23 Abril 2026
No fim de seu livro, La cattiva coscienza dei fisici (A má consciência dos físicos), Carlo Rovelli toma uma atitude corajosa: ele se debruça sobre a história e questiona a si mesmo e a seus colegas pela responsabilidade moral do conhecimento. A física do século XX entregou à humanidade um "presente envenenado", a bomba atômica, e muitos cientistas optaram por se encerrar na tranquilidade asséptica dos laboratórios, como se essa invenção apocalíptica não dissesse respeito ao mundo real, como se nada tivesse a ver com o medo e os mortos pulverizados.
Livro "La cattiva coscienza dei fisici", de Carlo Rovelli (Solferino, 2026).
A construção do Projeto Manhattan, explica o físico, nasce de um colossal mal-entendido: o medo de que a Alemanha nazista estivesse perto de produzir a bomba leva os cientistas estadunidenses a convencer Washington da necessidade de se equipar com uma arma semelhante. Mas foi com a bomba atômica soviética de 1949 que entramos na era da MAD, Destruição Mútua Assegurada, um equilíbrio precário baseado na dissuasão e na ameaça de retaliação imediata. Rovelli, no entanto, lembra que o mundo ainda está de pé graças a uma humanidade que escolheu, repetidas vezes, desobedecer à máquina, como quando o almirante russo Vasily Arkhipov, durante a Crise dos Mísseis de Cuba, opta por não apertar o botão e, assim, evita responder a um alarme falso.
Rovelli afirma: a verdadeira ameaça não é o outro, mas o medo do outro. E afirma isso enquanto uma "nova" guerra se alastra no Oriente Médio em nome daquela bomba a ser neutralizada, em nome daquele terror do inimigo a ser aniquilado, em um desafio que não é apenas militar, mas sobretudo moral.
A entrevista é de Greta Privitera, publicada por 7, 21-04-2026.
Eis a entrevista.
Por que esse livro hoje?
A probabilidade objetiva de uma catástrofe nuclear completa nunca foi tão alta quanto neste momento. A política não está levando isso em consideração. A física trouxe muitos dons para a humanidade, mas entre eles um era envenenado: a bomba atômica.
A culpa é mais dos físicos ou dos políticos, então?
Não tem sentido falar de culpas no passado: é preciso falar de responsabilidade e das decisões a serem tomadas neste momento. Acredito que as lideranças de nossos países, que nós elegemos, todas envolvidas com os problemas de curto prazo, estão marchando como sonâmbulos rumo a uma catástrofe. Mas, desta vez, a catástrofe é nuclear. É uma responsabilidade grave. Todos os cidadãos devem contribuir para impedir essa marcha de sonâmbulos rumo ao abismo.
Você escreve que as decisões tomadas sobre as armas nucleares muitas vezes foram o resultado de erros de cálculo. Qual a possibilidade, mesmo na era da inteligência artificial, de que um erro de cálculo possa levar ao lançamento de outra bomba nuclear?
Extremamente possível. Se há uma coisa que o passado nos ensina, é que as decisões dos políticos se provaram erradas. É por isso que um debate público sério e amplo sobre questões graves como os armamentos, a guerra e as armas atômicas é essencial. Na Itália, não estamos fazendo isso.
Já viu o filme de Kathryn Bigelow, "Casa de Dinamite", sobre um míssil nuclear apontado para os Estados Unidos?
Preferi não assistir. Mas conheço os dados objetivos. Uma escalada que leve a um conflito atômico significa que, em 15 minutos, dezenas de milhões de pessoas, entre as quais certamente os habitantes do norte da Itália, onde existem bases nucleares, portanto os alvos principais, morrem queimadas vivas. São as sortudas.
No livro, você afirma que existe uma contradição no fato de a Itália não ter centrais nucleares (por escolha popular), mas abrigar ogivas nucleares estadunidenses (não declaradas).
O fato de a Itália ter as bombas nucleares estadunidenses é um escândalo. O povo não as quer, é uma situação de ilegalidade, porque a Itália adere ao Tratado de Não Proliferação como país não nuclear, mas isso nos torna o primeiro alvo em caso de guerra nuclear. Não servem para nos proteger. Servem para que sejamos sacrificados para proteger os estadunidenses.
O que aconteceria se os Estados Unidos deixassem a OTAN? O aparato militar e nuclear permaneceria nas mãos dos Estados Unidos, mas deslocado nos nossos países, incluindo a Itália?
É evidente, claro que não nos dariam nada de bandeja. Já passou da hora de nos desvincular dessa subserviência. Aceitamos isso porque perdemos a guerra, mas já se passaram oitenta anos. É óbvio para todos na Europa que os Estados Unidos não estão agindo no nosso interesse. Não seria a hora de sair dessa vassalagem degradante?
Com quem deveríamos nos aliar?
Vamos nos aliar com os países que pressionam pela legalidade internacional, para fortalecer as Nações Unidas e as instituições internacionais. Os países que pressionam para enfrentar a crise ecológica, as desigualdades econômicas, a fome no mundo, a redução dos conflitos e a legalidade internacional. Esses países são muitos e representam a grande maioria dos cidadãos do mundo. Por que a Itália não está com eles?
E se as armas nucleares tivessem sido desenvolvidas em tempos de paz?
Tudo teria sido diferente. Os homens também sabem ser razoáveis. Os Estados Unidos e a União Soviética negociaram nas últimas décadas uma redução drástica e equilibrada das ogivas nucleares e se colocaram sob controle mútuo, a fim de evitar catástrofes. A pesquisa ligada às armas biológicas e químicas está sob rigoroso controle internacional. Se a tecnologia nuclear tivesse se desenvolvido em tempos de paz, talvez tivéssemos podido tê-la colocado igualmente sob um controle razoável.
Como um controle razoável pode reduzir “o medo exagerado e infundado que desenvolvemos uns dos outros”? Deixar de ter medo, você escreve, não é impossível. Mas como?
A Europa tem medo da Rússia, a Rússia tem medo da Europa, os Estados Unidos têm medo da China, a China tem medo dos Estados Unidos, Israel tem medo do Irã, o Irã tem medo de Israel, e assim por diante. Cada um vê os malfeitos de seus inimigos, todos estão se enchendo de armas, todos estão falando em guerra. No passado, períodos semelhantes sempre levaram a grandes guerras catastróficas. Como podemos voltar atrás? Basta seguir o que estão implorando muitas pessoas sensatas, do Secretário-Geral das Nações Unidas ao Papa, a muitos líderes de grandes países. Infelizmente, não aqueles que elegemos em nossas democracias. Basta voltar a seguir a legalidade internacional. Lembremos também que fomos nós, italianos, os primeiros a violá-la, participando por bajulação de uma série de guerras de agressão ilegais.
Truman estava convencido de que o uso aberto da bomba colocaria seu país na posição de se tornar a única potência nuclear e, portanto, a única superpotência mundial. Até que ponto se assemelha à forma de pensar de Trump?
Acredito que uma parte significativa dos Estados Unidos, não apenas Trump, superestima demais sua capacidade de dominar o mundo.
Trump, no papel de Dr. Strangelove, coloca o mundo em risco. Alguma vez havíamos atingido um nível de perigo tão alto?
Na realidade, Trump está seguindo a mesma política internacional de seus antecessores: guerras de agressão contínuas contra qualquer um que não se curve à dominação estadunidense. A diferença hoje é em relação a nós: antes pensávamos que o poder estadunidense nos protegia, agora a Europa entendeu que os Estados Unidos dominam sozinhos e nos tratam como subordinados.
Mas, no fim, inacreditavelmente, a bomba foi usada "apenas" duas vezes. Por quê?
Porque os mais altos políticos soviéticos e estadunidenses estiveram à altura da situação, apesar de seus conselheiros frequentemente pressionarem em outras direções. Os Kennedys e Khrushchev tiveram a coragem de parar a um passo do abismo, durante a Crise dos Mísseis de Cuba. Reagan e Gorbachev, também graças à pressão de cientistas que mostravam os riscos reais, negociaram tratados de controle de armas nucleares que permitiram, ainda que por um triz, evitar a catástrofe.
O que pensa do conflito no Irã, desencadeado por um acordo nuclear fracassado?
Na verdade, acredito que seja mais uma guerra de dominação desencadeada pelos Estados Unidos para atacar qualquer um que não se submeta. Desde o pós-guerra, os Estados Unidos, que nunca foram atacados, colocaram na mira e bombardearam cerca de trinta países.
Faz sentido atacar o Irã para impedi-lo de ter a bomba nuclear?
Se o Irã tivesse armas nucleares, certamente não as usaria, porque usá-las seria um óbvio suicídio. Se as usasse, seria aniquilado pelas armas nucleares de outros países. Mas tê-las representaria uma garantia contra ataques como o atual, então poderia se permitir um pouco mais não curvar a cabeça ao império, e isso os Estados Unidos não toleram.
Israel nunca confirmou que possui a bomba, mas muitos acreditam ser altamente provável que a tenha. Até que ponto é perigoso o botão nas mãos de Netanyahu?
Bem pouco, acredito. Eu realmente não acho que ele seja tão louco para usá-la. Além do fato que não é óbvio que Israel a possua, poderia ser um blefe. Por que não a declarar? O problema das armas nucleares não diz respeito às pequenas potências, mas que as grandes potências podem usá-las. Para as pequenas potências, como Israel ou Coreia do Norte, são apenas um seguro de vida.
Voltemos ao livro: por que a bomba não foi construída na Alemanha, a nação cientificamente mais avançada na época?
A Alemanha fez uma escolha racional: não era possível construir a bomba antes do fim da guerra na Europa e, portanto, era melhor não desperdiçar recursos.
Por que os Estados Unidos usaram a bomba atômica no Japão depois que a guerra estava praticamente ganha?
Para evitar uma rendição negociada do Japão, queriam impedir que os russos chegassem a Tóquio antes deles e se impusessem como a potência mundial dominante no imediato pós-guerra.
Alguns cientistas, entre os quais Oppenheimer, tiveram sérias dúvidas sobre a conveniência de construir a bomba. Deveriam ter parado?
Acho que se tivessem continuado a conversar com seus colegas alemães, com quem tinham relações de amizade, e se muitos não tivessem entrado em pânico com a bomba de Hitler (que ele estava muito longe de possuir), o mundo poderia ter sido melhor. Não estou dizendo isso para criticar nenhum deles, absolutamente não. Eram tempos difíceis. Estou dizendo isso para tentar evitar cometer os mesmos erros hoje.
Ainda são úteis os tratados de não proliferação?
Muito úteis. Infelizmente, os Estados Unidos e a Rússia estão abandonando todos eles, e isso aumenta o perigo.
O quanto instável se tornou hoje a lógica da dissuasão, ou seja, o frágil equilíbrio do terror?
Está completamente instável por muitas razões. Entre elas, a mais relevante é o progresso tecnológico, que está acabando com a dissuasão e abrindo caminho para a guerra nuclear.
Faz sentido não se equipar com a bomba nuclear quando estadunidenses, franceses e britânicos a possuem?
Não faz sentido pensar em termos de medo e de defesa. Faz sentido pensar em contribuir para a construção de uma coalizão global entre todos os países da Terra. A Itália é um dos dez países mais ricos do planeta. Por que, em vez de seguir os passos daqueles que escolhem a guerra, não usa sua influência para impulsionar a colaboração global? Outros estão fazendo isso.
Que tipo de colaboração você imagina? E quem está fazendo isso?
A maioria dos países do mundo está pressionando para fortalecer as Nações Unidas e a legalidade internacional. Declaram isso obviamente os países fracos, mas também, insistentemente, países poderosos como a China.
A China, no entanto, não é um país democrático.
A Itália prefere se alinhar, por conveniência míope, com um país como os Estados Unidos, que não apenas pratica, mas também declara em seus documentos oficiais que não tolera a legalidade internacional e as instituições supranacionais.
Apesar dos presságios sombrios, seu livro mostra esperança e confiança na humanidade. O que espera para o futuro?
Que os seres humanos reconheçam que todos nós temos um destino, interesses e problemas em comum. E que, em vez de apoiar quem é mais poderoso, pensem em como colaborar. A Itália estaria em posição de dar um bom exemplo e arrastar atrás de si outros, mas, em vez disso, não é parte da solução, mas sim do problema.
Leia mais
- O Irã empurrado para a bomba atômica. Artigo de Luciano Fazio
- Contra a bomba atômica (no Irã): argumentos e contra-argumentos sobre a possibilidade de um ataque nuclear dos EUA contra a República Islâmica
- No Irã, os Pasdaran defendem a bomba nuclear: "Seria uma garantia de segurança"
- “Guerra nuclear preventiva” é a doutrina oficial dos Estados Unidos: uma visão histórica de seu belicismo. Artigo de Michel Chossudovsky
- A rebelião americana contra a ameaça nuclear: "Parem o presidente"
- O Ocidente teme o pesadelo nuclear: uma bomba tática nas fronteiras europeias
- Hiroshima, Cuba e um lançamento atômico que quase aconteceu várias vezes. Artigo de Fabrizio Tonello
- O 80º aniversário do maior ataque terrorista da história. Artigo de Jorge Majfud
- Hiroshima, o flash mortal que mudou o mundo
- Quarta, 16, 12h29min: sinos e silêncio nos 80 anos do teste da bomba atômica
- 80 anos depois de Hiroshima, ativistas antinucleares ainda lutam pelo progresso