Este episódio dos Destaques da Semana analisa a desordem mundial em 2026, marcada pelo expansionismo dos EUA na Groenlândia e a ascensão de uma "lógica gângster" que substitui a diplomacia pela força bruta. O debate aborda a fragmentação da OTAN, a aproximação tática entre Trump e Putin e o risco existencial do Brasil diante de um cenário de instabilidade institucional e polarização. Em contraste, exploramos a resistência ética do Papa Leão XIV em defesa do Direito Internacional e dos vulneráveis. Concluímos com um chamado ao pensamento utópico como bússola essencial para imaginar alternativas à barbárie e reconstruir a dignidade humana.
“O mundo — se é que existe algo como 'o mundo' — foi abalado nos últimos dias porque o desequilibrado presidente americano ordenou o sequestro de um de seus colegas e agora afirma querer ocupar os dois milhões de quilômetros quadrados da terra mais fria do planeta e, talvez, para compensar, uma ou duas ilhas tropicais. Por isso, declaramos — e até nos sentimos — surpresos e assustados com essa demonstração de poder promovida pelos Estados Unidos nos últimos dias. Mas talvez estejamos enganados, e tudo isso seja uma demonstração brutal de sua recém-descoberta impotência”. É a fraqueza do império. É assim que Martín Caparrós começa sua análise sobre o recente expansionismo militar e a retórica agressiva dos Estados Unidos, sob a administração Trump, que, segundo aponta, não são sinais de força, mas sim uma "confissão gritante de impotência". O escritor defende que o país já não consegue exercer a sua hegemonia através da diplomacia, da economia ou da influência cultural, o soft power, restando-lhe apenas a força bruta dos bombardeios e das intervenções como último recurso de uma potência que perdeu o controle sobre o xadrez mundial.
Caparrós afirma que a Doutrina Donroe tenta exercer o domínio imperialista sobre o "quintal" latino-americano por puro desespero. O texto descreve os Estados Unidos como uma "fera ferida" ou uma potência "senil" que se recusa a aceitar que o seu tempo como senhor absoluto da Terra acabou, especialmente face à ascensão da China. O bombardeio, neste contexto, é visto como um ato caro e incerto de quem já tentou tudo o resto e falhou. O jornalista argentino ainda faz um aviso soturno: o fim de um império é uma jornada sem mapas e que raramente termina de forma pacífica. Ao abandonar o direito internacional e as regras que eles próprios ajudaram a criar, os Estados Unidos mergulham o mundo num estado de incerteza onde a única língua que resta é a da violência. A análise de Caparrós sugere que estamos testemunhando os "desvarios" de um gigante que, ao sentir que já não é amado ou respeitado, opta por ser temido, mesmo que isso acelere a sua própria decadência.
Nos anos 1940, o filósofo e sociólogo Max Horkheimer, membro da Escola de Frankfurt, esboça a “teoria do racket”. Um termo que não tem tradução fácil, mas que poderíamos traduzir como "máfia". O teórico alemão inspirou seu trabalho em Bertolt Brecht, que caracterizava no teatro os dirigentes nazistas como líderes mafiosos. Anos mais tarde, o sociólogo alemão desenvolveu essa teoria em diálogo com Adorno, afirmando que o colapso do liberalismo está transformando a sociedade em uma guerra de rackets. Mas, o que significa essa teoria? "Uma agência para a imposição agressiva de um interesse particular, que substitui o direito pelo favor, a segurança jurídica pela proteção paga, à custa dos indivíduos e do interesse geral. Essa teoria é lembrada por Amador Fernández-Savater, ao argumentar que estamos vivendo uma transição de uma lógica política e democrática para o que o autor chama de "lógica gangster". Nesse modelo, as instituições tradicionais não desaparecem, mas são esvaziadas e transformadas em "rackets", ou, esquemas de extorsão. A lei é substituída pela lealdade pessoal e pela proteção, onde a corrupção deixa de ser um desvio para se tornar o modo estrutural de funcionamento da sociedade, fundindo o legal e o ilegal em uma única rede de poder e sobrevivência.
A obsessão de Donald Trump pela Groenlândia deixou de ser uma anedota imobiliária para se tornar a "ponta de lança" que deseja implodir a ordem global. Ao reivindicar o território dinamarquês, Donald Trump não busca apenas recursos naturais, mas ataca diretamente os alicerces da OTAN, fragmentando a ordem militar mundial. Uma movimentação que estilhaça a aliança transatlântica ao colocar Washington em rota de colisão com seus antigos parceiros europeus, que agora veem os estados unidos como uma potência predadora disposta a deslegitimar a soberania do Velho Continente em nome de um novo expansionismo. Essa semana, pela primeira vez na história moderna, os países europeus da OTAN estão enviando tropas para a Groenlândia, evidenciando que o racha na OTAN já é uma realidade. Essa fragmentação militar redefine o tabuleiro geopolítico, que pode transformar a ilha em um epicentro de resistência europeia contra as arbitrariedades da Casa Branca.
A ironia mais profunda dessa nova desordem é a inversão total das alianças da Guerra Fria. Em um cenário impensável décadas atrás, a Rússia de Vladimir Putin surge como uma aliada tácita das pretensões americanas. Putin sinalizou que a reivindicação dos EUA sobre a Groenlândia é "normal", uma posição que visa acelerar o colapso da OTAN. Ao apoiar o pleito de Trump, Moscou joga para dividir o Ocidente, fazendo com que os antigos inimigos da Guerra Fria agora compartilhem o interesse de ver a estrutura de segurança europeia reduzida a escombros.
Ainda queremos destacar as dez teses sobre a nova era, elaboradas por Steven Forti. No tópicos, o historiador sinaliza que vivemos um período de ruptura sistêmica, onde a extrema-direita deixou de ser uma anomalia para se tornar a força política que dita a agenda global, explorando o esgotamento do modelo neoliberal e a crise das democracias liberais. Forti argumenta que vivemos uma "normalização do extraordinário", caracterizada pela substituição do debate racional por uma guerra cultural permanente, pela erosão da distinção entre o legal e o ilegal e por uma profunda mutação na subjetividade das massas, que agora encontram refúgio em identidades exclusivistas e autoritárias. O texto alerta que a esquerda e os campos democráticos estão falhando para responder a este cenário com receitas do século XX, sublinhando que a sobrevivência da democracia depende de uma compreensão realista desta nova gramática do poder, que não busca apenas governar, mas refundar as bases da convivência social através do medo e da desinformação.
O Brasil segue em suspenso rumo às eleições de 2026. Estamos, como afirma o sociólogo Paulo Baía, "entre a memória e o desejo. Entre a proteção e a mudança. Entre o medo do retorno ao caos e a frustração com o presente. É nesse espaço instável, tenso e aberto que a eleição de 2026 se desenha. Não como redenção. Não como colapso. Mas como mais uma travessia histórica num país que insiste em continuar caminhando, mesmo quando o chão parece instável sob seus pés". Para o professor, a pesquisa Genial Quaest divulgada em 14 de janeiro de 2026 marca a existência de um profundo divórcio entre os números frios da economia e a percepção subjetiva da população. Para o sociólogo, 2026 não será apenas uma disputa eleitoral comum, mas um teste de resistência para um país que não colapsa, mas também não se estabiliza. Ele enfatiza que o sentimento de "país malgovernado" e o medo do retorno ao caos criam um ambiente de tensão permanente, onde a política deixou de oferecer conforto para se tornar um conflito regulado, exigindo uma reconstrução urgente da imaginação política para evitar que a barbárie se torne o único horizonte possível.
Já o economista Paulo Nogueira Batista Jr. alerta que o Brasil enfrenta um "risco existencial" diante do novo expansionismo militar dos Estados Unidos, evidenciado pela intervenção na Venezuela e pela agressividade da administração Trump. Ele defende que o país precisa superar sua vulnerabilidade militar histórica e investir urgentemente em um poder de dissuasão real, que inclua inclusive o desenvolvimento de armamento nuclear, como única forma de evitar que o Brasil seja reduzido à condição de "quintal" ou vassalo dos interesses americanos. Segundo aponta, a eleição de 2026 será o teste definitivo de soberania, opondo um projeto de nação independente àqueles que ele classifica como a "quinta-coluna" das elites brasileiras, dispostas a renunciar aos vastos recursos naturais do país em troca de alinhamento com a superpotência imperial.
O Papa Leão XIV vem se consolidado como uma voz de oposição às políticas de Donald Trump, especialmente em relação ao militarismo e à imigração. O pontífice condenou a invasão dos Estados Unidos à Venezuela, classificando-a como uma solução violenta inaceitável e instando o governo americano a priorizar o diálogo e o multilateralismo. Como o primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Robert Prevost utiliza sua autoridade para denunciar a "Doutrina Donroe", defendendo que a paz deve ser construída por meio de negociações de bastidores e pressões econômicas, em vez da força bruta. No plano humanitário e no que se refere à nova política migratória da Casa Branca, o Papa tem confrontado duramente a campanha de deportações em massa e a criminalização de migrantes, políticas que ele considera uma agressão à dignidade humana. Ao se oferecer como mediador global, ele desafia a lógica de clãs e o isolacionismo de Trump, posicionando a Igreja como um farol contra a polarização e defendendo uma "paz desarmada" que proteja populações vulneráveis, como os povos da Groenlândia e da América Latina, da ganância das superpotências.
O jornalista e político italiano Raniero La Valle fez um apelo à restauração do Direito Internacional como a única alternativa à autodestruição da civilização, criticando a regressão histórica que substituiu a diplomacia pela lei da força. La Valle argumenta que a humanidade se encontra num "beco sem saída" provocado pela ideologia da guerra e pela prepotência das potências, exemplificada pela agressividade da administração Trump, e defende que apenas um regresso aos princípios da ONU e ao reconhecimento da unidade do gênero humano pode travar a marcha em direção ao abismo nuclear. Para o jornalista, a força não é uma solução, mas uma confissão de falência moral, sendo urgente reafirmar que o futuro do mundo depende da justiça jurídica e não do domínio de clãs ou da violência militar.
E já que falamos em futuro possível, queremos convidar nossos ouvintes a recuperar a utopia. Entender que o pensamento utópico não é um devaneio, mas uma necessidade vital para a nossa sobrevivência coletiva. Em um mundo que parece sitiado pela 'lógica gângster', por guerras por territórios e pelo esgotamento das democracias, a utopia funciona como o oxigênio da política. Ela nos lembra que o presente não é o único destino possível e que o realismo não deve ser uma armadilha para o desespero.
A pesquisadora Lilian Lobato nos convida a "reconhecer que o mundo, tal como o conhecemos, está em colapso e assim ele nos abre para a possibilidade de reavivamento de cosmologias ancestrais que longe de se encerrarem em um passado distante e idealizado, podem nos orientar em direção à possibilidade de futuro. Suspender o céu, como sugere Ailton Krenak, é ampliar o horizonte existencial por meio do enriquecimento das subjetividades".
Assim, manter a utopia viva é manter a capacidade de imaginar um amanhã onde a dignidade humana esteja acima do poder bruto; é a bússola que nos impede de aceitar a barbárie como normalidade. Como nos ensina Carlos Buj, a utopia não é um lugar onde chegaremos, mas o horizonte que nos mantém caminhando. "Por mais tentador que seja fazer o scroll infinito até a náusea ou nos entregarmos ao hedonismo efêmero que o presente nos propõe sem cessar, podemos nos propor a olhar a realidade em toda a sua crueza e, ao mesmo tempo, nos permitir entusiasmar com tudo o que ainda é possível. "Outro mundo não apenas é possível, mas está a caminho. Em um dia tranquilo, posso ouvi-lo respirar. Estamos perdendo, mas o jogo continua. O futuro, como a chuva, sempre volta. Convém plantar boas sementes que, embora não brotem imediatamente, poderão fazê-lo após um aguaceiro. E tempestades, temos tremendas no horizonte".
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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível nas plataformas de áudio e no canal do IHU no YouTube.
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