21 Março 2026
"A experiência franciscana, nascida como proposta aparentemente anti-institucional, gera rapidamente uma ordem estruturada, capaz de impactar profundamente a Igreja e a sociedade da época. O livro convida a interpretar essa transformação não como uma traição à intuição original, mas como uma tensão constitutiva do próprio franciscanismo: a inversão não permanece um gesto isolado, mas se torna um princípio operacional, capaz de remodelar práticas, linguagens e formas de vida compartilhadas. Talvez a característica mais marcante dessa experiência seja o recurso sistemático à inversão: da economia, das relações socioinstitucionais e de gênero".
O artigo é de Marina Montesano, historiadora italiana, publicado por il manifesto, 19-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
No ano passado acompanhei o lançamento de inúmeras publicações, algumas de caráter biográfico, dedicadas a São Francisco; e este ano de 2026, que marca o oitavo centenário da sua morte e que o Papa Leão XIV proclamou Ano Jubilar Franciscano, certamente não será diferente. Vamos começar, então, com uma nova biografia que está chegando às livrarias, escrita por Antonio Musarra e intitulada Il mondo secondo Francesco d’Assisi (O mundo segundo Francisco de Assis, il Mulino, 414 pp., €24). Ao delinear seu método, Musarra parte de uma constatação: a vida de Francisco chegou até nós por meio de uma dupla mediação: as palavras a ele atribuídas e a narrativa hagiográfica que organizou sua memória.
Il mondo secondo Francesco d’Assisi, de Antonio Musarra. (2026, il Mulino)
A escolha feita consiste em privilegiar o primeiro nível, ou seja, os escritos — Testamentum, Regras, Cartas, Admonitiones, Laudes — considerados o ponto de máxima proximidade possível com a experiência histórica. Esse corpus certamente não constitui um sistema doutrinal coerente nem uma narrativa unitária. São textos situados, nascidos de contingências precisas: governar uma fraternidade em expansão, advertir, preservar uma intuição evangélica, defender uma orientação. Sua natureza fragmentária torna-se, assim, um dado metodologicamente fecundo: não uma lacuna a ser preenchida, mas sim um índice das urgências concretas que marcaram a experiência franciscana. As legendae, por sua vez, são lidas como textos orientados, produzidos dentro de exigências institucionais e identitárias da Ordem e da Igreja. Elas preservam a memória, mas ao mesmo tempo a moldam. Por essa razão, Musarra evita dois extremos: por um lado, a aceitação ingênua da história como uma crônica; do outro, uma redução puramente retórica que dissolve todos os dados em uma construção ideológica.
Escrever mais uma biografia de Francisco é certamente um desafio; no entanto, o caminho escolhido pelo autor é original. A narrativa resultante aceita a descontinuidade e a incompletude como condições estruturais da pesquisa histórica. Não se trata de reconstruir artificialmente um continuum biográfico, mas sim de interrogar, caso a caso, a função dos textos e o grau de proximidade que eles proporcionam em relação à experiência original.
Além da imediatez da biografia, o interesse pela figura do santo de Assis também se manifesta em iniciativas de coletâneas, como mostra uma publicação recente com curadoria de Valerio de Cesaris, Daniele Menozzi, Andrea Possieri e Adriano Roccucci, intitulada Pensare Francesco. Storia, memoria e uso politico (Pensar Francisco. História, memória e uso político, Il Mulino, 444 pp., €40). O projeto do livro não está ligado ao aniversário; na realidade, o livro surge de um projeto concebido entre 2021 e 2022, que depois resultou em uma conferência e, finalmente, em uma publicação.
O objetivo da obra não é explorar o Francisco no século XIII, mas compreender como sua imagem e memória foram utilizadas na cultura e na política entre os séculos XIX e XX. A figura de Francisco não vive apenas nos documentos que a narram: ela também circula como memória, ou seja, como um conjunto de imagens selecionadas e reativadas por necessidades identitárias, comunitárias e institucionais. Nessa perspectiva, "história" e "memória" não coincidem: a primeira visa reconstruir criticamente, a segunda tende a atualizar, a fixar um sentido compartilhado e torná-lo utilizável no presente, frequentemente em uma sociedade na qual os sujeitos capazes de se apropriar do passado se multiplicam.
Pensare Francesco. Storia, memoria e uso politico, de Valerio de Cesaris, Daniele Menozzi, Andrea Possieri e Adriano Roccucci. (2025, Il Mulino)
Nesse contexto, a "questão franciscana" surge como um verdadeiro teste para a historiografia moderna. Em torno da vida do santo se mensuraram, com grande intensidade, ambições e limitações de uma pesquisa histórica que aspira descrever os eventos em seu aspecto real, sem se deixar guiar pelas exigências edificantes ou apologéticas. O tema franciscano, precisamente por sua riqueza e por sua carga simbólica, evidenciou as questões críticas da prática do historiador: como avaliar testemunhos, como distinguir entre construção narrativa e reconstrução, como situar os textos em seu contexto de produção.
O confronto, contudo, não foi apenas metodológico. O texto destaca a tensão entre uma historiografia que reivindica critérios "científicos" e uma interpretação confessional que tende a subordinar a pesquisa a exigências da ortodoxia e de representação eclesial. Um quadro aparentemente lineal, mas na realidade mais complexo, se considerarmos que mesmo as narrativas hagiográficas podem se tornar informativas quando lidas com instrumentos críticos apropriados (lembremos, nesse sentido, o caso de Tomás de Celano). Nessa base se insere o tema moderno da “época dos aniversários”. Os aniversários funcionam como dispositivos de memória coletiva: consagrações, monumentos, festas, celebrações públicas, até formas mais amplas de tradição “construída”, frequentemente ligadas às exigências de coesão da modernidade política. Nesse cenário, a Igreja atua como ator decisivo: utiliza o calendário litúrgico, os jubileus ordinários e extraordinários e, sobretudo, os documentos solenes para orientar a imagem do santo. A encíclica Rite expiatis (1926) é citada como um ponto de virada: reafirma Francisco como alter Christus e se posiciona contra leituras “secularizadas” do franciscanismo.
Daqui emerge a pluralização das imagens públicas de Francisco, especialmente entre os séculos XIX e XX: um santo “social” ou “patriótico”, símbolo de identidades nacionais, recurso polêmico em conflitos culturais. O texto também mostra como, no contexto das guerras e do pós-guerra, essas apropriações oscilaram entre mobilização e reposicionamento: por um lado, o uso político e nacional; por outro, a tentativa de transformá-las em um modelo evangélico aplicável a um horizonte de paz e diálogo com o mundo contemporâneo.
Uma segunda miscelânea digna de destaque se foca, ao contrário, no século XIII: trata-se de Giullare di Dio. Lo sguardo rovesciato di Francesco d’Assisi sul mondo (O Bobo de Deus. O olhar invertido de Francisco de Assis sobre o mundo), editado por Carla Maria Bino e Nicolangelo D’Acunto (Carocci, 374 pp., €39).
A definição de Francisco de Assis como ioculator Domini, “o bobo de Deus”, não deve ser entendida como um simples epíteto sugestivo, mas como uma fórmula capaz de condensar a originalidade e o poder disruptivo da experiência franciscana. O livro assume essa expressão como chave interpretativa para uma profunda transformação cultural, que afeta não apenas a espiritualidade, mas também as linguagens, as formas da comunicação e as práticas sociais na baixa Idade Média.
Nesse sentido, o franciscanismo aparece como um dos polos em torno dos quais as formas de representar o sagrado e torná-lo acessível a um público amplo se reestruturam, contribuindo para transformar a relação entre religião, cultura e sociedade. Essa forma de comunicação se alicerça sobre um princípio que o livro identifica na sancta simplicitas. Longe de ser sinônimo de ingenuidade, a simplicidade indica a ausência de separação entre o que se é e o que se mostra. Nessa perspectiva, a imitatio Christi não assume a forma de "fingir que", mas sim a de uma adesão vivida, que elimina a distância entre modelo e comportamento.
O elemento decisivo dessa transformação é identificado na dimensão pública do modo de agir de Francisco. A referência ao teatro aqui não se refere a uma técnica ou a uma arte codificada, mas sim a uma modalidade de presença: Francisco age diante dos olhos dos outros, tornando visível sua orientação interior por meio de comportamentos imediatos, compreensíveis, embora muitas vezes radicais.
A experiência franciscana, nascida como proposta aparentemente anti-institucional, gera rapidamente uma ordem estruturada, capaz de impactar profundamente a Igreja e a sociedade da época. O livro convida a interpretar essa transformação não como uma traição à intuição original, mas como uma tensão constitutiva do próprio franciscanismo: a inversão não permanece um gesto isolado, mas se torna um princípio operacional, capaz de remodelar práticas, linguagens e formas de vida compartilhadas. Talvez a característica mais marcante dessa experiência seja o recurso sistemático à inversão: da economia, das relações socioinstitucionais e de gênero.
Com relação a este último, em um dos ensaios, Isabella Gagliardi explora se a categoria do "novicio louco", aplicada por uma fonte a Francisco, possa ser estendida ao franciscanismo feminino. Não por acaso, dessa forma, "Inversões" é o título da primeira seção; "Dispositivos" (referindo-se a Foucault para indicar a rede heterogênea e estratégica de discursos, instituições, leis e práticas que organiza o poder, o conhecimento e a produção da subjetividade) é o título da segunda; "Formas de representação e permanências contemporâneas" é o título da terceira, que acaba por levar de volta o discurso sobre o presente. Sinal de um legado forte, em relação ao qual evidentemente é necessário continuar a debater.
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