Vozes de Emaús: Romero, mártir da caminhada nas frestas da Cristandade. Artigo de Marcelo Barros

Arte: Lauren Palma | IHU

18 Março 2026

"Nesse ano, a celebração da memória do martírio de Oscar Romero ocorre na semana anterior às celebrações pascais. Tanto a memória da Páscoa de Jesus, como a de Romero não pode limitar-se a ofícios litúrgicos e pregações bonitas. Precisamos revestir-nos da mesma profecia de Jesus e de Romero para defender os povos crucificados de nossos dias e colocar-nos como testemunhas da ressurreição, junto às vítimas das guerras e tragédias que o Capitalismo provoca no mundo inteiro"

O artigo é de Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor. Assessora movimentos sociais e comunidades eclesiais de base e é membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo.


Marcelo Barros (Foto: Arquivo pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

A cada ano, o 24 de março nos traz a memória do martírio de Oscar Romero, arcebispo de El Salvador. Em um dos países de maior desigualdade social, na América Central, ao ver a injustiça estrutural da sociedade dominante, a violência contra comunidades do campo e de periferia urbana, cometidas por milícias, protegidas e patrocinadas pelo governo, Romero passou a frequentar comunidades e grupos empobrecidos,  levantou a sua voz, em defesa do povo oprimido e passou a ser odiado pelas elites e pelos militares que as defendiam. No dia 24 de março de 1980, quando celebrava a missa na capela de um hospital, um atirador entrou e o alvejou no coração.

Na Igreja, muitos se perguntam se seria tarefa de um bispo assumir a função de defensor dos mais empobrecidos, a ponto de provocar conflito com o governo e com a elite do país. Para a maioria do episcopado e do clero, não. Mesmo bispos e padres que não concordam com ditaduras e lamentam a violação de direitos humanos, pensam que não devem contrapor-se ao poder político, porque isso criaria obstáculos para o cumprimento da missão da Igreja naquele país. Na época de Romero, assim pensavam o papa João Paulo II e a maioria dos bispos de El Salvador.

Em 1979, na audiência em que recebeu os bispos daquele país, no momento em que Romero foi cumprimentá-lo, o papa lhe disse: “Ajude aos pobres, defenda os oprimidos, mas não crie conflitos com o governo”.

Em janeiro de 1980, Romero foi a Roma para falar em uma universidade. Pediu audiência ao papa João Paulo II e este não o recebeu. Os jornais de El Salvador noticiaram isso. O governo compreendeu que o Vaticano não apoiava o arcebispo e menos de dois meses depois, Romero foi assassinado. Como Jesus Cristo, foi assassinado pelo poder político, mas, com a conivência de autoridades religiosas que o deixaram sozinho.   

Atualmente, a maioria do clero, dos bispos e de não poucos grupos católicos tornou-se, hoje, ainda mais conservadora do que era, no tempo de Romero. Nas paróquias e dioceses, a cultura continua a ser de Cristandade colonial. Mesmo dioceses que tinham caminhado para o modelo sinodal voltaram a ver o clero e a hierarquia se encastelarem em seus cargos de poder e  tornarem a Igreja mais voltada para si mesma.

O maior entrave para que a Igreja Católica retome a profecia de Romero como caminho de santidade não é a extrema-direita. A ala católica tradicionalista sempre existiu e não conseguiu evitar, na década de 1960, o Concílio Vaticano II e, na América Latina, em 1968, a conferência episcopal de Medellín. Nas décadas de 1970 e 1980, não impediu o surgimento e o florescimento das comunidades eclesiais de base e pastorais sociais. Hoje, esse clero e grupos tradicionalistas continuam o seu discurso e sua atuação, mas não são eles que impedem a caminhada. Essa é inviabilizada pela falta de ousadia e coragem daqueles e daquelas que se consideram da caminhada eclesial provocada pelo Concílio Vaticano II, mas, para não ter conflitos, aceitam fortalecer a Igreja-Cristandade.  

Nesse ano, a celebração da memória do martírio de Oscar Romero ocorre na semana anterior às celebrações pascais. Tanto a memória da Páscoa de Jesus, como a de Romero não pode limitar-se a ofícios litúrgicos e pregações bonitas. Precisamos revestir-nos da mesma profecia de Jesus e de Romero para defender os povos crucificados de nossos dias e colocar-nos como testemunhas da ressurreição, junto às vítimas das guerras e tragédias que o Capitalismo provoca no mundo inteiro.  Isso não pode ser feito se, ao mesmo tempo que lamentamos a violência cruel do Império e suas consequências, somos coniventes em perpetuar o modelo de Igreja Cristandade, cuja lógica é a do poder e vê Deus como todo-poderoso e legitimador da sociedade dominante.

Enquanto a Igreja se mantiver na lógica da Cristandade não tem como compreender e aceitar as palavras de Romero: “Ser a favor da vida ou da morte. Cada dia, vejo com mais clareza que essa é a opção a seguir. Nisso, não existe neutralidade possível. Ou servimos à vida, ou somos cúmplices da morte de muitos seres humanos (e da cadeia da vida na Pachamama). Aqui se revela qual é a nossa fé: ou cremos no Deus que é Vida, ou usamos o nome de Deus, servindo aos carrascos da morte” [1].

Notas

[1] - Cf. citado por CASALDÁLIGA, Pedro. A Política morreu. Viva a Política. Agência Latino-americana Mundial, 2008, p. 11.

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