29 Novembro 2025
Os vínculos do magnata nova-iorquino com o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak, voltados a transformar convulsões políticas e sociais em negócios, assim como sua participação em diversos conflitos globais, revelam uma das facetas menos exploradas de alguém que conseguiu construir um manto de impunidade sobre seus abusos.
O artigo é de Jeet Heer, publicado por The Nation e reproduzido por Nueva Sociedad, novembro de 2025.
Jeet Heer é jornalista canadense, correspondente da The Nation e apresentador do podcast da revista The Time of Monsters.
Eis o artigo.
A perspectiva do caos e da guerra excitava Jeffrey Epstein. O falecido financista e abusador de menores nova-iorquino acompanhava de perto notícias sobre conflitos estrangeiros que pudessem ser explorados comercialmente. Em 21 de fevereiro de 2014, Epstein enviou um e-mail a Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, com quem se associaria no ano seguinte como investidor em uma empresa de tecnologia de segurança chamada Reporty Homeland Security (mais tarde renomeada Carbyne). Epstein escreveu: “Com os distúrbios civis que estão surgindo na Ucrânia, Síria, Somália e Líbia, e o desespero de quem está no poder, isso não é uma situação ideal para você?” Barak tentou moderar o entusiasmo do amigo, observando: “De certo modo você tem razão. Mas não é fácil transformar tudo isso em dinheiro”.
Essa troca, publicada pelo Drop Site News, revela um dos aspectos mais ocultos do escândalo Epstein. O nome de Epstein está indissociavelmente ligado às suas ações como predador sexual — e assim deve ser. Mas também deveria estar ligado ao militarismo e ao autoritarismo globais. Epstein não apenas traficava os corpos das menores que abusava, mas também as conexões sociais capazes de unir as elites. Ele compreendia perfeitamente que o “desespero de quem estava no poder” poderia levá-los a comprar o que ele oferecia: vínculos com outras figuras poderosas e sistemas de segurança destinados a reprimir a dissidência.
O escândalo Epstein voltou a explodir depois que os democratas da Câmara dos Representantes divulgaram um enorme arquivo de e-mails entre Epstein e muitos de seus famosos associados. Como escreveram meus colegas de The Nation Chris Lehmann e Joan Walsh, esses e-mails são politicamente prejudiciais para Donald Trump, pois reforçam ainda mais as evidências de que o ex-presidente foi amigo íntimo de Epstein por muitos anos, estava ciente de seus atos como predador e possivelmente participou de alguns de seus crimes.
Trump merece todo dano reputacional e toda possível consequência legal que possa sofrer por seus vínculos com Epstein. Essencialmente, esse sempre foi um escândalo que envolve a classe dirigente como um todo, não um indivíduo ou um partido político específico.
Os e-mails de Epstein documentam seus vínculos com um amplo setor da elite estadunidense e mundial que transcende fronteiras partidárias. Entre aqueles com quem Epstein mantinha uma relação cordial estavam o ex-secretário do Tesouro Larry Summers (que ocupou altos cargos tanto com Bill Clinton quanto com Barack Obama), além de Steve Bannon, assessor de Trump, e o bilionário de direita Peter Thiel. Até mesmo Noam Chomsky escreveu com admiração sobre seu “amigo muito precioso”.
A grande pergunta sobre Epstein é por que lhe permitiram prosperar por tanto tempo quando seus crimes, na prática, foram durante décadas um segredo a céu aberto. Por exemplo, por que ele obteve, em 2008, um acordo vantajoso que equivalia a uma mera advertência por crimes sexuais contra menores? O homem que negociou esse acordo, o ex-promotor federal Alex Acosta, havia confidenciado anteriormente a Steve Bannon que Epstein “pertencia à inteligência”. Mas em seu depoimento ao Congresso, publicado no mês passado pelo Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, Acosta afirmou que “não tinha conhecimento de se [Epstein] era ou não membro da comunidade de inteligência”.
A ambiguidade das declarações de Acosta, somada aos inúmeros mistérios que envolvem a fortuna e as conexões sociais de Epstein, alimentou por muito tempo a especulação de que ele teria sido agente da Agência Central de Inteligência (CIA) ou do Mossad.
Graças ao trabalho minucioso de dois meios independentes, Drop Site e Reason, agora compreendemos muito melhor a relação de Epstein com a elite da política externa dos Estados Unidos e de Israel. Parece que Epstein não era um agente da CIA nem do Mossad — não por falta de capacidade, mas porque esse papel lhe parecia pequeno demais. Ele era, antes, um corretor (broker) do poder, um oligarca americano que desempenhou um papel fundamental na configuração da política ocidental, o que lhe permitiu estabelecer contatos com diplomatas e agências de espionagem.
Matthew Petti escreveu, em agosto, para a revista libertária Reason, um artigo que documenta a natureza dos vínculos de Epstein com Ehud Barak: “Após sua primeira prisão por crimes sexuais, Jeffrey Epstein tentou entrar em um novo negócio: a vigilância. Em 2015, associou-se ao ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak para investir na startup de tecnologia de segurança Reporty Homeland Security, agora conhecida como Carbyne. E-mails vazados revelam que Epstein utilizava Barak para buscar oportunidades na indústria de vigilância e estabelecer conexões com figuras poderosas em todo o mundo, incluindo o empresário americano Peter Thiel, o ex-diretor da inteligência de sinais israelense e duas pessoas do círculo do presidente russo Vladimir Putin”.
Após a segunda prisão de Epstein em 2019, Barak rompeu relações com ele. Em conversa com o jornal Haaretz, Barak explicou que Epstein era “uma versão terrível do Dr. Jekyll e Mr. Hyde” (insinuando, curiosamente, que existe uma versão “não terrível” do romance de terror de Robert Louis Stevenson). Barak acrescentou que Epstein “naquele momento parecia uma pessoa inteligente, com boas conexões sociais e interesses variados, da ciência à geopolítica”.
A investigação de Petti baseou-se em uma fonte amplamente ignorada pelos grandes meios de comunicação: um conjunto de e-mails trocados com Barak, hackeados e encontrados no site Distributed Denials of Secrets (que funciona como um centro de divulgação de vazamentos ao estilo WikiLeaks).
Murtaza Hussain e Ryan Grim, do Drop Site, utilizaram recentemente o mesmo site para publicar uma série de reportagens impactantes que mergulham na história dos vínculos de Epstein com Barak e com a elite da política externa dos EUA e de Israel. Um dos artigos afirmava que “Jeffrey Epstein organizou o trabalho para abrir um canal de comunicação não oficial entre Israel e o Kremlin durante a guerra civil síria (…) O conjunto de e-mails, trocados no auge da guerra civil síria entre 2013 e 2016, revela o sucesso do trabalho de Epstein em conseguir uma reunião privada entre Barak e Putin, para discutir uma solução mediada pela Rússia para o conflito, o que incluía obter o apoio russo para a remoção negociada do presidente sírio Bashar al-Assad”.
Outras reportagens documentam o papel de Epstein no fortalecimento dos laços de Israel com Mongólia e Costa do Marfim (em ambos os casos, facilitando a venda de tecnologia de vigilância israelense). A equipe do Drop Site também revelou que um oficial de inteligência israelense (o falecido Yoni Koren, sócio de Barak por muitos anos) era presença frequente na residência de Epstein em Manhattan.
Os vínculos de Epstein com a inteligência dos Estados Unidos continuam nebulosos, mas é difícil acreditar que um cidadão americano pudesse participar de atividades diplomáticas de tão alto nível (que envolvem contato com potências estrangeiras) sem o conhecimento e o apoio tácito do aparato de segurança nacional do país.
O papel proeminente de Epstein na política externa deixa claro que ele não era apenas um servidor do império, mas uma figura influente. O especialista em relações internacionais Van Jackson, professor da Universidade Victoria em Wellington, oferece uma análise precisa da posição singular de Epstein. Em seu blog no Substack, Un-Diplomatic, Jackson observou que Epstein era “um dos geopolíticos mais proeminentes do mundo, razão pela qual envolveu tantas pessoas poderosas em suas falcatruas. As aventuras sexuais que envolviam tráfico de pessoas não foram o principal motivo que o unia a seus amigos pedófilos. Foram o dinheiro e o jogo de poder, que funcionavam como uma artéria vital da hegemonia global americana. Epstein, como intermediário entre a inteligência israelense e oligarcas e cleptocratas estrangeiros, também foi um subproduto da estrutura da hegemonia americana — isto é, da ordem econômica neoliberal, também conhecida como era da globalização neoliberal.”
A história de Jeffrey Epstein não faz sentido a menos que se compreenda que ele estava profundamente enraizado na elite da política externa — um fato que lhe garantiu grande parte da impunidade de que desfrutou durante quase toda a sua vida. Os poderosos sentiam-se à vontade com Epstein porque ele era um deles. Compartilhava a mesma visão de mundo que domina a elite estadunidense desde o fim da Guerra Fria. Acreditava no Consenso de Washington, na hegemonia militar dos Estados Unidos reforçada no Oriente Médio pela aliança com Israel, na globalização, na privatização de funções governamentais, na educação voltada para ciência, tecnologia, engenharia e matemática e no hedonismo sexual masculino — um ethos que ele levou a extremos repulsivos.
Em um e-mail enviado a Barak em 2015, Epstein afirmava que “muitas empresas buscam uma nova perspectiva de gestão, semelhante à militar”. Essa fusão da cultura corporativa com o militarismo é uma das características marcantes da era neoliberal. Epstein esteve na vanguarda desse processo.
Ao tentar compreender a trajetória de Epstein, torna-se inevitável lembrar um dos grandes romances norte-americanos: O Arco-Íris da Gravidade (1973), de Thomas Pynchon. Pynchon era obcecado pelo sistema clandestino formado em tempos de guerra, que misturava objetivos públicos ilusórios com ambições privadas e agendas corporativas. Em certo momento, o narrador do romance reflete sobre como a guerra permite a prosperidade de traficantes de todo tipo — de artigos de luxo, de exploração sexual, de refugiados: “Não se deve esquecer que o verdadeiro negócio da guerra é comprar e vender. O assassinato e a violência têm sua própria dinâmica, e podem ser confiados aos não profissionais. (…) A verdadeira guerra é a festa dos mercados. Mercados organizados, cuidadosamente chamados de ‘negros’ pelos amadores, surgem em toda parte”. Epstein prosperou nas sombras desses mercados organizados.
A grande mídia norte-americana demonstrou uma impressionante falta de interesse pela natureza da atividade geopolítica de Epstein. Não houve nada parecido com as reportagens contundentes publicadas por Reason e Drop Site — nem no New York Times, nem no Washington Post, nem na CNN, nem nas grandes redes de TV. De fato, os grandes meios de comunicação há muito participam do encobrimento da real magnitude do caso Epstein. Inicialmente, isso consistiu em ignorar seus crimes sexuais, hoje bem conhecidos. Mas, ao ignorarem até que ponto Epstein estava integrado ao império norte-americano, esses veículos agora realizam um novo encobrimento.
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