Faggioli sobre o ataque de Trump a Leão XIV: "O catolicismo nos EUA é o catalisador da crise"

Foto: Vatican Media

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14 Abril 2026

"A história obrigou o Papa a não ignorar este desafio." Massimo Faggioli considera que a resposta do Papa Leão XIV às palavras de Donald Trump representa um novo passo em uma relação que se deteriorou nos últimos meses.

A entrevista é de Richard Benotti com Massimo Faggioli, historiador do catolicismo e professor do Trinity College Dublin, publicada por Religión Digital, 13-04-2026.

Eis a entrevista.

Leão XIV respondeu diretamente às acusações de Trump durante o voo à Argélia. É a primeira vez que algo semelhante ocorre?

Não me lembro de nada parecido na história recente. Leão XIV havia tentado se manter à margem dos intercâmbios pessoais com líderes políticos, em particular com Donald Trump. No entanto, viu-se envolvido neles. Foi uma resposta improvisada, incomum nele sobre esses temas. Mas compreendeu que o momento exigia uma declaração clara.

Como chegamos a este ponto?

É o resultado de uma acumulação de fatores nos últimos meses, especialmente desde janeiro. O discurso de 9 de janeiro ante o corpo diplomático, a convocação do núncio ao Pentágono, a carta dos três cardeais americanos de 19 de janeiro. Depois vieram os acontecimentos em outras frentes, desde a Venezuela até o Líbano e o Irã. Mas há também um fator contingente: nas últimas horas, nos EUA, três cardeais concederam uma entrevista ao informativo mais visto do país em décadas. Trump assistiu e reagiu impulsivamente, porque é assim que ele age: sempre se dirigindo ao público. Há um acesso de raiva relacionado com as últimas horas, mas que se desencadeia por uma relação que já havia atingido um ponto máximo de tensão.

Parecia que com Leão XIV, também por suas origens americanas, poderia começar uma nova etapa.

Isso é verdade e teve efeitos concretos. Alcançou um consenso mais amplo em torno do Papa entre os bispos católicos e entre os católicos envolvidos em instituições americanas. Leão XIV é americano, os tempos são diferentes, e essa proximidade teve um impacto. No entanto, até o final de 2025, recusou-se a dar uma interpretação política ao seu pontificado. Convidou os bispos americanos a se pronunciarem e manteve uma postura de cautela institucional. Então viu-se imerso nessa dinâmica.

Por que essa relação nunca chegou a se consolidar?

Porque existe uma cultura política americana que tende a ver o Vaticano como uma referência espiritual a ser seguida nesse caminho. Mas o Vaticano nunca foi assim, e menos ainda hoje. Quando Trump afirma que Leão XIV foi eleito porque ele é presidente, demonstra uma visão de mundo totalmente centrada em si mesmo. A agenda do Conclave era muito mais ampla. A relação com a situação americana era um dos temas, não o tema principal. Em vez disso, tornou-se o tema dominante, e a história obrigou o Papa a não ignorar este desafio.

Trump se apresenta com uma retórica que, por momentos, adquire tons salvíficos. Como interpretar essa linguagem a partir de uma perspectiva religiosa?

É uma forma de liderança política que só funciona nos Estados Unidos quando vinculada à religião, e optaram pela forma mais extrema: ver Trump como uma espécie de messias, um salvador da nação e da civilização. Mas não compreendem que o Vaticano sempre olhou com desconfiança para quem se apresenta nesses termos. Em seu primeiro mandato, esse aspecto era menos visível. No segundo, é muito mais evidente: está sendo construída uma narrativa religiosa em torno de Trump, o que, para os católicos, é problemática.

As políticas anti-imigratórias também geram tensões no mundo católico americano?

Sim, e é um ponto crucial. O trumpismo em seu segundo mandato tem um rosto muito mais nacionalista e belicista, e, para o eleitorado católico, está muito mais vinculado aos novos atores do Vale do Silício: Peter Thiel e Elon Musk. Isso já está provocando uma fratura interna dentro da direita católica que havia depositado sua confiança em Trump. Nos últimos meses, ela se deu conta de que o tema do aborto não apenas se tornou praticamente indiferente para a administração, mas que as políticas antiimigratórias também tiveram as igrejas como alvo principal. Uma ideia clara já circula entre esse eleitorado: "Não votamos por isso."

O que disse Leão XIV?

No voo à Argel, Leão XIV baseou sua resposta no magistério petrino, não na confrontação política: "Não me vejo como político, não sou político, não quero entrar em um debate com ele. Minha mensagem é o Evangelho, e continuo me manifestando com firmeza contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e o multilateralismo. Digo isso por todos os líderes mundiais, não apenas por ele: tentemos pôr fim às guerras e promover a paz e a reconciliação." A um jornalista americano, o Papa acrescentou: "Não temo a administração Trump. Continuarei proclamando com contundência a mensagem do Evangelho."

Como o catolicismo americano vive este momento?

Não podemos mais fingir que se trata simplesmente de uma crise do sistema político ou de um personagem atípico. Esta crise americana, que também se traduziu em uma crise nas relações com o Papa e o Vaticano, é uma crise nacional da civilização. O catolicismo funciona como um condensador, um catalizador, precisamente porque tem um elemento externo, a saber, o Vaticano, e agora também um Papa americano. Isso nos ajuda a interpretar o que acontece nos Estados Unidos com maior perspectiva. Visto de dentro, pode parecer simplesmente uma variação do passado. Visto de fora, parece ser algo mais profundo.

O catolicismo americano é mais importante do que se poderia pensar para o trumpismo?

Muito mais do que os evangélicos e protestantes, que em grande medida permanecem como meros espectadores. O catolicismo se tornou verdadeiramente um elemento central. E o paradoxal, além de historicamente singular, é que haja um Papa americano chamado a enfrentar esta crise da civilização. Isso coloca muitas questões e demonstra como este pontificado está chamado a navegar por águas que ninguém havia previsto tão turbulentas, e tão cedo.

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