Operações e violência na Maré deixaram 160 mortos e escolas sem aulas pelo equivalente a ano letivo

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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21 Março 2026

Relatório aponta impactos na educação, saúde e denúncias de violações em uma década no complexo de favelas do Rio.

A reportagem é de Gustavo Kaye, publicada por Agenda do Poder, 20-03-2026.

A atuação policial no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, resultou em 160 mortes ao longo de dez anos, segundo levantamento divulgado pela organização Redes da Maré. O estudo reúne dados entre 2016 e 2025 e mostra que, no período, foram realizadas 231 operações nas 15 favelas da região.

Além das mortes, o impacto direto na rotina da população também se reflete na educação. Escolas da Maré permaneceram fechadas por 163 dias ao longo da década, o que equivale à perda de aproximadamente um ano letivo completo para estudantes da região.

O relatório aponta ainda que apenas 16 das 160 mortes registradas tiveram perícia realizada no local, levantando questionamentos sobre a apuração dos casos e a responsabilização dos envolvidos.

Violência e violações de direitos se acumulam

O levantamento contabilizou 1.538 episódios de violências e violações de direitos durante operações policiais. Entre eles, estão invasões a 318 imóveis e danos ao patrimônio relatados por 243 moradores.

Também foram registrados 226 feridos, além de casos de tortura (67), violência psicológica (135), física (178), verbal (90) e subtração de pertences (76). Os dados indicam um cenário recorrente de conflitos que afetam diretamente a vida cotidiana dos moradores.

O ano de 2019 concentrou o maior número de mortes, com 30 vítimas em 24 operações. Já 2024 teve o maior volume de ações policiais, com 42 operações e 20 mortes. Em 2025, embora o número de operações tenha caído para 16, houve aumento proporcional da letalidade, com 12 mortos — alta de 58% em relação ao ano anterior.

Uso de helicópteros e questionamentos legais

O uso de aeronaves nas operações também é destacado no relatório. Entre 2019 e 2025, ações com helicópteros concentraram 64% das mortes registradas. Apenas em 2025, metade das operações contou com esse recurso, sendo que em 25% dos casos houve utilização como plataforma de tiro.

Segundo a Redes da Maré, essa prática aumenta os riscos em áreas densamente povoadas e contraria diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na chamada “ADPF das favelas”, que prevê a redução da letalidade policial.

Em resposta, a Secretaria de Estado de Segurança Pública afirmou não comentar os dados por desconhecer a metodologia utilizada, mas declarou cumprir as determinações do STF.

Perícia, denúncias e busca por justiça

Entre os casos analisados, apenas um resultou em denúncia do Ministério Público. Trata-se da morte de Jefferson de Araújo Costa, baleado durante uma operação em fevereiro de 2024, na Avenida Brasil.

De acordo com familiares, o jovem não participava de confrontos e havia ido ao local apenas para acompanhar um protesto. O policial acusado responde por homicídio doloso triplamente qualificado e será levado a júri popular após a Justiça negar pedido para reclassificação do crime.

A Polícia Militar informou que o agente responde a Conselho de Disciplina, está afastado do serviço operacional e com porte de arma suspenso, aguardando decisão judicial.

Educação e saúde sofrem impactos diretos

Os efeitos das operações vão além da violência direta e atingem serviços essenciais. Na educação, além dos dias de fechamento, há queda na frequência escolar mesmo quando as aulas não são oficialmente suspensas, devido ao medo de confrontos.

Relatos de professores indicam que a expectativa de operações já é suficiente para afastar alunos, prejudicando o aprendizado de forma contínua. Em alguns casos, estudantes deixam de frequentar a escola por dias consecutivos.

Na área da saúde, o impacto também é significativo. Em 2025, unidades deixaram de funcionar por 14 dias, resultando no cancelamento de 7.866 atendimentos. O acesso à vacinação infantil pode ser reduzido em até 90% durante operações, comprometendo o calendário de imunização.

Segundo o relatório, mesmo quando não há mortes, as operações geram interrupções nos serviços públicos e restrições de circulação, ampliando a vulnerabilidade da população local.

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