O fim da ordem mundial. Artigo de Raniero La Valle

Foto: Daniel Torok/The White House/Flickr

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03 Março 2026

"A ordem pública global, assim comprometida, é substituída pelo poder arbitrário de apenas dois ou três indivíduos, exercendo poder irrestrito, como o homem da "anomia", o homem desumano e sem lei de quem São Paulo falou aos habitantes de Tessalônica", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado em Prima Loro, 01-03-2026.

Eis o artigo. 

O extermínio premeditado da família do Aiatolá Khamenei (ele próprio, sua filha, seu genro e uma neta) e o desencadeamento da ofensiva terrorista aérea e com mísseis contra o Irã, apelidada de "o rugido do leão", marcam o fim da ordem pública global. Não era uma ordem justa nem pacífica, mas tinha seu álibi no direito internacional, que Trump, na véspera de seus ataques, havia declarado caducado, sendo suficientes sua própria ética presumida e onipotência. Era uma ordem pública que, no entanto, obedecia a uma prática compartilhada, já que, tanto em democracias quanto em autocracias, sempre resultava de uma relação entre governos e Estados para a qual ainda se podia presumir uma certa racionalidade, mesmo que fosse uma razão de Estado.

Agora, está sendo substituída por uma ordem em que aqueles que decidem a vida e a morte de populações inteiras e os riscos que o mundo enfrenta são, por um lado, uma potência tradicional como a Rússia e, por outro, dois assassinos em série: um, Trump, que age a título pessoal, sem qualquer supervisão do Congresso ou mesmo o consentimento de seus próprios seguidores; e o outro, Netanyahu, movido pelo desejo de derrotar o Irã, um objetivo que ele persegue pessoalmente há quarenta anos, como ele mesmo afirmou, com a ajuda de espiões e serviços de inteligência.

E o fato de isso ter acontecido de surpresa e por meio de engano, aproveitando-se das negociações de paz em curso e de uma clara propensão ao acordo, diminui a dignidade de seus dois países. Isso é ainda mais grave para Israel porque, ao contrário dos Estados Unidos, cuja invulnerabilidade é garantida por um exército como o mundo nunca viu antes e que, segundo a apologética de Trump, é invencível, a segurança e a subsistência de Israel dependem em grande parte do consenso e da solidariedade do mundo inteiro, devido à admiração que o povo judeu desfruta, também como reparação pelo horrível genocídio do qual foi vítima nas mãos de um mundo europeu "civilizado" e racista.

A ordem pública global, assim comprometida, é substituída pelo poder arbitrário de apenas dois ou três indivíduos, exercendo poder irrestrito, como o homem da "anomia", o homem desumano e sem lei de quem São Paulo falou aos habitantes de Tessalônica. E as guerras não são mais travadas por conquista, mas por "mudança de regime", sempre que uma ordem política não for aceitável para o governante vigente.

E o que nos resta fazer? Continuar a lutar para que todas as nações possam ter sistemas de liberdade, pluralismo e paz, para que não sirvam mais de pretexto para que os poderosos decapitem, matem de fome e destruam pessoas.

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