A Santa Sé, as guerras de Trump, a objeção. Artigo de Daniele Menozzi

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18 Março 2026

As guerras de Trump: para o presidente "emérito" dos bispos estadunidenses, a violação do direito internacional é um ato eticamente ilícito, que pode ser desobedecido. O Papa insiste na não violência.

O artigo é de Daniele Menozzi, historiador do cristianismo e professor emérito da Normale di Pisa, publicado por Prima Loro, 18-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

Nestes dias, celebra-se o centenário da criação do Ordinariado Militar na Itália. Na realidade, havia sido ativado, apesar da postura oficialmente separatista da época liberal, durante a Primeira Guerra Mundial, apenas para ser abolido ao seu término. Refundado pela Santa Sé em 6 de março de 1925, foi reconhecido pelo regime fascista por meio de uma lei de 11 de março do ano seguinte.

Tratava-se de uma das muitas concessões do Duce à Igreja. Elas acabariam culminando nos acordos de Latrão, assinados por Pio XI na ilusória convicção de que poderiam servir como base jurídico-política para a construção do reino social de Cristo na península. Esses acordos também regulamentavam o Ordinariado, com uma normativa que a revisão da Concordata de 1984 não alterou.

As comemorações do centenário culminaram no encontro com o Papa em 7 de março passado. O contexto internacional, marcado pela guerra lançada pelos Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica do Irã — com o envolvimento de outros países do Oriente Médio — tornava a ocasião particularmente propícia para esclarecer as posições do Vaticano sobre os conflitos em curso.

De fato, é difícil não a associar à entrevista concedida em janeiro passado pelo Ordinário Militar estadunidense, Timothy Broglio, cuja autoridade é atestada pelo fato de ter encerrado pouco antes as funções de presidente da Conferência episcopal dos EUA. Naquele momento, o presidente Trump ameaçava invadir a Groenlândia.

O arcebispo então lembrou que era lícito a um soldado cristão — apesar das óbvias dificuldades que iria enfrentar — desobedecer a ordens imorais. Apresentando o ataque militar à ilha dinamarquesa como um caso desse tipo, Broglio oferecia uma interpretação ampla do Artigo 2313 do Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1997. Esse artigo estipulava, no contexto da "guerra justa", que um soldado crente devia se recusar ao dever da obediência a seus superiores quando lhe fosse ordenado para realizar "ações deliberadamente contrárias ao direito dos povos e aos seus princípios universais".

Como ficava evidente pelo contexto, a referência era ao direito internacional humanitário (atacar não combatentes, feridos ou prisioneiros; exterminar um povo, uma nação ou uma minoria étnica; destruir uma cidade ou uma região inteira).

O Ordinário estadunidense acrescentava um ponto a esse argumento: também a violação do direito internacional constituía um ato eticamente ilícito, que podia ser desobedecido. É verdade que seu discurso introduzia um limite, pois a imoralidade era relacionada a um caso específico: a invasão de um Estado soberano e aliado. Mas, como Severino Dianich recordou nestas mesmas páginas, o discurso inevitavelmente tinha um valor geral. Aplicava-se a todas as guerras de agressão.

As mídias oficiais da Santa Sé, embora sem dar destaque especial à entrevista de Broglio, a divulgaram. Isso levanta a questão de compreender o parecer do Vaticano sobre a guerra recentemente iniciada por Trump contra o Irã. Esse parecer pode ser deduzido a partir de uma entrevista concedida em 4 de março pelo Secretário de Estado, Cardeal Parolin, ao diretor do L'Osservatore Romano. Naquele momento, o governo estadunidense justificava o início das hostilidades como uma resposta necessária à recusa do Irã em negociar a produção de mísseis balísticos.

Em consonância com as posições expressas sobre o assunto por João Paulo II, o cardeal declarava que qualquer guerra preventiva é imoral.

Mas ele também apresentava um critério mais amplo de avaliação sobre a guerra. Afirmava que ela demonstrava o colapso da tentativa, construída após a Segunda Guerra Mundial, de transformar as Nações Unidas no fórum para a resolução pacífica das disputas entre os Estados. O uso da força militar havia substituído a justiça e o direito internacional na “convicção de que a paz só pode ser alcançada após a aniquilação do inimigo”.

A porta-voz do presidente dos EUA, em consonância com o estilo flutuante e contraditório que já se tornou habitual em suas declarações públicas, ofereceu em seguida uma explicação em viés defensivo para a guerra. Segundo ela, era necessária para impedir a repetição dos assassinatos de concidadãos perpetrados durante anos pelo regime de Teerã. Essa tentativa de enquadrar as operações militares no Irã no quadro dos cânones da "guerra justa" parece bastante desajeitada, considerando o belicismo desenfreado dos discursos presidenciais. Estamos diante — como também afirmou o Ministro da Defesa italiano — de uma flagrante violação do direito internacional, ou seja, de uma guerra que a Santa Sé considera ilícita.

Seria, portanto, aplicável ao conflito em curso a posição expressa por Broglio sobre a recusa em obedecer a ordens imorais? A posição atual do Vaticano sobre a objeção de consciência desponta na homilia do Cardeal Parolin, proferida em 3 de março passado, justamente na missa celebrada pelo centenário do Ordinariado Militar italiano.

Na ocasião, ele afirmou que, em todo cenário de guerra, o dever de seus membros é manter viva a "consciência militar" do soldado, por ser o âmbito em que se joga o discernimento dos valores fundamentais do cristianismo. A Igreja inclui a lealdade ao Estado, mas em seu ápice coloca o respeito pela dignidade humana. O cardeal, ao que parece, se ateve ao ditame do Catecismo: a objeção de consciência diz respeito às violações do direito internacional humanitário.

O discurso de Leão XIV aos representantes do Ordinariado, contudo, não abordou a questão da consciência. O Papa argumentou que a guerra é inevitável por causa do pecado em que os homens vivem, acrescentando, porém, que, graças à vinda de Cristo, a violência pode ser superada. E indicou aos capelães como buscar este objetivo: "Proteger a convivência pacífica, intervir nas calamidades, atuar nas missões internacionais para preservar a paz e restabelecer a ordem".

Trata-se de uma posição inovadora, pois o pontífice — embora não tenha mencionado a sacralização da violência bélica, prática comum entre capelães militares durante as duas guerras mundiais — evitou cuidadosamente qualquer possível legitimação daquele nacional-catolicismo que constituiu a ideologia de referência do Ordinariado Militar na Itália e nos vários países do mundo. Os capelães estão agora a serviço das intervenções humanitárias lideradas pelas Nações Unidas.

Deve-se então concluir que a Santa Sé ainda não está preparada para aquela integração ao Catecismo realizada pelo Ordinário Militar estadunidense? Como demonstram inúmeras declarações, a principal preocupação de Prevost é promover uma pedagogia adequada da não violência dentro da Igreja. Parece-me que as intervenções da Santa Sé podem ser interpretadas sob essa perspectiva. Por ora, trata-se de se ater ao Catecismo, enquanto se aguarda que todo o povo dos fiéis tenha amadurecido a ligação indissociável entre a paz e o Evangelho. Só então se poderá vislumbrar a recusa do crente não apenas de ordens que violam o direito humanitário, mas também daquelas que violam o direito internacional.

Enquanto isso, o próprio Papa, em seu discurso ao corpo diplomático em janeiro passado, apelou veementemente aos Estados para que reconheçam o direito à objeção de consciência em toda a sua extensão: "Quer se trate da recusa do serviço militar em nome da não-violência, quer da negação de práticas como o aborto ou a eutanásia por médicos e profissionais de saúde."

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