23 Abril 2026
"Desde 1989, muita coisa mudou: grande parte da secularização se transformou em um suposto "fim da história" e sua conexão com a cultura consumista, que se tornou a base da "globalização real". Uma vez que a história tivesse chegado ao fim, haveria uma única forma de pensar, um único mercado e finanças globais".
O artigo é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano, publicado por Settimana News, 21-04-2026.
Eis o artigo.
Ao ler artigos e entrevistas nestas últimas horas, no aniversário da morte do Papa Francisco, duas palavras me chamaram a atenção: a primeira, usada pelo Padre Antonio Spadaro, é "trauma". A segunda é "alegria", palavra usada pelo Professor Massimo Borghesi para caracterizar seu ensino.
Em entrevista à Famiglia Cristiana, o Padre Spadaro afirmou: "Talvez o mais importante que permaneça seja a dimensão traumática de seu pontificado: uma reação evangélica que abalou uma espécie de homeostase eclesial (a capacidade de manter o valor de certos parâmetros internos em um nível predeterminado, constantemente perturbado por diversos fatores externos e internos). Quanto mais os traumas são reprimidos, mais profundos eles se tornam." Mas que ele foi o Papa que conquistou o coração dos secularizados e que certamente foi amado, era e continua sendo verdade.
Em entrevista à Eco di Bergamo, o professor Massimo Borghesi afirmou: "Cada Papa tem seu próprio estilo. O de Francisco caracterizou-se pela liberdade e pela alegria. A palavra alegria reaparece em seus documentos programáticos: Evangelii Gaudium, Amoris Laetitia, Gaudete et Exultate. Liberdade e alegria tocaram o coração de muitos, tanto perto quanto longe. Seu desejo por uma Igreja menos clerical e fechada coincidiu com o do Concílio Vaticano II."
Essas duas palavras me fizeram pensar no mundo ao qual realmente pertenço, o mundo "secularizado": o Papa Francisco foi um trauma até mesmo para muitos de nós, os secularizados, mas a homeostase de boa parte da burocracia secularizada temia a reação "de baixo para cima" e tentava escondê-la ou negá-la.
Assim, Borghesi me fez pensar que esse trauma exigia que redescobríssemos nossa alegria: a pessoa secularizada média vivenciou a reação negativa, mas provavelmente se deparou com uma grande parcela da "cúria secular" recalcitrante e um contexto pouco criativo: isso, na minha opinião, diminuiu o impacto do "trauma criativo". A casca, portanto, tornou-se triste.
Uso intencionalmente o termo "secularizado" devido à profunda transformação pela qual passou. A secularização surgiu no século XVII para indicar a transferência de territórios e propriedades da jurisdição eclesiástica para o poder civil e, gradualmente, passou a se referir a uma sociedade modelada segundo critérios independentes de dogmas religiosos. Trata-se, portanto, de uma sociedade bem adequada a sociedades "abertas", multirreligiosas, democráticas e baseadas no pensamento crítico, como aquelas que se formaram em nosso continente e em outros lugares.
Desde 1989, muita coisa mudou: grande parte da secularização se transformou em um suposto "fim da história" e sua conexão com a cultura consumista, que se tornou a base da "globalização real". Uma vez que a história tivesse chegado ao fim, haveria uma única forma de pensar, um único mercado e finanças globais. A única comparação possível, para muitos, parecia ser entre um consumismo pronto para se aliar ao secularismo radical e um consumismo semelhante pronto para se aliar a uma certa teologia política.
O que trouxe o debate de volta a um caminho "saudável" foi o diálogo aberto entre o Papa e Eugenio Scalfari. Ridicularizado por se autoproclamar o "papa laico", embora também fosse, em certa medida, ridicularizado por suas supostas deficiências teológicas, embora não o fosse, foi Eugenio Scalfari, o "guru laico", quem compreendeu a importância daquele pontificado, o "desafio" que ele representava. Ele, a meu ver, nos ofereceu um "pluralismo alegre", e não um triste.
Foi a primeira novidade, a de 2013: sua resposta a Eugenio Scalfari:
Ao longo dos séculos da modernidade, testemunhamos um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e impacto na vida humana desde o princípio se expressaram precisamente através do símbolo da luz, foi muitas vezes rotulada como a escuridão da superstição em oposição à luz da razão. Assim, entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um lado, e a cultura moderna do Iluminismo, por outro, surgiu um estado de incomunicabilidade. Chegou a hora, e o Vaticano II inaugurou esse momento, de um diálogo aberto e imparcial que reabra as portas para um encontro sério e frutífero.
Poder-se-ia pensar que a responsabilidade pela falta de comunicação é aqui atribuída ao pensamento iluminista, mas, como é indiscutível que este veio depois do cristianismo, e não antes, a reconstrução é clara: não há identificação entre vítima e algoz. O encontro, além disso, é apresentado não apenas como "sério", mas também como "frutífero". Pluralista? Pluralista.
Algo ainda mais significativo aconteceu em 2014; em Caserta, o Papa Francisco, após sua conversa com o pastor pentecostal Giovanni Traettino, explicou-nos como ser pluralistas, e o fez ilustrando o que, em sua opinião, o Espírito Santo faz:
O Espírito Santo cria a "diversidade" na Igreja. Ele cria diversidade! E, de fato, essa diversidade é tão rica, tão bela. Mas então, o próprio Espírito Santo cria a unidade, e assim a Igreja é una na diversidade. E, para usar uma bela expressão de um evangélico que tanto admiro, uma "diversidade reconciliada" pelo Espírito Santo. Ele faz ambas as coisas: cria a diversidade de carismas e, em seguida, cria a harmonia dos carismas. É por isso que os primeiros teólogos da Igreja, os primeiros Padres [...] disseram: "O Espírito Santo é harmonia", porque Ele cria essa unidade harmoniosa na diversidade.
Estamos na era da globalização e refletimos sobre o que é a globalização e o que seria a unidade na Igreja: talvez uma esfera, onde todos os pontos são equidistantes do centro, todos iguais? Não! Isso é uniformidade. E o Espírito Santo não cria uniformidade! Que figura podemos encontrar? Pensemos no poliedro: o poliedro é uma unidade, mas com todas as partes diferentes; cada uma tem a sua peculiaridade, o seu carisma. Esta é a unidade na diversidade.
Foi necessária uma instituição global para nos reexplicar o pluralismo necessário, o que, a meu ver, inverte a interpretação do mito da Torre de Babel: o erro foi a tentativa de padronização, tanto naquela época quanto na globalização. Hoje, creio que setores da "cúria leiga" se assustaram com isso: havia uma visão consumista que, em nome da globalização focada apenas nos mercados, estava disposta a pagar o preço que adviria do retrocesso ao etnicismo, ao supremacismo e assim por diante, em grande parte nascidos daquela ilusão, originada do paradigma tecnocrático, de globalização atrelada ao consumismo. Esses apelos ao pluralismo, contudo, assustaram a "cúria leiga", principalmente porque temiam uma Igreja não obscurantista.
Mas ele voltou a falar sobre pluralismo em muitas outras ocasiões, eu diria, em primeiro lugar, na comemoração solene do 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, em 2015:
O compromisso com a construção de uma Igreja sinodal — missão para a qual todos somos chamados, cada um no papel que lhe foi confiado pelo Senhor — está repleto de implicações ecumênicas. [...] Estou convencido de que, numa Igreja sinodal, o exercício da primazia também poderá receber maior clareza. O Papa não está sozinho acima da Igreja; mas dentro dela como um Batizado entre os Batizados, e dentro do Colégio dos Bispos como um Bispo entre os Bispos, chamado ao mesmo tempo — como Sucessor do Apóstolo Pedro — a liderar a Igreja de Roma, que preside com amor sobre todas as Igrejas.
Embora reitere a necessidade e a urgência de se considerar "uma conversão do papado", repito de bom grado as palavras do meu predecessor, o Papa João Paulo II: "Como Bispo de Roma, sei bem [...] que a comunhão plena e visível de todas as comunidades, nas quais, em virtude da fidelidade de Deus, habita o seu Espírito, é o ardente desejo de Cristo. Estou convencido de que tenho uma responsabilidade particular a este respeito, especialmente em reconhecer as aspirações ecuménicas da maioria das comunidades cristãs e em atender ao pedido que me foi dirigido para encontrar uma forma de exercer a primazia que, sem de modo algum renunciar à essência da sua missão, esteja aberta a uma nova situação."
Nosso olhar se estende também à humanidade. Uma Igreja sinodal é como um estandarte erguido entre as nações em um mundo que — embora clame por participação, solidariedade e transparência na administração dos assuntos públicos — muitas vezes coloca o destino de populações inteiras nas mãos gananciosas de grupos de poder restritos. Como Igreja que "caminha ao lado" da humanidade, compartilhando as dificuldades da história, cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função servidora da autoridade também possa ajudar a sociedade civil a se construir na justiça e na fraternidade, criando um mundo mais belo e mais humano para as gerações vindouras.
A democracia que todos diziam defender já não estava em crise? A participação nos ritos democráticos já não estava abaixo do nível mínimo? Havia aqui um discurso profético que só agora começa a ser melhor compreendido: não é a Igreja, uma instituição global que começou a ser sinodal, aquela que defende o multilateralismo e o direito internacional em todo o mundo?
Parte da "cúria leiga" não conseguiu acompanhar o ritmo. O secularismo impediu isso, em grande parte por vocação. Incapaz de aceitar qualquer forma de conflito, disposta a aceitar a liquidez social como preço do consumismo, essa parcela mais ou menos disseminada da "cúria leiga" não tinha forças para se engajar em um verdadeiro diálogo com uma Igreja que já não se convencia de ser juíza eterna, colocando-se acima e além da história, mas confirmando seu desejo de caminhar dentro da história, algo que alguns dentro dela não queriam ou desejavam.
Melhor, então, ter essa Igreja como juiz eterno — como amiga dos aliados da teologia política ou como inimiga daqueles do outro lado ligados ao consumismo — do que como alguém com quem se confrontar em nome do bem comum. A melhor estratégia sempre foi culpar o outro pela própria indisponibilidade.
No entanto, Francisco, em uma entrevista de 2016 com o Padre Spadaro, foi claro: embora suas observações se referissem abertamente ao ambiente interno da Igreja, elas também diziam respeito à relação com o mundo exterior. Spadaro perguntou-lhe: "O senhor às vezes usa frases contraditórias: 'o confessionário não é uma lavanderia nem uma câmara de tortura' [...]. Essa é apenas uma maneira eficaz de se expressar?" Eis a resposta dele:
Não, isso tem a ver com abrir espaço para o espírito seguir em frente, em vez de impor ideias. A oposição abre um caminho, uma estrada a seguir. De modo geral, devo dizer que adoro oposições. Romano Guardini me ajudou com um livro dele que foi importante para mim, A Oposição Polar. Ele falava de uma oposição polar em que os dois opostos não se anulam. Nem um polo destrói o outro. Não há contradição nem identidade. Para ele, a oposição se resolve em um plano superior.
Nessa solução, porém, a tensão bipolar permanece. A tensão persiste, não pode ser eliminada. Os limites devem ser superados, não negados. As oposições ajudam. A vida humana é estruturada de forma oposicional. E é isso que acontece ainda hoje na Igreja. As tensões não precisam necessariamente ser resolvidas e padronizadas; elas não são como contradições.
Esse declínio do extremismo opositor assustou, e sua subserviência ao pensamento consumista entristeceu a oferta "secular". Tendo sido amputada a terceira coluna da tríade iluminista de "liberdade, igualdade e fraternidade", a ideia que formalmente se referia ao Iluminismo perdeu a alegria do encontro na diversidade, tornando-se triste.
Não creio que Francisco tenha jamais abandonado o pluralismo, mas seu apelo pluralista final — ainda mais comovente — foi dirigido a outras religiões em Singapura, falando aos jovens: "Todas as religiões são um caminho para Deus. São — farei uma comparação — como diferentes línguas, diferentes expressões idiomáticas, para se chegar lá. Mas Deus é Deus para todos. E como Deus é Deus para todos, somos todos filhos de Deus."
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