consenso de que a ciência e as políticas públicas devem escapar da obsessão cega com a produtividade agrícola bruta, mas o debate revela uma profunda divisão ideológica sobre se a agricultura deve ser tratada como um serviço ecossistêmico independente ou como o pilar social inegociável da dignidade humana.

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