Sheinbaum promove a liderança do México na aliança progressista internacional

Foto: @claudiashein/Fotos Públicas

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14 Abril 2026

A presidente mexicana busca alternativas para a relação tensa com Trump e toma a iniciativa ao participar de uma reunião em Barcelona com seus homólogos mais próximos, liderados por Lula, Petro e Sánchez.

O artigo é de Elena San José, jornalista, publicado por El País, 12-04-2026.

Eis o artigo.

 O México enfrenta um delicado equilíbrio regional, com um Donald Trump volátil exercendo pressão no norte e um mosaico de forças políticas no sul inclinando-se cada vez mais para a direita. A presidente Claudia Sheinbaum fez um balanço da situação e tomou a iniciativa: seus dias de discrição estão chegando ao fim. Após diversos gestos de cooperação ao longo do último ano com seus homólogos mais próximos, a presidente, que raramente viaja, especialmente fora de compromissos oficiais, visitará Barcelona para se encontrar com os presidentes do Brasil, da Colômbia e da Espanha em um fórum que busca construir uma alternativa progressista ao futuro idealizado pelo regime de Trump. O México está assumindo o lugar que, dada sua dimensão e relevância, merece em uma esfera ávida por líderes fortes.

A presença de Sheinbaum no evento, que contará com a participação de mais de cem líderes mundiais, marca uma virada na estratégia seguida até então por seu governo e pelo de seu antecessor, o também esquerdista Andrés Manuel López Obrador. A presidente mexicana tem enfrentado a pressão do presidente dos EUA com serenidade e tato, mas com um sucesso inconsistente que não dissipou completamente a ameaça de tarifas ou intervenção militar. A agressão dos EUA no Irã reforça uma conclusão que, por diversas vias, leva à posição da presidente: o México precisa conquistar autonomia em relação ao seu principal parceiro comercial e, para isso, deve buscar alternativas à relação tensa que até agora dominou completamente as prioridades da política externa do país.

“O México ficará bastante isolado na região. Acho que não aproveitamos totalmente o contexto de vários governos de esquerda na América Latina, e agora há uma mudança muito significativa para a direita”, observa a especialista em relações internacionais María José Urzúa. “Boric, que foi um dos principais articuladores desse grupo, não está mais presente”, acrescenta. A vitória do candidato de extrema-direita de José Antonio Kast no Chile foi um grande revés para a esquerda na região, que muitas vezes tem sido menos coordenada do que sua contraparte de direita, com Donald Trump ditando o ritmo para os governos do Sul. As eleições deste ano na Colômbia e no Brasil, com seus resultados ainda muito incertos, tornam imperativo acelerar a aliança progressista antes que seja tarde demais.

“Há um esforço para aprofundar o acordo de complementaridade econômica com o Brasil, que, dada a incerteza deste outono, eles devem tentar finalizar nos próximos meses”, aponta a especialista, acrescentando que acredita que isso pode ter sido um fator determinante para Sheinbaum. A presença dos dois países mais influentes da região envia uma mensagem clara ao continente em um contexto no qual a presidente mexicana, segundo a especialista, tem se distanciado cada vez mais dos Estados Unidos, tanto em relação à crise em Cuba quanto ao tratamento dado aos imigrantes mexicanos pelo ICE, a agência de imigração americana. Há algumas semanas, o Ministério das Relações Exteriores do México exigiu uma investigação sobre a morte de um cidadão mexicano em um centro de detenção na Califórnia. Ao menos retoricamente, Sheinbaum tem se manifestado veementemente nas últimas semanas.

O terreno também está se abrindo na frente espanhola. Os dois países estão vivenciando sua maior reaproximação em sete anos, após inúmeras divergências sobre a interpretação do período da Conquista, que levaram a um congelamento sem precedentes nas relações políticas. Graças, em grande parte, ao papel mediador da cultura e ao recente gesto da Monarquia Espanhola, essa situação delicada parece estar entrando em sua fase final. A viagem de Sheinbaum a Barcelona, ​​oito anos após a última visita de um presidente mexicano à Espanha, confirma o degelo entre os dois governos em um momento crucial para a unidade dos progressistas. A firmeza com que o presidente espanhol, Pedro Sánchez, se opôs ao belicismo de Trump o tornou a figura mais visível da oposição europeia ao trumpismo, uma figura-chave para a própria oposição latino-americana.

Num contexto de forte alinhamento ideológico, manter a tensão com um país cujo governo está fundamentalmente alinhado parecia, acima de tudo, impraticável. O encontro da próxima semana também aponta para uma mudança nesse cenário. "O presidente deveria aproveitar este encontro para ter uma breve conversa bilateral com Pedro Sánchez. Um bate-papo rápido no corredor, uma foto, alguns sorrisos", diz a especialista em relações internacionais Pía Taracena. "Isso transmitiria a mensagem de que as relações se tornaram mais tranquilas", acrescenta. Os dois líderes têm algo mais em comum: gozam de relevância e autoridade em suas respectivas regiões, onde nuances e debates internos são ofuscados pelas posições institucionais que ocupam.

Sheinbaum é, de longe, a líder de esquerda mais popular da região dentro do próprio país, uma legitimidade que dá peso à sua voz. Muitos países esperavam que a presidente mexicana assumisse esse papel de liderança no continente, e esse passo adiante também pode render frutos internamente. A presidente ainda atribui a tensão à sua tentativa de implementar uma profunda reforma eleitoral que quase lhe custou a coalizão governista. A iniciativa legislativa foi finalmente aprovada, embora atenuada, mas o moral permanece baixo dentro do partido Morena. Esse novo ímpeto para o desempenho do México no cenário internacional pode fomentar a unidade em um momento de grande fragilidade interna, com as eleições de meio de mandato se aproximando. " A questão cubana e a questão do ICE são importantes. Elas também repercutem na opinião pública interna", argumenta María José Urzúa a esse respeito.

A incursão do governo mexicano no fraturamento hidráulico para extração de gás, após anos de rejeição, adiciona um novo elemento à situação. Por um lado, o Poder Executivo visa alcançar a mesma independência energética que busca, fortalecendo laços com países progressistas. Por outro, trata-se de uma medida que gera controvérsia dentro da própria esquerda mexicana, dividida entre a proteção ambiental e a necessidade de soberania energética. Mais uma vez, dar a essa esquerda um motivo para se unir acaba sendo benéfico para ela internamente.

A incógnita, claro, é o preço que o México terá que pagar ao seu vizinho do norte, com quem compartilha uma fronteira de 3.000 quilômetros e quase US$ 900 bilhões em comércio. México e Estados Unidos estão prestes a revisar o USMCA, o acordo de livre comércio que rege as relações econômicas da América do Norte. A animosidade de Donald Trump em relação a Pedro Sánchez, diz Taracena, é de conhecimento público. Sua volatilidade torna impossível antecipar a possível reação do líder republicano ao fórum que acontecerá na Espanha na próxima semana, mas uma coisa é certa: o México é quem mais tem a perder em seu relacionamento com os Estados Unidos. O presidente mexicano terá que andar na corda bamba para evitar que uma ação de um lado tenha repercussões do outro. No entanto, ao contrário de sua contraparte do norte, Sheinbaum não é impulsiva; muito pelo contrário. Ela fez seus cálculos e decidiu agir. 

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