Os esforços de 80 anos transformados em fumaça por Trump. Artigo de Gianni Oliva

Foto: Gage Skidmore/Flickr

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12 Janeiro 2026

"O silêncio e os equilibrismos funcionam em tempos normais; mas estes são tempos extraordinários, e aqueles que hoje se calam (ou desviam o olhar para o outro lado, regozijando-se com a redução das tarifas sobre o macarrão) são responsáveis pelo que endossam. Quando a força não encontra barreiras, sabemos onde começa, mas não onde vai parar."

O artigo é de Gianni Oliva, historiador italiano, publicado por La Stampa, 10-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

O "direito" é uma elaboração teórica que não pode dispensar seu instrumento de aplicação, a "força" com que é imposto. A história do mundo é permeada por "direitos" fundados em diferentes sistemas de valores que se sucederam uns aos outros em decorrência da mudança do equilíbrio de forças internas ou internacionais: do "jus latino", afirmado pelo poder avassalador das legiões (e transformado pela historiografia na "pax romana"), ao "direito" medieval confiado ao critério dos "senhores", até o "Estado moderno", entendido nos termos de Weber como a instituição que afirma o "monopólio da força" sobre o particularismo feudal, os eventos humanos têm um denominador comum na imposição forçada de princípios e regras definidos pelos vencedores.

No final da Segunda Guerra Mundial, contudo, despontou uma nova atitude, impulsionada por cinco anos de massacres e vergonhas: regular a vida da comunidade internacional segundo normas universalmente aceitas. Não se tratava da utopia da Liga das Nações (minada desde o início pela não adesão dos Estados Unidos, que a haviam proposto), mas sim de um articulado sistema de organismos internacionais que deviam funcionar como fóruns de discussão e resolução de crises: a ONU e seus órgãos subsidiários, os tribunais de justiça, os tratados multilaterais e os encontros periódicos dos G7 e dos G20, todos sinalizavam a busca por uma dimensão coletiva que impedisse as derivas de 1940-45. Apesar de sua característica singular de não emanar de uma autoridade central que emite a lei e garante sua aplicação, o direito internacional se beneficiou de uma autoridade moral que não impediu os conflitos, mas serviu como ponto de referência e um chamado ao debate, perdurando, dessa forma, mesmo após 1989 e o fim do bipolarismo.

Trump transformou em fumaça os esforços (e as ilusões) de oitenta anos. Em junho passado, quando, após o bombardeio de instalações nucleares iranianas, declarou que "os ataques no Irã, como em Hiroshima e Nagasaki, puseram fim à guerra", ele deu a definição do que significa "força": dentre mil páginas da história estadunidense, citou como méritos as mais controversas, as mais horríveis, aquelas que todos os seus antecessores, republicanos ou democratas, jamais haviam mencionado por respeito ou pudor. Tudo o que aconteceu e está acontecendo é a explicitação do mesmo princípio, o "direito" fundado na prepotência da força: da aprovação à estratégia de Netanyahu à substancial solidariedade com Putin, ao ataque à Venezuela, às pretensões sobre a Groenlândia, às ameaças de intervenção no Irã, tudo independe de qualquer debate. A ONU não sai disso humilhada: sai humilhado o esforço de três gerações para dar um sentido ético à convivência internacional.

Ninguém lamenta as derrotas do Hamas, de Maduro ou dos aiatolás; mas as formas como se está atuando contra os novos "impérios do mal" estão introduzindo um mal igualmente profundo e insidioso, o princípio de que conta apenas a força militar e o arbítrio daqueles que a possuem. Depois de 1945, havíamos entendido, ao contrário, que o que deve contar é a dimensão coletiva, dentro da qual as decisões são tomadas.

Não sei se as escolhas de Trump decorrem de uma estratégia que visa controlar recursos e rotas, da intenção de distrair a opinião pública interna dos reveses econômicos ou mesmo da necessidade de alimentar seu eleitorado com a demonstração muscular. Sei, porém, que não podemos simplesmente nos reduzir a perguntar: "quem será o próximo?". Diante do arsenal estadunidense, estamos todos impotentes: mas será realmente que a opinião pública da qual o trumpismo tanto zomba deixou de existir? As palavras de Leão XIV ou de Mattarella no final do ano apontam um caminho: a participação. Cabe àqueles que governam, àqueles com responsabilidades políticas e àqueles com visibilidade midiática, solicitá-la. O silêncio e os equilibrismos funcionam em tempos normais; mas estes são tempos extraordinários, e aqueles que hoje se calam (ou desviam o olhar para o outro lado, regozijando-se com a redução das tarifas sobre o macarrão) são responsáveis pelo que endossam. Quando a força não encontra barreiras, sabemos onde começa, mas não onde vai parar.

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