09 Fevereiro 2026
"Sejam visionários. Há momentos em que o fato de Donald Trump ser, acima de tudo, um homem de negócios, um inescrupuloso empresário, é um consolo. Pensem se ele fosse apenas um fascista. Mas e nós, enquanto isso... onde estávamos?", escreve Concita De Gregorio, jornalista italiana, em artigo publicado por La Repubblica, 26-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Um dia, quando tivermos que relembrar este período, ou quando alguém o fizer por nós, talvez de tudo o mais se poderá não falar, mas disso certamente não; ficará nos anais. Foi o dia em que a palavra Paz se tornou uma reputação de marca à qual se associar mediante pagamento.
Uma espécie de clube de xadrez, um clube exclusivo ao qual pagar uma “joia” de um bilhão de dólares — apenas um bilhão, por três anos, que negócio! — para se intitular membro do Conselho da Paz, não é o máximo! O clube das pessoas de bem que querem “a paz no mundo” como uma candidata a Miss Universo, como uma criança escrevendo para o Papai Noel. Mas esses são chefes de Estado e, coincidentemente — na pesca de arrastão também se pegam canalhas —, são precisamente aqueles líderes daqueles países e daqueles governos que sentem a maior ojeriza pela paz e pelo direito dos quais uma eventual paz poderia derivar. Eles se sentem incomodados por essa cansativa ladainha das regras, assim como os incomoda um ativista em Minneapolis, um jornalista em Gaza ou alguém de esquerda que vai às ruas exigir justiça quando no mundo, vejam bem, a direita venceu e a direita — a força, o dinheiro — manda.
O fato de Netanyahu poder estar no conselho de paz já diz tudo: aquele que decidiu o genocídio se torna um pacifista por cota, um membro a pagamento. Em Davos, mostraram imagens de Gaza transformada em um gigantesco negócio imobiliário: uma propaganda para investidores.
Simulações obscenas enquanto pessoas morrem. Quando estiver completamente livre daquele incômodo representado por seus habitantes, o povo palestino, Gaza será perfeita para a construção de arranha-céus: como em Doha, Abu Dhabi.
Vocês conseguem imaginar o lucro que se poderia obter? Então vamos lá, paguem a taxa de associação, aquele mísero bilhão de dólares, e terão os benefícios divididos proporcionalmente.
Sejam visionários. Há momentos em que o fato de Donald Trump ser, acima de tudo, um homem de negócios, um inescrupuloso empresário, é um consolo. Pensem se ele fosse apenas um fascista. Mas e nós, enquanto isso... onde estávamos?
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