25 Fevereiro 2026
"Infelizmente, a crueldade é um ato belicoso que só a raça humana conhece! Janeiro foi, nesse sentido, um mês do cão", escreve Edelberto Behs, jornalista.
Eis o artigo.
Ampliemos os protestos que paulistas levaram às ruas, e a indignação, motivados pelos maus tratos resultantes em morte, que quatro adolescentes, segundo a polícia, aplicaram ao cão Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis. Ele agonizou dias, antes de ser sacrificado. Orelha, dez anos de idade, era mantido pela comunidade, tinha casa armada na rua, reconhecido até mesmo pela Associação de Moradores local.
A Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle) apura a morte do animal e seus autores, além da coação em que três adultos estariam envolvidos - dois empresários e um advogado, que seriam pais e tio dos adolescentes - na tentativa de interferir no resultado do processo em favor de interesse próprio. Ao que tudo indica, são filhos de país abastados (ou seriam abostados), incapazes de educar para a não-violência, seja humana ou animal. E não devem sentir vergonha pela coação exercida, querendo abafar o caso, que ganhou abrangência nacional pela internet.
A notícia aparece toda no tempo condicional, como cabe no caso, porque o inquérito tramita sob sigilo e os adolescentes ficam no anonimato (embora circulem imagens dos quatro nas redes sociais), protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Mesmo sem conhecê-los, dá para dizer que são uns psicopatas, que praticaram o que o coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Fábio Costa Pereira, classificou, em entrevista à Rádio CBN, como “zoossadismo”. As agressões ocorreram no início do mês, mas o caso só chegou ao conhecimento da polícia em 16 de janeiro. O cão, agonizante, foi levado a clínica veterinária e submetido à eutanásia tamanha a gravidade dos ferimentos.
A oitiva dos adolescentes ainda não está agendada, mas deverá ocorrer nesta semana. Dois deles estavam nos Estados Unidos e só retornaram ao Brasil na quinta-feira, 29 de janeiro. A viagem estaria programada há mais tempo, eliminando a suspeita de saída estratégica para o caso esfriar. Será? De qualquer forma um bom exemplo dos pais seria o cancelamento da viagem.
Também há a suspeita da tentativa de afogamento – não necessariamente pelos mesmos adolescentes - do cachorro Caramelo, que era vizinho do Orelha e também gozava dos cuidados da comunidade. Caramelo foi mais ágil e conseguiu se libertar dos agressores, foi socorrido em clínica e adotado.
De Santa Catarina, os olhares se voltam para Toledo, no Paraná, onde Abacate, cão cuidado por moradores do bairro Tocantins, levou um tiro no abdômen. A bala perfurou o intestino e afetou os rins. Mesmo conduzido a hospital veterinário, Abacate não resistiu e veio a morrer. A polícia investiga quem foi o autor do disparo.
E de Santa Catarina para Campo Bom, no Rio Grande do Sul, onde um policial militar, durante abordagem no bairro Barrinha, baleou cão na noite de terça-feira, 27 de janeiro. Segundo nota da Brigada Militar, “durante a ação, um cão que se encontrava em via pública investiu contra a guarnição, ocasionando lesão da perna direita de uma policial feminina, em razão de mordida”. Segundo a vereadora Kayanne Braga, que divulgou o episódio, um policial teria dado um passo para trás, pisando na pata de Negão. O cachorro teria gritado, mas não avançado na policial.
São relatos de casos ocorridos em janeiro, no Sul, nos três Estados mais brancos do país! Os próprios cães vitimados, cães comunitários, cães de rua, são exemplos para humanos. Infelizmente, a crueldade é um ato belicoso que só a raça humana conhece! Janeiro foi, nesse sentido, um mês do cão.
No entanto, traz ânimo à humanidade a bondade e a generosidade das comunidades que tão bem tratam seus cães. É um contraponto à barbárie!
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