“Há sólida evidência científica para as condições pós-covid”. Entrevista com Karen Ingrid Tasca

Fonte: Unsplash

Mais Lidos

  • Governo Trump retira US$ 11 mi de doações de instituições de caridade católicas após ataque a Leão XIV. Artigo de Christopher Hale

    LER MAIS
  • Procurador da República do MPF em Manaus explica irregularidades e disputas envolvidas no projeto da empresa canadense de fertilizantes, Brazil Potash, em terras indígenas na Amazônia

    Projeto Autazes: “Os Mura não aprovaram nada”. Entrevista especial com Fernando Merloto Soave

    LER MAIS
  • A guerra dataficada: Big Techs, soberania digital e imperialismo no século XXI

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

17 Abril 2026

Desde o início do surto de covid-19, em 2019, até setembro do ano passado, cerca de 40 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus Sars-Cov-2. Porém, segundo estimativas do Ministério da Saúde, cerca de 25% dos infectados continuam enfrentando sintomas meses ou anos após a fase mais aguda da infecção. Problemas de memória, fadiga, alterações de paladar, depressão ou dificuldades respiratórias são alguns dos relatos mais frequentes. Esse conjunto de manifestações passou a ser chamado oficialmente pelo Ministério da Saúde de condições pós-Covid — termo adotado para padronizar diferentes expressões, como covid longa ou síndrome pós-covid.

A entrevista é de Pablo Nogueira e Malena Stariolo, publicada por Jornal da Unesp, 14/04/2026.

Em dezembro, o Ministério publicou um Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid, resultado do trabalho de uma equipe multiprofissional formada por especialistas de diferentes regiões do país. O documento busca orientar profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) no reconhecimento, diagnóstico e tratamento dessas manifestações, que podem atingir múltiplos sistemas do organismo.

Karen Ingrid Tasca é docente da Faculdade de Medicina da Unesp, câmpus de Botucatu, e foi uma das pesquisadoras que participou da elaboração do guia. Nessa entrevista ao Jornal da Unesp, a pesquisadora fala sobre os desafios para reconhecer a condição, a falta de marcadores diagnósticos e o impacto que os sintomas persistentes podem ter na qualidade de vida da população.

Eis a entrevista.

Como foi sua participação na elaboração do Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid?

O Ministério da Saúde convidou uma equipe multiprofissional com especialistas de várias regiões do Brasil. Cada integrante foi indicado a partir da sua área de atuação e experiência. O processo foi bastante colaborativo: todos nós lemos o documento inteiro, que já havia sido pré-produzido, e fomos sugerindo alterações ou complementações de acordo com nossa expertise.

Depois dessa etapa inicial de contribuições individuais, o material foi reorganizado pela equipe de coordenação e houve um encontro presencial em Brasília, convocado pelo Ministro da Saúde Alexandre Padilha, para discutir coletivamente todas as sugestões. Nesse encontro avaliamos cada ponto do documento, debatendo as mudanças e buscando consenso entre os participantes. Então todas as contribuições foram debatidas em grupo até chegarmos à versão final.

Agora existe a portaria GM/MS nº 10.715 do Ministério da Saúde que recomenda que os serviços de saúde utilizem esse guia como referência para o atendimento de pacientes com condições pós-Covid.

Por que o guia foi lançado apenas agora, após seis anos do início da pandemia de Covid-19?

Os relatos de pessoas com condições pós-covid começaram a surgir só depois do auge da pandemia, com vários nomes diferentes: covid longa, síndrome pós-covid, entre outros… Em 2021 foi lançado o Manual para avaliação e manejo de condições pós-covid na Atenção Primária à Saúde, que trouxe uma definição dessa condição, mas, mesmo assim, identifica-la continuou sendo um desafio. É difícil tanto para o paciente ter a autopercepção da condição pós-covid, como para o próprio profissional de saúde diagnosticá-la.

O que acontece, por exemplo, é que o paciente pode identificar que está com algum problema de memória, mas não o associa à covid, frequentemente atribuindo este sintoma ao estresse. Estima-se que ao menos 25% das pessoas que tiveram covid têm alguma condição pós-covid hoje. Muitos casos não são notificados porque o paciente não percebe, e o médico também sente dificuldades para diagnosticar. Ainda não existe uma diretriz, na forma de exames e marcadores biológicos que de fato provem que o paciente está com condição pós-covid.

A demora na conclusão do guia está relacionada a diversos desafios, incluindo a falta de atualização dos profissionais de saúde, a compreensão do próprio paciente e a busca pelo serviço de saúde, a descrença e o desconhecimento da sociedade e também as questões relativas ao SUS e à gestão pública.

O novo guia oferece atualização e aprofundamento em relação ao que havia no manual de 2021. Ele compila o conhecimento acumulado nesses anos e apresenta as manifestações das condições pós-covid organizadas a partir dos diferentes sistemas do organismo, como o sistema cardiovascular, o respiratório e o neurológico. Além disso, o Ministério da Saúde pretende realizar um treinamento nacional para capacitar profissionais de saúde no uso deste guia, para assegurar que todos falem a mesma linguagem ao lidar com essas condições.

Existem tratamentos específicos para as condições pós-covid?

O tratamento depende muito do tipo de sintoma apresentado pelo paciente. Como as manifestações são bastante variadas, não existe uma única abordagem terapêutica. Em alguns casos o tratamento pode ser medicamentoso; em outros, envolve reabilitação física, fisioterapia, acompanhamento psicológico ou mudanças no estilo de vida. Tudo depende do sistema afetado e da gravidade dos sintomas.

É pensando nessa complexidade de fatores que o guia foi elaborado: para orientar os profissionais de saúde sobre como reconhecer essas manifestações e quais caminhos seguir no manejo clínico. Ele oferece recomendações sobre investigação, acompanhamento e possíveis estratégias de tratamento.

Uma questão é que nem sempre o tratamento da condição é diferente do que se a pessoa tivesse o problema a partir de outra origem. Por exemplo, uma depressão associada à condição pós-Covid pode receber um manejo semelhante ao de uma depressão sem essa relação. Mesmo assim, identificar a origem do problema ainda é importante. Para o paciente, por exemplo, saber que os sintomas podem estar relacionados à covid pode ajudar a compreender o que está acontecendo e facilitar o processo de aceitação e tratamento.

Nestes casos de depressão é muito comum existir uma autoculpabilização, o que costuma agravar o quadro. Então, se o paciente souber a origem da depressão, esse conhecimento pode agir como uma ferramenta que auxilia o paciente neste processo.

A comunidade médica já reconhece amplamente a existência das condições pós-covid?

Ainda existe uma grande lacuna nesse aspecto. Muitos profissionais de saúde ainda não têm familiaridade com o tema, não associam determinados sintomas à infecção anterior pelo coronavírus ou mesmo não acreditam que esse tipo de condição existe. Isso significa que algumas queixas podem não ser interpretadas como parte de um quadro pós-Covid. O guia também tem o objetivo de alertar os profissionais de que essa condição existe e precisa ser considerada na prática clínica. Ela não é fictícia, e não pode se negligenciada. Mas a maior parte dos profissionais de saúde não dispõem do conhecimento para fazer este diagnóstico.

Existe uma lacuna enorme quanto a esse conhecimento, tanto globalmente quanto no Brasil. Acreditamos que, mesmo após a divulgação deste guia, ainda encontraremos desafios para diagnosticar e tratar essa condição no SUS.

Por que ainda há profissionais que duvidam da existência dessas condições?

Essa é uma questão complexa. Hoje existe uma grande quantidade de estudos científicos sobre o tema, incluindo revisões sistemáticas e meta-análises, que são os níveis mais elevados de confiabilidade científica porque são pesquisas com metodologias muito robustas. A literatura científica que mostra que as condições pós-Covid existem é bastante consistente. O desafio é fazer com que essa informação chegue a todos os profissionais e seja incorporada na prática clínica. Alguns médicos não conhecem, ou mesmo não acreditam.

Mas não conhecer é diferente de não acreditar.

Assim como há divergências quanto à imunização, observa-se ainda certa resistência no reconhecimento das condições pós-Covid por parte de alguns profissionais. Contudo, a prática clínica deve ser pautada estritamente em evidências, e hoje já dispomos de uma literatura robusta sobre o tema.

Se o médico identificar que um determinado sintoma é uma condição pós-covid, ele pode fazer mais rapidamente um direcionamento para outro especialista para que o paciente seja tratado de forma oportuna e adequada. É frequente, por exemplo, que queixas de fadiga em mulheres sejam subestimadas ou atribuídas precocemente à menopausa ou perimenopausa, dificultando o diagnóstico correto de uma sequela viral. A atenção às atualizações científicas é, portanto, fundamental para evitar essas inconsistências diagnósticas.

Com esse grupo, pude aprender o quanto esta condição é complexa. É preciso dialogar com a comunidade científica e não científica. A condição existe: há uma discussão mundial sobre ela, há muitas evidências científicas. Toda a população precisa acreditar na ciência.

Como explicar uma doença que provoca sintomas tão diferentes, que vão de problemas intestinais a AVC?

Isso está relacionado à forma como o vírus SARS-CoV-2 interage com o organismo. Ele tem a capacidade de gerar uma resposta inflamatória muito intensa nas pessoas acometidas. É justamente isso que vai desencadear as diversas condições que afetam os vários sistemas do corpo. Além disso, fatores individuais também influenciam. A predisposição genética, a presença de comorbidades e até características como idade ou sexo podem aumentar a vulnerabilidade a determinadas manifestações.

Por exemplo, pessoas com obesidade ou outras condições inflamatórias prévias podem encontrar maior risco de desenvolver complicações após a infecção porque a inflamação provocada pelo vírus pode intensificar processos que já existiam no organismo. Então vamos supor que uma pessoa já tenha pré-disposição para uma doença autoimune. Se ela já possui essa genética, talvez a inflamação inicial causada pela covid possa agir como um gatilho para o desenvolvimento de alguma doença autoimune como condição pós-covid.

Existem precedentes de infecções virais que causam efeitos prolongados semelhantes?

Sim. Algumas arboviroses, como dengue, também podem provocar sintomas que persistem por mais tempo após a fase aguda da doença. Um exemplo comum é a queda de cabelo, que pode ocorrer tanto após dengue quanto após covid. Então outros tipos de vírus e doenças também podem levar a um quadro mais arrastado.

Aqui no Brasil, portanto, o desafio pode ser maior, pois existem tanto as condições pós-covid como também as arboviroses. Isso dificulta identificar se alguns sintomas, como a fadiga extrema ou a falta de memória, estariam associados ao quadro de condição pós-covid ou ao quadro de alguma arbovirose. E em alguns casos ele pode ter sido acometido pelos dois males.

Você é a pesquisadora principal de um estudo multicêntrico sobre condições pós-covid no Brasil. Em que estágio está o estudo? Já há resultados?

Esse estudo envolve pesquisadores das cinco regiões do país. Nós vamos entrar em contato com 1000 pessoas que tiveram covid e aplicar um questionário bastante detalhado por telefone. O objetivo é caracterizar essas manifestações em nível nacional e verificar se existem diferenças regionais.

Para isso, trabalhamos com três eixos principais. O primeiro é sobre a inter-regionalização. Queremos saber se existem diferenças nas condições pós-covid nas diferentes regiões do Brasil. Aqui, o acesso à saúde, os hábitos alimentares, os costumes e o estilo de vida são muito diferentes. Relacionado a essas diferenças está o segundo eixo que é avaliar o papel nutricional no desenvolvimento das condições pós-covid. Não temos acesso aos mesmos alimentos, e nossos hábitos são diferentes também. Esses diversos perfis alimentares podem impactar nas condições pós-covid? O terceiro e último eixo é avaliar a qualidade de vida e a avaliação funcional das pessoas acometidas.

Estamos mais ou menos na metade desse estudo, que conta com financiamento do CNPq. Já temos alguns resultados preliminares que estamos apresentando em congressos e eventos. Um dos achados é um maior comprometimento das mulheres, que ainda não foi explicado. Também foi observada associação entre alteração no paladar e sobrepeso, e um impacto maior na qualidade de vida.

Para isso, nós desenvolvemos um score, uma classificação, para comparar os casos de pessoas que tiveram condições pós-covid com pessoas que foram acometidas por covid, mas se recuperaram completamente. Estamos observando que, de fato, houve um comprometimento maior na qualidade de vida de quem relatou condições pós-covid.

Leia mais