Joy Division e o terminal gótico do modernismo. Mark Fisher nos Cadernos IHU ideias

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09 Mai 2026

A 392ª edição dos Cadernos IHU ideias apresenta o artigo “Ricochete Niilista: Joy Division”, de Mark Fisher, um dos pensadores mais influentes da atualidade no que se refere à crítica do sistema capitalista, ao aceleracionismo e aos seus limites morais, políticos, culturais e econômicos. Foi escritor e teórico cultural, tendo ficado conhecido por seu blog, k-punk.

A tradução do texto foi realizada por Bräulio Rodrigues, doutor em Direito e mestre em Filosofia. É pós-doutorando na Universidade Federal do Pará (UFPA). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Ontologia e Crítica Cultural. Pesquisa o aceleracionismo a partir de interlocuções com Nick Land, Jean Baudrillard, Mark Fisher, Viveiros de Castro e Peter Sloterdijk.

Bräulio convida-nos à leitura do artigo por meio do comentário abaixo, enviado exclusivamente ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Eis o comentário.

Em Ricochete Niilista (Nihil Rebound: Joy Division), Mark Fisher não se limita a analisar o Joy Division como uma banda de rock, mas como uma trama que reúne as interfaces thatchereanas da depressão. Este ensaio, que germinou no espaço de experimentação do blog k-punk e encontrou sua forma lapidada em “Nenhum prazer: Joy Division” (No Longer the Pleasures: Joy Division), presente no livro Fantasmas da minha vida (Ghosts of My Life), marca o momento exato em que a crítica cultural se funde à psicanálise. Embora a versão posterior possua um acabamento mais integrado às suas teses sobre assombrologia, este texto original preserva uma urgência conceitual crua, indispensável para compreender a gênese do seu pensamento.

Fisher argumenta que o som do grupo, forjado sob o gélido rigor de Martin Hannett e a geometria austera de Peter Saville, transmutou a desolação da Manchester pós-industrial em uma teologia da finitude. Através da lente da psicanálise, o autor investiga como a performance de Ian Curtis encarna uma pulsão de morte manifesta: a sua exposição convulsiva às luzes estroboscópicas do palco não era apenas encenação, mas uma entrega física ao desmoronamento. Curtis não era um mero porta-voz da tristeza, mas o habitante de um afeto zero onde o corpo, em choque com a eletricidade e o som, torna-se a interface de uma abolição iminente — o instante em que a arte tenta se tornar vida por meio da interrupção definitiva.

O valor fundamental desta versão reside na sua capacidade de mapear o Joy Division como o terminal gótico do modernismo, situando a banda no epicentro do colapso social britânico. Fisher demonstra como o pós-punk articulou a desolação psíquica que acompanhou a ascensão do neoliberalismo, transformando o fechamento das possibilidades políticas em um confinamento existencial claustrofóbico. Mais do que um lamento, o texto captura o ricochete de uma subjetividade que, ao ser esmagada pela privatização do estresse e pela erosão do social, encontra na paralisia sonora do Joy Division a única tradução fiel para o deserto do real que surgia sob a nova ordem econômica.


A edição pode ser acessada na íntegra aqui.

 

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