14 Janeiro 2026
O imperialismo de novo cunho governa um mundo pós-ideológico: da hegemonia à extorsão, da coerência à imprevisibilidade performativa, do relato ao discurso como arma.
O artigo é de Amador Fernández-Savater, publicado por CTXT, 12-01-2026.
Amador Fernández-Savater é pesquisador independente, ativista, editor e "filósofo pirata". Publicou Habitar y gobernar: inspiraciones para una nova concepción política (2020) e La fuerza de los débiles: ensayo sobre la eficacia política (2021). Seu mais recente livro intitula-se Capitalismo libidinal: antropología neoliberal, políticas del deseo, derechización del malestar. Suas atividades e publicações podem ser acompanhadas em www.filosofiapirata.net.
Eis o artigo.
“Mãos ao alto! De cara para a parede!
Você também! E cuidado com o que fazem!”
(Bertolt Brecht, A Resistível Ascensão de Arturo Ui)
Muitas decisões de Donald Trump não são facilmente compreendidas; com ele, há reviravoltas surpreendentes o tempo todo. A relação com autocratas e “líderes fortes” é mutável: aqueles que ontem eram inimigos existenciais (Coreia do Norte, talibãs, chavismo) tornam-se, de repente, interlocutores e cúmplices. A confusão entre Estado, empresa e família é permanente; a filha de Trump e seu marido são destacados negociadores de paz em Israel; as negociações de paz têm mais a ver com operações imobiliárias do que com exercícios diplomáticos. A política comercial é contraditória e a relação com seus próprios aparelhos de poder é caótica. Etc.
Tudo isso se explica pela arbitrariedade caprichosa do personagem? Ou talvez se deva ao fato de que ele pensa a partir de uma lógica que não identificamos? Por exemplo, a lógica de um gangster…
A teoria dos rackets
Nos anos quarenta, o filósofo e sociólogo alemão Max Horkheimer, membro da Escola de Frankfurt, esboça em alguns textos uma “teoria dos rackets”. A palavra racket não tem tradução fácil: camarilha de conspiradores, bando, esquema, "máfia". A inspiração inicial vem de Bertolt Brecht, que em algumas de suas peças de teatro mais famosas — como A Resistível Ascensão de Arturo Ui — caracterizou os dirigentes nazistas como líderes mafiosos.
Arturo Ui, extorsionário desajeitado e gangster menor, está decidido a resolver a decadência do negócio da couve-flor mediante sequestros e chantagens, ameaças e massacres. “Nada de violência! Apenas um pouco de insistência, amigo”, diz Ui ironicamente a uma de suas vítimas. O chefe do bando transformar-se-á depois em estadista, líder carismático e homem de Estado, figura politicamente apresentável, capaz de transformar a violência mafiosa em autoridade pública. Arturo Ui permite a Brecht fazer uma reflexão sobre a sobreposição entre violência e legalidade, burguesia e fascismo.
Horkheimer desenvolverá a intuição de Brecht já nos Estados Unidos, em diálogo com seu amigo Adorno: o colapso do liberalismo está transformando a sociedade em uma guerra de rackets. O que é um racket? Uma agência para a imposição agressiva de um interesse particular, que substitui o direito pelo favor, a segurança jurídica pela proteção paga, à custa dos indivíduos e do interesse geral. A forma social que emerge quando o capitalismo liberal se decompõe.
A guerra social que o capitalismo acarreta, com sua tendência ao monopólio, seu princípio de competitividade e lucro acima de tudo, livra-se das mediações tradicionais da sociedade burguesa, como a divisão de poderes, as garantias contratuais e os direitos humanos. Essas instâncias não desaparecem — sua fachada é mantida — mas são esvaziadas e instrumentalizadas. As atividades legais e ilegais fundem-se, sobrepõem-se e retroalimentam-se.
O negócio dos rackets é a extorsão: segurança em troca de lealdade e obediência.
A lei que domina é a autoconservação. O mundo é cada vez mais duro e é preciso endurecer para sobreviver. Ou comprar proteção dos fortes. O negócio dos rackets é a extorsão: segurança em troca de lealdade e obediência. Existem rackets no trabalho, na política, no bairro... A corrupção é estrutural. Não ter proteção em um mundo implacável equivale a morrer. As populações são geridas como clientelas assustadiças.
O mundo dos rackets é — como o mundo dos negócios, dos serviços secretos, da política profissional, dos grupos terroristas, dos exércitos e da guerra — um mundo sem mulheres. Ou, para ser mais exato, um mundo sem posição feminina. Não há espaço para a ambiguidade, a vulnerabilidade ou a compaixão. Tudo deve estar sob controle, tudo é prova de força, tudo deve ser útil e calculável.
Só existe o poder. Negócios privados, regras particulares, lealdades pessoais, represálias e ameaças, proteções seletivas em um mundo repartido em parcelas, com os rackets competindo entre si em um estado de exceção permanente onde todas as relações são instrumentais, os vínculos são superficiais e a traição é permanente.
Imperialismo gangster
A guerra e o pós-guerra levariam as análises de Horkheimer por outros caminhos, mas sua intuição não ressoa poderosamente com o mundo atual? Os rackets reemergiriam hoje como forma social dominante na crise do capitalismo — não mais liberal, mas neoliberal — igualmente incapaz de integrar amplas camadas da população, de garantir o bem-estar através do mercado ou de configurar um Estado credível como mediador universal.
Precisemos um ponto importante: o devir mafioso do capitalismo atual não significa exatamente que o poder caia em mãos de máfias, mas sim que tudo deve parecer-se com uma máfia para sobreviver. As instituições e cada um de nós. Todos devemos nos tornar um pouco mafiosos para seguir adiante…
Com Donald Trump, não é um indivíduo singular que toma o poder, mas uma racionalidade: a do racket. O respeito por pertencimento ou força, a lógica da sobrevivência, a ferocidade como regulador das relações sociais. Trump não é um “caudilho excêntrico”, mas a expressão privilegiada e visível de um devir mafioso social, difuso.
A legalidade torna-se mero recurso estratégico. É aplicada seletivamente, instrumentalizada como arma, suspensa quando estorva. Não desaparece, privatiza-se. O Estado formalmente está intacto, mas os processos judiciais são parciais, o direito administrativo é usado para castigar inimigos, as ilegalidades são toleradas dependendo de quem as comete. A lógica gangster não revoga o direito; ela vive em sua ambiguidade constitutiva.
Como funcionaria essa lógica gangster em nível imperial? Como seria o império dos rackets? O imperialismo gangster já não se propõe como um tipo de hegemonia integradora, de concerto de nações e Estados, mas como um conjunto de práticas extorsivas: proteção a preços variáveis, negócios privados com rackets políticos e armados, arbitragem entre camarilhas rivais, poder de tutela indireto e voraz, chantagem aos aliados e abandono de zonas inteiras à anarquia. Novas práticas imperiais que o filósofo Alain Badiou qualifica como “zonificação”.
Não importa a ideologia: cuide deste negócio de petróleo para mim e eu te darei proteção.
Podemos imaginar Nixon e Kissinger derrubando Allende para depois encarregar o restante da Unidade Popular da continuidade da gestão política? O golpe contra Allende justifica-se ideologicamente, inscreve-se em uma estratégia global (“luta do mundo livre”), busca-se uma continuidade de bloco. O imperialismo gangster governa um mundo pós-ideológico: da hegemonia à extorsão, da coerência à imprevisibilidade performativa, do relato ao discurso como arma (que ameaça, que adverte, que humilha, que chantageia, que faz barulho).
Não importa a ideologia: cuide deste negócio de petróleo para mim e eu te darei amparo frente aos outros bandos. Não importa o sentido: não se trata de persuadir ou seduzir, mas de que você sinta a força por trás das minhas palavras e o seu medo (“sem mim, você está indefeso”). Não importam os procedimentos, o que diga o Congresso ou o Senado; o domínio é direto e imediato (a justificativa vem depois, se for o caso). Lógica gangster: raciocina-se em termos de clã, de trato, de força.
“O racket não sente piedade pela vida fora dele; só conhece a lei da autoconservação” (Horkheimer). E quem não está hoje apaixonado pelos gangsters, depois de tantos anos vendo filmes de mafiosos e séries de narcos?
Amador Fernández-Savater ministrará o workshop "Pensar o mal com Hannah Arendt" nos próximos dias 19, 20 e 21 de janeiro. Mais informações aqui.
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