12 Janeiro 2026
"Padres traidores do Deus que afirmam servir, e o vendem barato à política e à guerra."
O artigo é de Michele Serra, jornalista, escritor e roteirista italiano, publicado por La Repubblica, 09-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Putin não é o primeiro — nem, tememos, o último — dos chefes de Estado a invocar a religião como mandante da guerra, ou sua benevolente patrocinadora. Ele o fez por ocasião do Natal Ortodoxo, comparando o papel de Cristo Salvador ao dos soldados russos: eles também são salvadores, disse ele, porque defendem a Rússia por ordem do Senhor.
O fato de a salvação prometida pela mensagem cristã se referir a toda a humanidade, certamente não a essa ou aquela nação, já seria por si só suficiente para tornar óbvia a natureza blasfema de todos “Gott mit uns” deste mundo: um truque sujo, ou uma patológica distorção ideológica, que apaga de saída o universalismo religioso, e o evangélico em particular, e alista Deus no pequeno quintal das Nações: uma unidade de medida que, comparada ao espírito com que cada ser humano olha para as estrelas e reflete sobre sua vida e morte, vale tanto quanto uma meleca de nariz.
Mas há algo ainda pior do que um líder político que coloca Deus na ponta de seus canhões. São os padres que assistem (havia um grupinho ao lado de Putin) e abençoam aquele horror. E ficam impassíveis, por pusilanimidade ou porque também estão presos ao ódio pelo inimigo e ao afã da dominação nacionalista. E nem mesmo piscam quando veem a fé da qual deveriam ser testemunhas e protetoras sendo usada como pretexto para a guerra. Padres traidores do Deus que afirmam servir, e o vendem barato à política e à guerra.
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