24 Janeiro 2026
"Como também observou Viesti numa audiência no Senado, em vez de se proceder a uma discussão sobre quais deveriam ser os Serviços Sociais Mínimos a serem garantidos homogeneamente em todo o território nacional, eles estão sendo definidos com base na situação existente, que, como se sabe, é altamente heterogênea no aspecto territorial, cristalizando assim as disparidades, em vez de as reduzir"
O artigo é de Chiara Saraceno, membro honorária do Collegio Carlo Alberto de Turim, e professora emérita do Wissenschaftszentrum für Sozialforschung de Berlim e da Universidade de Turim, em artigo publicado por La Stampa, 21-01-2026.
Eis o artigo.
O relatório da Oxfam apresentado nesta semana em Davos mostra que a desigualdade no mundo está aumentando não apenas em termos de renda, mas especialmente em termos de riqueza, impactando a estabilidade das democracias, onde existem. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que os mais ricos têm uma possibilidade cada vez maior de influenciar as decisões políticas e, às vezes, até mesmo de entrar diretamente na política. Os Estados Unidos da presidência de Trump talvez sejam o exemplo mais extremo disso, embora não o único, entre as democracias, incluindo a pretensão de formar uma contra-ONU com participação por convite e pagamento de assento. O segundo motivo é que desigualdades excessivamente amplas produzem conflitos, alienação (abstenção eleitoral) ou escolhas por miragens populistas. Ambos os fenômenos, por sua vez, reduzem a capacidade de uma sociedade de melhorar as condições gerais para todos, valorizando plenamente as capacidades existentes.
A Itália não é exceção. Ao lado dos dados já conhecidos sobre a persistência da pobreza absoluta diante do aumento da riqueza dos mais ricos, da pobreza apesar do trabalho, do alastramento da pobreza educacional e das taxas de emprego ainda muito baixas entre jovens e mulheres, o Relatório destaca dois fenômenos que caracterizam as desigualdades no país e representam uma potencial ameaça à democracia: as disparidades econômicas, sociais e de oportunidades entre diferentes regiões, e o peso crescente da herança na composição da riqueza. Em relação ao primeiro ponto, além das disparidades "tradicionais" e não resolvidas entre o Centro-Norte e o Sul, as disparidades entre as grandes cidades e as áreas periféricas estão se tornando cada vez mais importantes. Existe uma "Itália do meio", como a define Filippo Barbera, entrevistado no Relatório, que inclui não apenas as áreas do interior tradicionalmente marginalizadas em relação aos circuitos do desenvolvimento, mas também cidades de médio porte, regiões perto de montanhas e zonas urbano-rurais, que nos últimos anos perderam centralidade econômica e política, sofrendo com estagnação econômica, desindustrialização e perda populacional e de serviços. É nesses locais que se concentraria também o voto de protesto antissistema.
Em relação ao segundo fenômeno, o Relatório destaca como quase dois terços da riqueza dos bilionários italianos sejam resultado de heranças. O fluxo anual de todas as transferências de riqueza — heranças e doações — quase dobrou entre 1995 e 2016, passando de 8,5% para 15% da renda nacional, e também se tornou mais concentrado. Além disso, as heranças individuais de pelo menos um milhão de euros cresceram de 18,7% para 25% do valor total dos legados no mesmo período.
Cabe ressaltar que, desde 2017, heranças até esse valor são isentas de qualquer forma de tributação se o herdeiro for para cônjuge, filho ou neto direto, um tratamento entre os mais generosos da Europa. A essa riqueza herdada podem ser somadas as doações em vida e os seguros de vida feitos aos herdeiros pelo falecido, também isentos de impostos. Como observa o Relatório da Oxfam, o aumento do peso das heranças e sua reduzida tributação diminuíram o dinamismo econômico e social, limitando a igualdade de oportunidades e a mobilidade intergeracional.
Aliada às desigualdades territoriais, acentua o impacto gerador de diferença da origem social e reforça a transmissão intergeracional da desigualdade, de uma forma cada vez menos compatível com o princípio democrático da igualdade de oportunidades. Não só as condições econômicas e sociais da família, mas também aquelas dos locais de nascimento e de criação se transformaram cada vez mais um destino, pouco ou nada corrigido e combatido por políticas que promovam um reequilíbrio. Pelo contrário, como observa o Relatório, as políticas do atual governo parecem mais propensas a confirmar, senão mesmo acentuar, as disparidades. Isso também pode ser observado na discussão sobre os níveis essenciais de desempenho, que deveria ser um pré-requisito para a eventual implementação da autonomia diferenciada. Como também observou Viesti numa audiência no Senado, em vez de se proceder a uma discussão sobre quais deveriam ser os Serviços Sociais Mínimos a serem garantidos homogeneamente em todo o território nacional, eles estão sendo definidos com base na situação existente, que, como se sabe, é altamente heterogênea no aspecto territorial, cristalizando assim as disparidades, em vez de as reduzir.
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