09 Janeiro 2026
"Num mundo altamente interligado por múltiplas cadeias de valor internacionais, a proposta de Trump é absurda, produto de uma ilusão patológica de grandeza e onipotência que, mais cedo ou mais tarde, acelerará o declínio dos Estados Unidos, algo que, como demonstra a história dos impérios, não pode ser impedido pela força das armas" escreve Atilio A. Boron, sociólogo, cientista político, professor e escritor argentino, em artigo publicado por Página/12, 09-01-2026.
Eis o artigo.
O ataque brutal nas primeiras horas de 3 de janeiro, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro Moros, ficará marcado na história como o ponto de virada que desferiu o golpe final na tão alardeada “ordem mundial baseada em regras”. Foi um colapso gradual, que lenta mas persistentemente descartou partes daquela estrutura concebida para conter os conflitos e contradições de um sistema internacional cada vez mais complexo e interconectado.
A impotência do sistema das Nações Unidas em deter o genocídio e o infanticídio perpetrados pelo regime racista israelense em Gaza é um exemplo flagrante desse fracasso. O mesmo se aplica ao sequestro do ex-vice-presidente equatoriano Jorge Glas, que buscou asilo na embaixada mexicana em Quito e foi capturado pelas forças armadas locais em flagrante violação da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas e Imunidades. O silêncio cúmplice de muitos líderes ocidentais diante da barbárie desencadeada em Caracas é mais um sinal do colapso de uma “ordem” incapaz de regular o fluxo incessante e cada vez mais complexo que anima o sistema internacional.
Para compreender a magnitude dessa transformação sistêmica, vamos relembrar a situação durante a Guerra Fria. Naquela época, o sistema internacional era bipolar, colocando o Ocidente, o suposto berço da "liberdade", da "democracia" e dos "direitos humanos", contra a União Soviética e seus aliados, personificações demoníacas de todo o mal que pudesse existir neste mundo.
Era uma estrutura relativamente simples, que colocava dois grandes centros de poder em confronto, com os Estados como únicos atores. Além disso, cada um desses polos operava dentro de seu próprio ecossistema econômico e político. Não havia relações econômicas ou financeiras entre a União Soviética e os Estados Unidos. O diálogo girava exclusivamente em torno de questões militares e se limitava à elaboração de tratados para conter a corrida armamentista.
Os diálogos ocorreram entre governos, com uma ausência quase total de atores não estatais, e o intercâmbio econômico entre as duas superpotências foi praticamente inexistente: mal atingiu um por cento de suas exportações.
Mas esse mundo acabou. Em 2024, último ano com dados confirmados, o volume do comércio bilateral entre os Estados Unidos e a China atingiu US$ 585 bilhões, resultando em um alto grau de integração entre as duas economias, algo inimaginável durante a Guerra Fria. Além disso, enquanto o antigo sistema bipolar era fortemente estatista, a reconstituição ocorrida com a queda da URSS apresenta um cenário onde, ao lado dos governos, emergiu um vasto número de atores não estatais. Para começar, existem empresas gigantescas cujo valor de mercado supera em muito o produto interno bruto da maioria dos países. A Nvidia supera o PIB da Alemanha; a Apple e a Microsoft, o da França e do Reino Unido; a OpenAI vale mais do que o PIB da Indonésia; e as cinco gigantes da tecnologia — Apple, Amazon, Microsoft, Google e Facebook (Meta) — superam quase todas as economias do mundo, com exceção dos Estados Unidos e da China. O Facebook, aliás, é o "país" mais populoso do planeta, com 3,07 bilhões de usuários ativos no final de 2025 — mais do que a população da Índia ou da China. É evidente que esse enorme poder corporativo tem sido decisivo no esvaziamento das democracias liberais em nossa época, reduzindo-as a uma rotina eleitoral infrutífera, onde pode haver uma mudança de partidos governantes, mas sem a criação de novas alternativas para as políticas públicas.
Além das corporações, existe uma galáxia de ONGs de impacto global, como o Greenpeace, Médicos Sem Fronteiras, Oxfam, a Tax Justice Network e muitas outras; ou o enxame de organizações intergovernamentais, como as Nações Unidas, a Unesco, o Unicef, a Organização Mundial da Saúde e, mais recentemente, a criação do BRICS e sua atual expansão — uma coalizão do Sul Global destinada a desempenhar um papel cada vez mais proeminente na construção de uma nova ordem internacional. A todos os atores mencionados, devemos acrescentar o crime organizado transnacional: cartéis de drogas, grupos de tráfico humano, comércio ilegal de armas, tráfico de órgãos e organizações terroristas, em alguns casos criadas pelos Estados Unidos para combater governos adversários, especialmente no Oriente Médio e na Ásia Central. Além disso, devemos incluir vários movimentos sociais organizados internacionalmente, como o movimento contra a Alca no início do século, a Via Campesina, a Aliança Social Continental, bem como os diversos movimentos feministas e ambientalistas transnacionais.
A enorme complexidade do cenário internacional exige urgentemente a criação de uma nova ordem, ou um conjunto de regras baseado na premissa de que todos ganham (o "ganha-ganha" da China) e que todos se sintam seguros dentro da nova estrutura institucional. Mas não é isso que os Estados Unidos e seus agora repudiados vassalos europeus estão propondo. Para eles, o objetivo é reforçar a ordem já corrompida, aumentando o orçamento militar, fortalecendo a Otan e atualizando a Doutrina Monroe com a brutalidade do bombardeio de Caracas e o sequestro sem precedentes do presidente de uma nação soberana, que eles querem transformar em uma colônia dos EUA.
A afirmação de Trump de que supervisionará a "transição" e a reconstrução da Venezuela (embora não tenha usado exatamente essa palavra) só pode ser entendida como um produto do desespero diante de um mundo que jamais será o mesmo. Por exemplo, esperar que a Venezuela pare de vender petróleo para a China é uma tarefa absurda e impossível, assim como a proposta da nova Estratégia de Segurança Nacional, que visa distanciar "potências extra-hemisféricas" como China, Rússia, Irã e até mesmo a Índia da região. As ações de Trump representam um retrocesso em comparação com a formulação original da Doutrina Monroe, que rejeitava qualquer tentativa das antigas potências europeias de recolonizar os países da América Latina e do Caribe, mas não chegava a extremos como exigir, como Trump faz, o rompimento das relações comerciais entre nossos países e outros fora da região, inclusive com as antigas potências coloniais. O magnata nova-iorquino, por outro lado, quer cercar todo o hemisfério com arame farpado, proclamar-se seu dono absoluto e tentar, com essa loucura, recuperar posições na arena internacional, atropelando os preceitos do direito internacional e do livre comércio.
O que ele fará com os inúmeros países cujo principal parceiro comercial ou investidor é a China, o Brasil ou o Chile, para citar apenas alguns? Ele os bombardeará como fez na Venezuela? Além disso, entre os bajuladores que o cercam, não há ninguém para dizer a Trump que a China possui as armas comerciais, financeiras e tecnológicas para infligir enormes danos à economia americana se a Casa Branca persistir em impedir que o gigante asiático negocie com países do Hemisfério Ocidental? Um único exemplo basta para provar isso: a China possui, de longe, as maiores reservas mundiais de elementos de terras raras e também domina seu refino, processando inclusive grande parte dos extraídos por outros países. E sem essa matéria-prima, a indústria de defesa americana paralisa. Trump acredita que Pequim aceitará passivamente, sem retaliar contra sua tentativa de distanciá-la do Hemisfério Ocidental? Em suma, trata-se de um absurdo colossal fadado ao fracasso. Num mundo altamente interligado por múltiplas cadeias de valor internacionais, a proposta de Trump é absurda, produto de uma ilusão patológica de grandeza e onipotência que, mais cedo ou mais tarde, acelerará o declínio dos Estados Unidos, algo que, como demonstra a história dos impérios, não pode ser impedido pela força das armas.
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